I
Teorias do ensinar, do ser professor, da educação, etc... Heterorregulação ou autorregulação do comportamento dos alunos, entre outras ideias próprias sobre o que deve ser o ensino, a educação, ser professor, etc.
Arquivos\1º Ciclo\Anita
Mas eu sempre defendi isso, que não iria marcar trabalhos para os meninos chegarem a casa depois das 17h00, muitos ainda vão para outras atividades depois da escola, e dei comigo, hoje, a pensar: "Realmente, não posso sobrecarregar as crianças, porque já lhes basta estar das 9h00 às 17h00 dentro da sala a trabalhar da forma que nós trabalhamos, porque nós na sala não brincamos.". E é isso... os pais queixam-se que não têm tempo, que não podem acompanhar os meninos, e era isso exatamente que nós estávamos a dizer: "são tantas horas na escola, porquê mandar trabalhos de casa?". A minha posição é, sim, marcar, quando não há tempo de acabar um pequeno exercício na sala de aula. Mas, agora, eu comecei a achar que estava a perder um bocadinho o fio à meada, por ter meninos de vários níveis, e comecei a marcar também trabalhos e achei que realmente, se calhar, estou-me a exceder.
Arquivos\1º Ciclo\Celeste
Eu quando voltei a receber os estudantes, a minha preocupação era mostrar-lhes como aquilo que estava a fazer na prática tinha fundamento na teoria, que os meninos estavam a aprender a ler e a escrever daquele modo. Por exemplo, escrever para aprender a escrever? Por que é que era necessário refletir sobre a escrita? Porque é que era necessário refletir sobre o erro? Porque é importante pôr as crianças a falarem e dizerem para aprenderem a pensar? Acabava por fazer e devolver-lhes um bocadinho. Refletia com estudantes sobre a teoria e de que forma é que a teoria fazia sentido na prática e da forma como, a partir daquela prática, podíamos pensar a teoria.
Arquivos\1º Ciclo\Clara
Mas no Primeiro Ciclo, com a L. possivelmente saberá e muito bem, nós não podemos só…as matérias não são só aprendidas, tem de ser consolidadas e nós temos de usar imensas estratégias porque nem todos os alunos aprendem da mesma forma nem à mesma velocidade. As minhas filhas quando eu estou a explicar coisas e a falar dizem que eu tenho a tendência para me repetir explicando cada vez da maneira mais fácil. E as minhas filhas dizem-me assim “Atenção, nós já percebemos!” (Risos).
Arquivos\1º Ciclo\Filipa
Evoluir eu acho que abrange muita coisa. Abrange o aprender a ler e a escrever, o desenvolver-se, também, no plano pessoal, no plano individual, na relação com os outros… eu acho que abrange muita coisa.
Arquivos\1º Ciclo\Gabriela
O mais importante é ter os alunos alegres e bem dispostos. Acho que é fundamental. É chegar à escola e dizer "bom dia, alegria! Bom dia meninos! Está tudo bem disposto? Vamos começar o nosso dia? Quero essas carinhas todas bem dispostas", porque a primeira coisa que eu queria era ver as crianças que estivessem dentro da sala bem dispostas. Isso era fundamental para mim. Se via alguma criança triste ou chateada, ia ter com ela e tinha de dizer "olha, estamos bem, estamos aqui, eu sou vossa mãe da escola", pronto.
Arquivos\1º Ciclo\Gisela
Eu acho que é uma correria... eu acho que a escola perdeu o sentido. O sentido verdadeiro da escola é educar, não se tem tempo. E às vezes aquelas conversas que tínhamos com os meninos, mesmo a transmitir os valores, agora não temos tempo para essas coisas, não temos tempo. Eu acho que foi uma mudança radical no ensino, radical.
Arquivos\1º Ciclo\Graziela
Nós aprendemos mais a teoria, mas eu acho que a prática tem que ser um bocado intuitiva. E aquilo que eu acho, é que para trabalhar com um deficiente mental, que não consegue ler um texto, ou se consegue ler um texto, não consegue fazer a interpretação do texto… é um deficiente mental em que nós não podemos estar a apostar na escrita nem na leitura. Eu acho que temos de apostar na parte prática da vida.
Arquivos\1º Ciclo\Ilda
Eu acho que também há uma idade para tudo. E a certa altura também já não temos a mesma energia e a mesma capacidade de acompanhar os meninos.
Arquivos\1º Ciclo\Inês
A partir de experiências deles, sim, muito a prática. Eram miúdos de uma aldeia de imigrantes. Estavam muitos miúdos com as avós. A maior parte das avós não sabia ler nem escrever, tinham um vocabulário muito restrito. Lembro-me de uma vez, uma colega do norte chegar e ficar muito chocada, porque tinha feito uma questão num teste sobre formas de conservação de alimentos e nenhum deles respondeu. Eu disse: “Acha que eles sabem o que é conservação de alimentos?”. Então, eu expliquei o que era a conservação de alimentos. “Trouxe alguma coisa para a sala e fez alguma experiência?”. “Não.”. “De certeza que a palavra conservação é uma coisa que não lhes diz nada. Imagine, se tivesse falado em azeitonas – eles têm todos azeitonas em casa – se tivesse falado em toucinho salgado, eles iam perceber o que é a conservação de alimentos”. Tem de se conhecer o contexto, para perceber que os miúdos não descodificam certos termos: aquilo não lhes diz nada. Tem de se conseguir descer ao nível do vocabulário deles, porque senão é complicado.
Arquivos\1º Ciclo\Irene
E ainda por cima, alguns deles estavam em turmas de ouvintes, porque a inclusão na altura era para todos. As pessoas ouviram falar que integração e inclusão era para todos. Os surdos precisam de facto de uma comunidade linguística que os faça desenvolver porque precisam de estar em grupos de surdos, embora possam partilhar estruturas com os ouvintes, mas têm de ter acesso à língua deles e, portanto, aquilo que nós constatávamos é que o isolamento era uma coisa brutal com esses meninos e com os adultos também.
Arquivos\1º Ciclo\Isadora
Porque é que no 1.º ciclo [do ensino básico] tem que aprender frações? Isso é tempo, digamos assim, de se aprender mais tarde. Devia-se consolidar outras coisas. A interpretação, a compreensão, o raciocínio na resolução de problemas que nós temos, mesmo na concretização das coisas. Eu com o gráfico, os pontos e o pictograma... foi toda esta semana porque eles não estavam a perceber. Tudo demora, tem que ser concretizado. Eu acho que há falta de tempo e eles, os meninos, têm muita coisa para fazer. Primeiro o livro de fichas, depois o manual, depois outro manual, depois livro de fichas. Quer dizer, é muita coisa, essa turbulência. Verdade seja dita, eles gostam de coisas diferentes, mas às vezes não há tempo para concretizar, principalmente as crianças com mais dificuldade e precisam de mais tempo e não têm, nem em casa nem na escola.
Arquivos\1º Ciclo\João
Quantas vezes, aos miúdos, por exemplo, do oitavo ano, eu pedia [aos professores] testes que tinham feito e trabalhava essas coisas com os miúdos. Portanto, é diferente de atualmente. Não há tanta intervenção, aquilo é mais uma articulação. As coisas passam-se assim. Ali era o princípio de qualquer coisa. Vamos desbravando a terra com os instrumentos que temos, apesar de não ser dos melhores. E o melhor é [que], no fundo, custa-me deixar alguém para trás. É uma coisa que mexe comigo.
Arquivos\1º Ciclo\Marlene
Eu acho que temos de ser atentos, perspicazes, usar escuta. Temos que escutar. Eu acho que não devemos pensar que somos os melhores de todos. Todos temos fragilidades, todos somos diferentes. Se sou diferente dos outros, não posso dar uma aula igual aos outros. É importante eu perceber que sou diferente. Quando me perguntam o que eu uso no ensino da leitura e da escrita, eu digo: "Não tenho um método só! Tenho uma mistura de métodos!". Há miúdos que aprendem muito bem com o método global. Noutros é preciso, se calhar, o método das 28 palavras. Outro o método Paulo Freire que não são palavras. É vida, é a panela, é o campo, é o trabalho, palavras relacionadas com a vivência. Com a criança é o menino, a menina, o sapato, a casa. Temos de saber usar a nossa linguagem nos contextos diferentes.
Arquivos\1º Ciclo\Mónica
Por exemplo, por intermédio—lá está, eu gosto de métodos globais, já te disse— por intermédio do programa que houve que tinha a ver com a leitura; trabalharam muitos psicólogos naquilo, e alguns conhecidos, bons psicólogos, mas o psicólogo não devia estar a ensinar os meninos a ler, ou achas que sim? Ou a falar nos casos de leitura. Devia era dar apoio psicológico, era aí que eu achava… devia ir com quem precisava. Mas eles estavam apanhadinhos pela fenomenologia, estava tudo apanhadinho pela fenomenologia, e então estavam as pobres das crianças a fazer jogos fenomenológicos e não avançavam daí: Era jogo fenomenológico para a frente e jogo fenomenológico para trás.
Arquivos\1º Ciclo\Morgana
Depois eu aprendi a ser professora com os meus colegas no movimento da Escola Moderna. A importância da escola, eu não falava assim na altura, agora já tenho um discurso um bocadinho mais refletido. Mas a importância da escola como um local de produção e não só de reprodução, a questão de que aquilo que as crianças trazem para a sala de aula pode ser trabalhado em termos escolares. A construção dos livros de leitura, por exemplo, como é que se ensina a ler e a escrever a partir do quotidiano das crianças, tudo o que nós dizemos pode ser escrito e transcrito. E também a importância de todas as crianças poderem aprender, já nessa altura, esta ideia, não se falava assim, não se falava da escola inclusiva, como falamos hoje. Falávamos de que todos, que a escola é para todos e todos têm o direito a estar na escola.
Arquivos\1º Ciclo\Olívia
O que eu sinto, neste momento, é que - nós comentamos isso muitas vezes mas eu falo por mim que já tenho 60 anos e faço as coisas relativamente com alguma compreensão e tento dar muita conta do recado - já não faço muita inovação. Não sei me explicar muito bem. Lembro que há uns anos atrás, havia colegas que vinham mais novos, que traziam ideias novas, e puxavam por nós, alinhávamos e fazíamos. Agora fazemos, mas falta ali qualquer coisa de juventude que nos empurre, que nos puxe. E quando fazemos, nós fazemos aquilo que está estipulado. Mas acho que falta ali qualquer coisa. Falta ali sangue novo que puxe também por nós e que nos estimule.
Arquivos\2º Ciclo\Alda
O edifício nunca pode ser construído em condições porque falham os alicerces. Às vezes, eu chegava a dizer muitas vezes aos meus colegas do 1.º ciclo [do ensino básico]: "Olhem, vocês mandem-nos os miúdos a saber ler e escrever bem e saber a tabuada. Deixem o resto connosco" (risos). Se não sabem ler bem, não sabem em nenhuma disciplina, seja na Matemática, seja no resto. Se já têm os alicerces, depois podem progredir.
Arquivos\2º Ciclo\Cecília
Porque ainda há uma grande dificuldade - esta “balcanização” do ensino, o trabalho solitário dos professores, a dificuldade que temos, muitas vezes, em partilhar e se virmos a faixa etária dos professores... A nossa média são os 50 anos de idade, fomos muito habituados – foi esta a nossa escola, no fundo, é esta a nossa lição e custa-nos um bocadinho desenraizarmo-nos disto. Ou temos uma mente mais aberta [ou] temos um bocadinho este trabalho solitário... a partilha, o abrirmos a nossa porta, a nossa sala de aula, conseguirmos partilhar com os nossos colegas, não é sempre muito fácil para nós. Não é tanto o facto de nos podermos sentir olhados, de nos podermos sentir criticados, é, às vezes, a dificuldade que temos em partilhar, em conseguirmos fazer este percurso, este caminho com os nossos pares.
Arquivos\2º Ciclo\Constança
Porque acho que estas crianças ganham em sociabilizar muito rapidamente e terem outros modelos positivos, fora daquele contexto. Só ganham porque nota-se diferença. Esta turma do ano passado para este ano já é uma diferença que não tem nada a ver. Portanto, quando chegam ali ao quinto ano, parece que vêm na dinâmica de interação só com as famílias que conhecem, com os miúdos que conhecem, sabem os podres de uns e os bons dos outros e, tudo aquilo é utilizado, e é péssimo. E quando eles se misturam com outros é, de longe, uma mais valia.
Arquivos\2º Ciclo\Esmeralda
Porque é importante, por exemplo, as crianças que depois têm um diagnóstico prematuro, o professor não os penalizar com esse tipo de erro, mas qualquer professor experiente vê. E depois no exame de nono ano não lhe ser contabilizado, não ser penalizado o erro de ortografia no exame de Português, no exame nacional de Português.
Arquivos\2º Ciclo\Fernanda
Com erros, com algumas dificuldades, mas há uma relação que eu estabeleço com os alunos, uma relação de partilha de poder, digamos assim. Um poder que, ao mesmo tempo, eu pretendo sempre que os alunos me vejam como uma referência, mas não sob o ponto de vista hierárquico, digamos assim, mas como aquele que é facilitador, mediador da aprendizagem, mais qualificado, naturalmente. No sentido de podermos caminhar juntos de podermos incitar a vontade de aprender, incitar a vontade de saber, criar desafios, influenciar do ponto de vista mais positivo da situação. Fazer com que os alunos tenham um posicionamento crítico, saibam posicionar-se, não sejam indiferentes ao sofrimento, não sejam meninos demasiado egocêntricos hoje, porque esse combate ao individualismo e ao egocentrismo é terrível. É muito difícil! Os alunos têm cada vez mais essa tendência e tem sido uma batalha muito grande. O professor que detém o conhecimento e que o pretende partilhar, mas muitas vezes há situações que são mais importantes que são mais enriquecedoras, são mais produtivas em termos de pessoa humana e construção da pessoa humana, de cidadãos ativos, interventivos, compreensivos, tolerantes, que é marcada exatamente por numa relação pedagógica forte. Uma relação que marca para a vida.
Arquivos\2º Ciclo\Iva
Quando as pessoas se assustam com as aulas assistidas, eu acho que isso é uma coisa terrível. Quer dizer, aprende-se uns com os outros - observando outros - e até mudando um pouco a nossa postura e os outros relativamente a nós. Achei muito interessante.
Arquivos\2º Ciclo\Joca
Nós temos que apoiar os que são os alunos mais fracos, os que têm necessidades educativas especiais. Com certeza. Qual é a dúvida? Temos, sim senhor. E também temos que apoiar aqueles que têm uma visão de futuro em termos académicos mais elevada, aqueles que nós sabemos [...] eu dizia aos meus colegas "desculpem lá, eu aqui sou vaidoso como o raio e não abdico disto. Eu, no sétimo ano, eu sou capaz de dizer quem são os alunos que vão para o ensino superior e aqueles que não chegam lá de certeza absoluta. Vocês não são?". Portanto, não estamos a prejudicar ninguém. Aqueles que são bons alunos precisam ter um ambiente próprio para quem quer seguir a carreira académica, para Engenharia, para Medicina, para isto e para aquilo. Têm que ter aulas completas e o programa tem que ser dado de forma completa. Não podem estar inseridos em turmas em que as aulas de 90 minutos só têm 45. Os outros 45, é o professor a mandar calar, e o professor aborrecido e "olha, vai dar uma volta ali para apanhar ar, para ver se vem mais bem disposto", coisas deste tipo.
Arquivos\2º Ciclo\Orlanda
Aliás, muita gente me dizia assim: "ai, porque tu só estás ligado aos maus alunos, e tal" – os bons alunos têm tudo. E até estimulava os bons alunos a concorrerem a projetos, concursos e tudo. Os bons alunos, a parte que tinha mais competências, que já vinham adquiridas de casa, e que tinham mais responsabilidade para, também, acederem a projetos completamente diferentes e [perceberem] que, muitas vezes, a escola tinha de estar muito virada para esses alunos mais deprimidos, com menos possibilidades, com menos competências dos pais, etc. A escola acho que tem um papel importante, aí, na relação dos pares, também.
Arquivos\2º Ciclo\Quitéria
Os miúdos acham muita graça a algumas coisas e ao acharem graça motivam-se e querem fazer e estão a aprender, principalmente nos anos iniciais. Não é por muito se repetir que as coisas se aprendem. Também às vezes apelamos pouco à capacidade de memorização que os garotos têm, porque todos nós temos uma grande capacidade de memorização. Não é bem aproveitado por nós professores, ou pelos programas.
Arquivos\2º Ciclo\Rosário
Comigo não tenho o que dizer, porque, no geral, consegui que não fossem indisciplinados, sei lá, um ou outro… faltas de educação também não houve, eles só são interessados se perceberem aquilo que estão a aprender, ou então estão a dormir ou estão encostados à mão e não fazem nada. Uma pessoa tem de ter cuidado em tentar que eles compreendam realmente aquilo que estão a aprender e para que serve, porque senão desinteressam-se por completo. Casos de indisciplina acho que não tenho. Eu acho que os miúdos estão a ter muitas atividades fora da escola, também têm muitos centros de interesse [...]
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Agustina
Eu preparo-me no início do ano… quando se fala em currículo, pela minha experiência, eu acho que o mais importante é criar uma mentalidade curricular. Que é uma coisa muito complicada. E u tive uma experiência enquanto estagiária e beneficiei disso — e pouca gente sabe, mesmo… não sei, saiu de moda, mesmo aqui na Faculdade de Letras — que são as taxonomias. E eu domino as taxonomias. Mas domino para quê? Para as desprezar, isto é… eu interiorizei-as, e aquele aparente espartilho das taxonomias leva-nos a um rigor conceptual que depois, [se] desprezamos esse espartilho, perecemos. E quando a pessoa atinge uma mentalidade curricular, basta olhar que a coisa surge.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Amadeu
Eu tenho uma ideia muito própria acerca do que é isto de trabalhar na educação, que só pode ser levado a bom termo com medidas de natureza a longo prazo, geracionais, que é para se ver o efeito de políticas.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Amália
Há um trabalho que se fazia – às vezes, não resulta, às vezes, eles desistem. Nós temos de nos amparar, dentro do que podemos... encaminhar para pessoas profissionais, quando é caso disso.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Aurora
De forma que eu até tive assim umas trincas com os meus colegas da disciplina de Matemática... eles usavam a Matemática como ensinavam nas aulas. Eu dizia que não era aquilo. Então, se os formandos não sabiam, por exemplo, uma proporção, eles queriam que eles fizessem... "isto está para isto, assim como isto está para aquilo”. Eu dizia: “Mas não é isso que interessa, na vida é importante…”. Olhe, chegou-me lá um pasteleiro, que tinha sido pasteleiro em tempos e disse assim: “Como é que você fazia?”. Se para seis pasteis é isto, para 12 é o dobro. Está a fazer uma proporcionalidade directa”. Eu dizia às minhas colegas: “Não é preciso que eles saibam o que estão a fazer, interessa é que eles saibam fazer”. Eu perguntava: “Se fosse para 18, se fosse para quatro...”. Eles sabiam, na prática eles sabiam fazer isso.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Caetana
Eu noutro dia estive num parque de campismo a ajudar alguém que vi em frente ao computador a fazer uma porcaria qualquer. "Queres ajuda? Eu ajudo. O que é?". Ela então estava a fazer o 12.º ano num curso que pagava não sei quanto por mês, o equivalente ao 12.º ano. Era um texto informativo. Havia vários tipos de texto, desde ambientais a sociais e económicos, mas de nível, de grau de dificuldade diferente. E depois o questionário era completar as frases com aquilo que estava no texto. Era a equivalência ao 12.º ano. Nós continuamos a brincar com a formação das pessoas [...]
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Célia
O meu filho, esse que nasceu em 1974, apanhou - tem 48 anos de idade. Eram uns manuais que se venderam muito, sem dúvida nenhuma. Eram CFQ, com uma figura na capa, era o Spine, por causa dos electrões. Era um boneco criado, era uma coisa nova, muito inovadora. Depois, fiz esses livros com três colegas, o A.U., o K.A. e o M.T.. O M.T. já morreu. Eu e o A. éramos jovens, eles eram mais velhos, já eram conhecidos. Posso contar uma história?
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Chico
As pessoas aprendem falando e tentando fazer isto... E lendo, escrevendo, aprendendo, fazendo, refazendo, fazendo exercício. E os exercícios e atividades de aprendizagem da matemática não são para ser feitos em casa. Porque lá em casa não tem vigilância de ninguém. Tem que ser feita na aula, com a supervisão do professor, para poder ajudar, para poder ver as dificuldades. Mas isso é … a única coisa do professor que os alunos conhecem é as suas costas.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Eva
Às vezes tinha colegas [que diziam]: "Ai mas essa peça não tem nada a ver, não tem nada a ver", "Tem a ver, tem a ver com a formação deles". Aliás, um dos objetivos é contribuir para a formação integral, que é o chavão não é? Contribuir para a formação integral do aluno. E ele precisa de ver outras coisas, outro mundo, para além do livro e do manual e do programa que tem à frente. Por isso se pudermos, às vezes até fazíamos a interdisciplinaridade se desse, e mostrar-lhes outros autores, contemporâneos ou não, daquilo que estávamos a trabalhar para fazer interligações que eu acho que é importante, porque eles têm cada vez mais dificuldade em fazer isso.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Hélder
Muitas não concordo com elas, inclusive nas aulas eu dizia para os meus alunos - dizia e digo - "olha isto é assim, mas eu não concordo. Mas vocês têm de escrever assim". E se me perguntasse "Porque é que não concorda?", eu dizia: "Por esta razão, por esta e por esta". Mas também o disse nas acções de formação e ficou registado. Eu dizia que não concordava com aquilo, mas as pessoas encolhiam os ombros e eu notava que era, por exemplo, uma divergência entre, por um lado, os linguistas e, por outro lado, os gramáticos, em que há teorias que chocam. Por exemplo, posso dar um exemplo pequenino para verificar como, em pequenas coisas, às vezes há grandes dúvidas. Por exemplo, toda a gente estudou as conjunções coordenativas adversativas e estudava-se 'mas', 'porém', 'todavia', 'contudo'. Ficava na cabeça dos jovens. Depois os linguistas, decidiram tirar o 'porém'. o 'todavia' e o 'contudo', ficou só o 'mas'. A única conjunção coordenativa adversativa que temos é o 'mas'. O 'porém', 'todavia', 'contudo', são advérbios conectivos, estabelecem ligações. Mas o grave da situação vem quando se vai classificar orações. Uma oração introduzida por um 'mas' é uma oração coordenada adversativa, e as introduzidas por 'porém', 'todavia' e 'contudo', são coordenadas adversativas também. Ou seja, não bate a bota com a perdigota. Como é que é possível explicar isto aos alunos?
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Joana
Eu vou dizer uma coisa que, se calhar, é grave, mas pronto, é a minha convicção. Eu não sei se interessa muito criarmos e fazermos alunos muito críticos, apesar de todos os diplomas e toda a teoria dizer que sim. A grande diferença entre teoria e prática é essa. A teoria é de tal maneira exigente que acaba por ser difícil de implementar na prática. Então, aquilo que se pretendia ficar guardado [...].
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Lara
acho que o cargo de diretor de turma é fundamental, é importantíssimo. Eu acho que um diretor de turma resolve imensas situações numa escola. Eu acho que é a pessoa que mais resolve as situações, é o diretor de turma, sem dúvida; da experiência que eu tenho e pelo que eu vejo e o que eu conheço. Mas, sem dúvida, como professora e como diretora de turma, vejo isso e tenho essa opinião.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Luciana
Mas pronto, lembro-me que foi horrível. Andava com umas fichas de exercícios que ia buscar para desenvolver as qualidades motoras dos miúdos, mas sem sentido nenhum. Não tinha sentido para o que estava a fazer. Basicamente, eu fazia qualquer coisa com atividade física. Mas se me perguntassem quais eram os meus objetivos, eu acho que não saberia responder.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Maia
Depois dou-lhe alguns exemplos, mas fazia mesmo questão que essa fosse a parte fundamental da escola. Claro que se tem que ensinar Português, Inglês, Francês, Matemática, por acaso não que se tenha que ensinar assim Português, Inglês, Francês, Matemática, História, Geografia, porque a nossa cabecinha não funciona assim. Não funciona mesmo com gavetas. Eu costumava dizer aos meus alunos: “Eu prefiro uma pessoa boa, que até pode reprovar, do que uma má pessoa que só tenha vintes, e dezanoves. Essa pessoa não merece respeito nenhum”. E eles sabiam que era essa a minha perspetiva. Eu ia muitas vezes às salas, falar com eles, e conversar sobre estas coisas. Eles foram muito participativos, sempre, em Associações de Estudantes. A parte associativa apreenderam. Houve ali gente que teve ali a sua primeira escola associativa, naquela escola. Não fazia propaganda, ou seja, eu acho que apesar de tudo naquela altura era um bocado diferente das outras, mas as pessoas não sabiam que era. Porque não se fazia propaganda para fora do que se fazia. Eu achava que os meninos tinham que saber para além do que estava nos cardápios. E fazia, uma vez por mês, para os miúdos do Secundário sobretudo, dependia dos anos, por exemplo, a última vez que eu lá estive foi "A Religião e a Economia", a "Religião e isto". Esteve lá o Louçã, esteve lá o Pinto da Costa que morreu, o das barbas. Esteve lá o Augusto Santos Silva… E as pessoas gostavam muito de lá ir, diziam que eles faziam perguntas inteligentes. Eu costumava-lhes dizer a brincar: “Se vocês vão para lá fazer perguntas que não são inteligentes, eu bato-vos”. Pronto, correu bem
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Maria
E [com] o jovem convém começar uma iniciação desportiva entre os 9, 10… depois a partir dos 10,12 anos, começa a dizer “olha, gosto disto…”. E depois começar a sua formação desportiva até aos 15/16 anos. É fundamental aí.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Matilde
Nós estamos a dar uma aula, nomeadamente no secundário, temos um projeto na nossa cabeça, uma orientação para dar, portanto termos a cabeça a trabalhar e, ao mesmo tempo, temos que estar a controlar com pulso uma turma é extremamente cansativo! E prejudica a própria aula porque a pessoa a interromper-se constantemente, o fio condutor do discurso, chamemos-lhe assim, quebra-se.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Virgílio
Para mim, a escola é a minha segunda casa e eu acho que também tentei fazer o mesmo com colegas mais novos que íamos recebendo. [Eles] precisam mesmo [de acolhida]. Acho que um colega que chega a uma escola e lhe é dado um horário: “E agora?” Tem que ser preparado com calma. E na minha escola, na minha ex-escola há sempre cuidado de dar os níveis com alguma antecedência. Não se sabem os horários, mas sabem quais são os níveis que vão lecionar com alguma antecedência para as pessoas irem trabalhando.
Arquivos\Pré_Escolar\Alexandra
Agora é que eu começo a pensar que estar a trabalhar até aos 65 anos de idade vai ser penoso. Se calhar, vai... mesmo para os pais, porque aí... eu ainda me sinto muito bem na minha sala de atividades, mesmo muito bem... aí não vejo motivo, digamos assim, para me reformar, porque a minha profissão ainda me apaixona todos os dias.
Arquivos\Pré_Escolar\Ana Rosa
Eu penso que se trabalha e tenta-se uniformizar ao máximo e acho que as crianças não ficam prejudicadas. Mas o ambiente em si… eu acho que a pessoa para estar bem tem que estar bem com os outros. Não é só com as crianças, e para estar bem com as crianças, tem que estar bem com os outros. Por isso acho que esse aspeto se perdeu, assim impedindo o bom ambiente.
Arquivos\Pré_Escolar\Arminda
O facto de que as crianças passam [por] uma fase do seu crescimento, onde elas absorvem [...] porque aí eu aprendi a ver a intencionalidade pedagógica atrás da brincadeira e da forma de brincar com eles e dos projetos que se desenvolvem internamente, realmente faz diferença. Eu era a favor, na altura, das turmas homogêneas... era uma coisa que eu trazia do ensino privado, funcionava, os resultados eram melhores...
Arquivos\Pré_Escolar\Gina
Ora bem, eu ainda agora estou a acolher uma educadora nova, nova entre aspas, que elas não são muito novas. Elas não são muito novas (risos) É engraçado, porque quando nós entrámos, éramos muito novas. Tínhamos 20 e poucos anos e agora elas têm 40. Porque entretanto tiveram o seu percurso todo nos privados e depois concorrem ao público. Portanto, elas já não são assim tão novas. Com filhos. Já é diferente. De qualquer maneira, uma das coisas que lhes peço é que estejam à vontade. Vejam tudo e façam perguntas. Façam as perguntas que entenderem. Até porque de certeza que é diferente o trabalho delas no privado e no público. Não devia ser, porque quando saíram as orientações curriculares [...]
Arquivos\Pré_Escolar\Gracinda
Fiquei no G. No primeiro ano, foi talvez o melhor grupo de jardim de infância que eu já tive até hoje. Era um grupo de pais espetacular. Os miúdos eram muito curiosos. Eu tinha uma maneira diferente de trabalhar dos colegas que tinham estado nos dois últimos anos - com aquela questão do envolvimento da família. Os pais gostaram muito. Como eu estava aqui, retomei as atividades aos fins de semana e ao final da tarde com as famílias. Eu estava sempre disponível e convidava os pais a irem à sala contar histórias, a fazer um bolo. Lembro-me que uma vez foi uma mãe fazer com eles a técnica do guardanapo, para a prenda do dia do pai. Trabalhava muito com as famílias. As famílias nunca tinham tido isso. Foi um ano absolutamente fantástico.
Arquivos\Pré_Escolar\Guiomar
E eu sempre dizia que não é assim, pois estávamos a analisar o problema e fazê-los entender que aquilo, afinal, não era problema nenhum. Era só um conjunto de coisas que aconteceram porque nós temos 25 meninos dentro de uma sala e não temos só um. Nós não podemos olhar só para um. Temos que olhar para os 25. Temos que ser muito cautelosos quando estamos um bocadinho mais enervados e dizemos algumas palavras que não têm a força... ou não simbolizam nada do conteúdo que está ali, mas na cabeça das pessoas em casa aquilo é tirado de contexto, ser vistos em cru pode trazer problemas graves.
Arquivos\Pré_Escolar\Helia
Porque é assim, eles tinham a mesma idade, mas cada um tinha o seu interesse. Isto é preciso entender um bocado. Porque nós não somos todos iguais e temos interesses diferentes e depois formatam muito a criança. O trabalho é sempre o mesmo, mas não pode ser, porque nós somos diferentes. Nós queremos gente para as várias áreas. Nós tanto queremos poetas como queremos engenheiros, como queremos cavadores, como queremos quem cultive a terra, como queremos quem conduza o autocarro. E há uns que já nascem com potencial de líder fantástico, há outros que nascem para ser mandados e é preciso dar-lhe autoestima, também, para não serem tão submissos e respeitar os outros, mas também manter a posição, exigir que nos respeitem a nós, isto é o mais complicado.
Arquivos\Pré_Escolar\Luísa
Toda a raiz do trabalho que eu venho tendo, que é o trabalho com colegas do Primeiro Ciclo, e com a comunidade, eu nunca me desliguei dessa relação do trabalho com as famílias, com a comunidade, e de a sala não ser uma sala fechada, mas todo um trabalho aberto.
Arquivos\Pré_Escolar\Mariana
Tínhamos esta interação com os pais muito boa. Eu comecei logo a privilegiar a relação com os pais. Quase que ninguém me ensinou, isso foi uma aprendizagem que nós fizemos em conjunto.
Arquivos\Pré_Escolar\Noel
E isto é que me parece importante, ir criando vínculos. A própria comunidade cria vínculos com a instituição. Isso é fundamental! Quer dizer, quando as pessoas falam "ah não sei quê de intervenção na comunidade". Está bem, formalmente podem dizer essas coisas, mas isso existe de facto? Porque o que me parece ser importante é, de facto, os vínculos, as cumplicidades que as pessoas têm com a instituição e com as crianças, com aquelas crianças...
Arquivos\Pré_Escolar\Rita
Os educadores deixaram de ser construtores dos outros objetos, às vezes até diretamente mais ligados àquela necessidade ou àquele desejo da criança. Digo-lhe, pela minha experiência ao longo dos anos, que quando a gente constrói o material com as crianças, elas respeitam-no muito mais do que todo o material que se compra. "Ai o nosso jogo, olha a fita cola, vamos colar, vamos arranjar!". São mais gostosas ou mais sofridas ou mais trabalhadas. Para além de que, quando se está a construir um jogo, passa-se um conjunto de informação e de conhecimento, que não se passa quando o jogo já está construído. O conhecimento didático mesmo! "Agora vamos dobrar ao meio, misturar isto e aquilo. Vamos fazer quadradinhos". Eles começam a ouvir esta linguagem da construção do jogo e vão aprendendo. Todas essas aprendizagens eles fazem nessas construções.
Arquivos\Pré_Escolar\Tânia
O que de facto foi o momento de mudança? Foi eu perceber que eu gostava muito de ensinar, mas não gostava de ter que, entre aspas, colocar a minha autoridade com meninos de 10 aos 15 anos. É natural, estão numa fase um bocadinho mais difícil, que desafiam muito o adulto, o professor. A mim custava muito. Eu não queria. Então, eu achei que com as crianças mais pequeninas isso não ia acontecer. Quando eu concorri para fazer o curso, eu não quis logo o primeiro ciclo. Eu fechei logo a porta. Embora hoje esteja na formação dos futuros professores do primeiro ciclo... Mas eu até lhes digo que o meu percurso foi este. Eu fechei logo as portas ao primeiro ciclo. Agora eu compreendo porquê. [É quando as] idades começam a ser mais desafiantes e eu não gosto de estar constantemente a exercer o meu poder enquanto adulto. Não gosto. Gosto que as coisas fluam mais de uma maneira em que eu não tenha que o fazer. Os mais pequeninos têm um encantamento especial, que só encontramos naquelas idades. A partir do primeiro ciclo as coisas já começam a ser um bocadinho diferentes. Portanto, a paixão por ser educadora de infância vai, mais ou menos, deste conjunto de momentos que foram marcantes.