Histórias de Ensino e Formação

Histórias de Ensino e Formação






FINANCIAMENTO

FCT - Fundação para a Ciência e a Tecnologia
(Grant no. PTDC/CED-EDG/1039/2021)
https://doi.org/10.54499/PTDC/CED-EDG/1039/2021




COORDENAÇÃO

Amélia Lopes
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade do Porto
amelia@fpce.up.pt
http://orcid.org/0000-0002-5589-5265

Leanete Thomas Dotta
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade do Porto, Portugal
leanete@fpce.up.pt
https://orcid.org/0000-0002-7676-2680




EQUIPA

Amândio Braga Santos Graça
Faculdade de Desporto da Universidade do Porto
agraça@fade.up.pt
https://orcid.org/0000-0003-1539-4201

Ana Mouraz
Universidade Aberta
ana.lopes@uab.pt
http://orcid.org/0000-0001-7960-5923

Angélica Monteiro
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto
armonteiro@fpce.up.pt
https://orcid.org/0000-0002-1369-3462

Fátima Pereira
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto
fpereira@fpce.up.pt
https://orcid.org/0000-0003-1107-7583

Isabel Viana
Universidade do Minho
icviana@ie.uminho.pt
https://orcid.org/0000-0001-6088-8396

José João Almeida
Universidade do Minho
jj@di.uminho.pt
https://orcid.org/0000-0002-0722-2031

Luciana Joana
Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE), Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto
lucianajoana@fpce.up.pt
https://orcid.org/0000-0002-0869-3396

Luís Grosso
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
lgrosso@letras.up.pt
https://orcid.org/0000-0002-2370-4436

Maria Assunção Folque
Universidade de Évora
mafm@uevora.pt
https://orcid.org/0000-0001-7883-2438

Margarida Marta
Instituto Politécnico do Porto
mcmarta59@gmail.com
https://orcid.org/0000-0002-0439-6917

Maria João Cardoso De Carvalho
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
mjcc@utad.pt
https://orcid.org/0000-0002-6870-849X

Paula Batista
Faculdade de Desporto da Universidade do Porto
paulabatista@fade.up.pt
https://orcid.org/0000-0002-2820-895X

Ricardo Vieira
ESECS | Instituto Politécnico de Leiria
ricardovieira@ipleiria.pt
https://orcid.org/0000-0003-1529-1296

Rita Tavares de Sousa
Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto
rtsousa@fpce.up.pt
https://orcid.org/0000-0002-0919-4724

Sónia Rodrigues
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
srodrigues@reit.up.pt
https://orcid.org/0000-0003-0571-024X
FYT-ID Financiamento
DESIGN
José Lima e Pedro Meireis

PROGRAMAÇÃO
Pedro Meireis

1º Ciclo, Anos Iniciais

I

Consulta de codificação em matriz - Visualização do [Conjuntos estáticos\1º Ciclo, Códigos\Categorias FYT\1. Percursos\Primeiros 5 anos de trabalho]


Arquivos\1º Ciclo\Bruna

Referência 2 - 2,91% Cobertura

Candidatei-me e fiquei na área consular de Paris, onde estive de 1979 a 1982. Em 1982 voltei a concorrer e, [por razões que desconheço], fui colocada a 150 quilómetros de Paris. Aí começou uma fase muito complicada, porque tenho duas filhas com 11 meses de diferença: uma nascida em 1979 e outra em 1980. Elas eram muito pequenas.
Eu tinha de sair de Paris às 5h, fazia 20 minutos de metro até à Gare do Norte e, de lá, apanhava o TGV para percorrer 150 quilómetros. No inverno, com neve até ao joelho, seguia até chegar à escola. Depois fazia novamente o percurso de regresso: 150 quilómetros de TGV e mais 20 minutos de metro. Isso significava que eu saía de casa às 5h e só chegava por volta das 20h ou 21h. Durante esse ano, quase não vi as minhas filhas.
O meu marido, nessa altura, resolveu mudar de trabalho. Era chefe numa bomba de gasolina e decidiu tirar a carta de condutor de táxi, comprando um veículo através de uma empresa. Ele trabalhava à noite e eu durante o dia. Assim, durante o dia ele ficava com as meninas, levava-as à creche e cuidava delas, e, quando eu chegava do trabalho, ele saía para trabalhar.

Referência 3 - 1,42% Cobertura

No final desse ano, disse ao meu marido: “Se quiseres, fica, mas eu vou-me embora para Portugal porque não aguento mais”. Os concursos lá tinham duração de três anos, [o que significava] que eu ainda teria de ficar mais dois [anos].
Regressei a Portugal e concorri novamente. No primeiro ano fiquei colocada numa pequena localidade chamada Cancela, próxima de Mortágua. Na altura não tinha carro, [por isso] ia de comboio. A aldeia onde eu trabalhava ficava a quatro quilómetros de Mortágua; eu percorria esses quatro quilómetros a pé para chegar à escola e, no regresso, fazia o mesmo trajeto para alcançar Mortágua e apanhar o transporte para casa.


Arquivos\1º Ciclo\Carla

Referência 2 - 2,50% Cobertura

Não fiquei colocada logo no início. Na Guarda, a colocação estava difícil. Como mencionei, preferia concorrer para a região de Castelo Branco e arredores, porque, em termos de transporte, era muito mais fácil. Entretanto, soube que algumas colegas tinham ficado colocadas em Castelo Branco, em outubro, e disseram-me que, para ser colocada na Guarda, teria de esperar até janeiro. Eu não queria esperar e, em Portalegre, havia vaga. Apesar de ser muito longe da minha terra, decidi ir.
O meu pai, que Deus tenha, fez o favor de me acompanhar, pois, para mim, ir sozinha seria muito complicado. Em termos de transporte, havia alguma facilidade: fomos até Castelo Branco e, de lá, seguimos para Portalegre. Emitiram uma carta para eu me apresentar na delegação de Ponte de Sor. No mesmo dia, o meu pai levou-me e já me deixou com o quarto alugado. Fiquei numa pensão, [o que foi importante], porque na época ainda não tinha telemóvel.

Referência 3 - 1,43% Cobertura

Não era uma escola de aldeia, mas sim de uma vila. Tinha várias turmas e, no início, além da minha colocação, ainda faltava uma professora. Perguntaram-me se queria acumular e aceitei. Durante cerca de um mês, ou pouco mais, estive com duas turmas: a minha, de 28 alunos do segundo ano, e outra que, creio, era do primeiro ano. [Não tenho certeza quanto a isso]. No restante do ano, já [só tive uma turma], pois posteriormente colocaram outra professora.


Arquivos\1º Ciclo\Carmina

Referência 2 - 2,38% Cobertura

Era muito importante, para uma jovem professora como eu, receber aquele feedback. Aliás, nessa turma tive vários momentos desse tipo: “Estamos no bom caminho”.
No segundo ano não consegui regressar a essa escola por causa das colocações, o que foi uma pena, pois do primeiro para o segundo ano há uma certa continuidade. Acabei por ser colocada numa escola [chamada D.], situada numa zona problemática. Na época havia muitos bairros de lata, habitados por pessoas vindas das ex-colónias, em grande parte de etnia africana. Era um bairro muito problemático, embora com gente muito humilde.
Estamos a falar do ano de 1982, o que não tem relação com a realidade atual. Tratava-se de uma escola enorme, em regime duplo: 20 salas, 40 professores. Entre eles, alguns mais velhos e outros muito jovens, sobretudo no turno da tarde.
Foi uma escola muito importante para mim, porque aprendi imenso com os docentes mais experientes e com o dinamismo que havia. Naquela época ainda não se falava em projetos desta ou daquela natureza. Fazíamos o nosso trabalho e, talvez, até mais do que hoje. Atualmente quase sempre se impõe “o projeto A” ou “o projeto B”. Quando as iniciativas surgem de nós [professores], o envolvimento é diferente.

Referência 6 - 1,38% Cobertura

Houve uma aluna do quarto ano que teve hepatite A, doença que exige muito tempo de repouso. Era uma estudante bastante razoável, a S., cujo nome ainda recordo — morava perto da escola. Nesse ano eu substituía uma professora mais velha, a professora M. E., cujo nome também recordo. Combinei com os pais da aluna de ir, uma vez por semana, à sua casa. Eu era solteira, tinha cerca de 25 anos, em 1986.
Uma vez por semana explicava à criança o que tínhamos dado de mais importante e deixava-lhe algumas tarefas. Essa atitude não foi bem aceite por alguns professores da escola. Foi a única vez que senti [alguma resistência]. Era apenas uma vez por semana: eu trabalhava de manhã e, à tarde, combinava com a família da aluna.
Lembro-me de terem comentado: “Vais ganhar medalha de cortiça!”. Eu era nova, mas assertiva, e respondi: “Não estou à espera de receber nenhuma medalha, nem de cortiça”. Na altura, creio que acrescentei: “É bom para mim, até porque, quando a menina regressar, já estará integrada nas matérias e, portanto, para mim dará muito menos trabalho”. E ficou resolvido.


Arquivos\1º Ciclo\Celeste

Referência 2 - 3,15% Cobertura

Eu era novinha, tinha 20 ou 21 anos. Ela tinha talvez mais dez anos do que eu. Criou-se uma empatia e começámos a conversar sobre a profissão, a pedagogia, entre outros assuntos. Ela já era sócia do Movimento da Escola Moderna, do qual mais tarde também me tornei sócia. Falou-me dessa associação de professores e percebeu que eu era uma professora inexperiente. Foi assim que recordo esse primeiro ano de trabalho. Deslocava-me de autocarro de Setúbal para Montijo, cerca de 50 quilómetros. O que fez a diferença foram sobretudo as relações pessoais com colegas, com quem a comunicação era mais fácil, talvez por alguma identificação de princípios ou até de vida. É isso que recordo como determinante. Havia ainda uma outra colega que também trabalhava ali e ia de autocarro, carregada de sacos e materiais, o que me despertava curiosidade: “Olha que interessante”. Começámos a dialogar e, mais tarde, acabámos por nos reunir e falar de forma mais organizada sobre questões da pedagogia. É isto que recordo como marcante: os encontros com pessoas com quem, progressivamente, fui trocando experiências e que me ajudaram a crescer do ponto de vista profissional e pessoal.

Referência 3 - 0,75% Cobertura

Estive nessa escola durante um ano. Depois vim para Setúbal, curiosamente para a mesma escola onde estou atualmente, passados 40 anos. Aqui permaneci três anos, na época em que havia a recondução de professores, o que me permitiu dar seguimento e continuidade ao trabalho. Foi uma experiência positiva.
Eram os meus primeiros anos de atividade, marcados também por alguma insatisfação em relação ao que eu desejava. Rapidamente percebi que não queria limitar-me apenas à escola e às suas exigências. Procurei formação na associação de professores de que falei anteriormente, e isso foi determinante.


Arquivos\1º Ciclo\Clara

Referência 1 - 1,12% Cobertura

[Não sei ao certo; custa-me criticar colegas], mas talvez, para a época, não se tenham esforçado muito ao longo do ano. Nós tínhamos metas estabelecidas para o ensino, metas de sucesso: no primeiro ano de escolaridade era obrigatório apresentar 65% de aprovações e, nos restantes anos — então chamados classes —, a meta era de 75%.
Portanto, eu teria de apresentar 65% no primeiro ano, 75% no segundo, 75% no terceiro e 75% no quarto. E, de facto, as matérias estavam muito mal consolidadas.

Referência 2 - 1,00% Cobertura

E, de facto, foi um ano exaustivo de trabalho. Tinha ainda de levar as crianças do quarto ano a fazer exame na cidade. Regueira de Pontes é uma aldeia próxima, mas eu tinha de transportar os alunos do quarto ano.
Naquela época só levávamos a exame os alunos de que tínhamos absoluta certeza de que passariam, porque quem os avaliava eram as colegas mais velhas. Eram senhoras conhecidas pela grande exigência e que eram um bocadinho mazinhas (aqui para nós que ninguém nos ouve).


Arquivos\1º Ciclo\Clotilde

Referência 1 - 2,64% Cobertura

Fui muito bem acolhida. Sou do distrito de Aveiro, mas naquela época as colocações no distrito eram muito difíceis. Muitas vezes aconteciam tarde, passados vários meses, e outras vezes, no primeiro ano de serviço, nem se chegava a trabalhar. Face a essa situação, a minha primeira opção foi candidatar-me para Setúbal. Vim para cá com a ideia de fazer um ou dois anos de serviço, porque à medida que íamos trabalhando ganhávamos tempo de serviço e, consequentemente, aumentavam as hipóteses de colocação — já que se subia na lista. Assim, concorri e comecei a trabalhar no dia 1 de outubro de 1980, logo no primeiro dia de aulas. Tive muita sorte na escola onde fiquei colocada, pois fui bem recebida desde o início. Foi realmente uma sorte, porque eu nunca tinha sequer ouvido falar do Movimento da Escola Moderna. Conhecia Freinet, estudado no Magistério, mas esta associação não. O diretor da escola onde fiquei era membro do Movimento e, em apenas quatro meses ali, convidou-me a participar nos chamados sábados pedagógicos. Depois mudei de escola. Aliás, a escola onde estou agora foi precisamente a minha primeira escola, embora já não tenha nada a ver com o que era. Posteriormente, fui trabalhar para uma escola no Montijo, onde, por acaso, encontrei uma professora que também pertencia ao Movimento da Escola Moderna e que estava envolvida num projeto de Educação Física. Senti-me abraçada. E foi assim [que começou este percurso].

Referência 3 - 1,52% Cobertura

No segundo ano de trabalho fui colocada no extremo oposto do distrito de Setúbal, no concelho de Sesimbra. Também fui bem acolhida, mas foi mais difícil, porque as pessoas com quem eu já queria trabalhar e desenvolver projetos estavam em Setúbal. Há 40 anos, estar a 40 quilómetros de distância era algo bastante significativo para nos deslocarmos. Entretanto, no Movimento da Escola Moderna, conheci o meu marido — o mesmo de hoje (risos). Foi a partir do terceiro ano que comecei a envolver-me mais, a estar mais ligada ao Movimento da Escola Moderna. Associei-me, passei a frequentar os grupos cooperativos e foi assim que aprofundei a participação.


Arquivos\1º Ciclo\Filipa

Referência 2 - 1,70% Cobertura

Professora: Fiquei vinculada no Marco de Canaveses, mas, como tenho mobilidade reduzida, pedi aproximação ou deslocação de escola. E consegui. No segundo período vim para perto de casa e a minha felicidade foi dar aulas — durante alguns meses, substituindo uma colega que estava doente — na escola primária onde eu própria tinha estudado.
Entrevistadora: Que era onde?
Professora: Em Francelos. Fiquei lá desde janeiro até ao penúltimo mês do ano letivo, quando a colega resolveu regressar. Depois fui para a escola da localidade vizinha, Miramar, que é mesmo ao lado.

Referência 3 - 2,57% Cobertura

Professora: No Marco de Canaveses, eu e duas colegas do mesmo curso fomos ocupar a escola. Não havia mais ninguém, éramos só nós. A escola estava dividida em dois edifícios. Eu fui colocada na freguesia de Soalhães, lugar de Lardosa. Soalhães é uma serra e Lardosa fica mesmo lá. A escola tinha dois edifícios: eu fiquei sozinha num deles e as duas colegas ficaram no outro.
As condições não eram muito boas: o aquecimento era a lenha, o edifício era antigo, no meio da serra, e havia miúdos que faziam quatro quilómetros para chegar à escola.
Entrevistadora: A pé?
Professora: A pé, sim, senhora, com os pais. Antes de saírem de casa tomavam aguardente para aguentar o frio. Eu tinha uma turma de 1.º ano, crianças que só conheciam a realidade da sua localidade, com vivências muito ligadas ao ambiente e ao cuidado dos animais. Eram essas as suas experiências.
Fui colocada no Marco de Canaveses, mas não podia ficar a viver na serra porque não havia alojamento. Então fiquei hospedada na sede do concelho com as duas colegas, mas não conseguia ir de boleia com elas porque o caminho era diferente. Como fazia? Havia uma colega que trabalhava no centro da freguesia. Ela chegava de comboio e apanhava um táxi, que me apanhava também, e levava-nos as duas até ao centro da freguesia. A partir daí, eu seguia de boleia com um colega — que era o nosso diretor — para a escola. As minhas colegas ficaram a trabalhar com ele num edifício e eu fiquei sozinha no outro.
Entrevistadora: Todos os dias fazia esse percurso de um lado para o outro?
Professora: Todos os dias, sim. Ia por aqueles caminhos até ao edifício dele e depois seguíamos juntos. Era assim.


Arquivos\1º Ciclo\Gabriela

Referência 3 - 2,73% Cobertura

Depois fomos para a escola e era ali que tínhamos de ficar, não é? Ficámos até ao Natal. Entrámos em contacto com as crianças da escola, com a comunidade local, os pais foram várias vezes à escola. Lembro-me perfeitamente de que eu trabalhava das 8h às 13h e a minha colega trabalhava depois, das 13h30/14h até às 18h ou 19h. Tínhamos, portanto, horários duplos. Dávamo-nos bem, já nos conhecíamos, tínhamos sido colegas de turma durante três anos. Com os pais e a comunidade também não houve problema. Mas sentíamos muitas saudades, muitas mesmo! Para mim foi muito mais doloroso do que para ela, porque eu vivia com muita gente, com muitos irmãos, e era sempre uma festa. Tudo o que fazíamos tinha esse ambiente de festa. Ela, por outro lado, tinha crescido sozinha, sem os pais, a viver com as freiras, porque os pais eram emigrantes. Só depois foi para a Guarda estudar no Magistério. Era uma rapariga que já não sentia grandes alegrias, não estava habituada à vida em família e, por isso, não foi difícil para ela. Para mim, sim, foi muito difícil. Sentia imensa falta dos meus irmãos e dos meus pais, depois de uma vida inteira com eles. O primeiro ano foi muito duro, sobretudo até ao Natal. No Natal, os pais dela vieram de França e compraram-lhe um carro. A partir daí, já saíamos muito: íamos para a vila, fazíamos as nossas compras, íamos aos conselhos escolares. Lembro-me bem desses conselhos, que juntavam seis ou sete escolas numa aldeia, uma vez por mês. Cada um apresentava as dificuldades e a evolução dos alunos. Desde o Natal tudo se tornou mais fácil: já tínhamos carro, podíamos sair, a vida ficou mais alegre. Depois vieram as férias, estivemos com a família, e, com o carro, podíamos sair quando quiséssemos. Ficou tudo muito mais leve. Mas aquele primeiro período foi muito difícil para mim. Depois habituei-me. Ficámos assim dois anos. Ao fim desses dois anos, concorremos cada uma para o seu lado. Ela ficou colocada em Coimbra, não me recordo exatamente onde, e eu fiquei em Moimenta da Beira, a cerca de 40 km de Trancoso.

Referência 5 - 3,22% Cobertura

E também tenho coisas engraçadas, ainda antes da L. nascer. Eu estava grávida dela e a dar aulas numa aldeia, quando fomos visitados pelos inspetores. Naquele tempo eles não avisavam, apareciam de surpresa. Hoje já sabemos, avisam o agrupamento com antecedência, e a maior responsabilidade recai sobre a direção. Mas naquela altura não era assim. Lembro-me perfeitamente: eu estava grávida da L., há 36 anos. Havia um inspetor, o inspetor D., muito exigente com a pontualidade, e nós sabíamos disso. Íamos para a escola em carros partilhados: uma professora levava numa semana, outra levava na seguinte, e íamos em grupo. Naquela semana era eu que levava o carro. Quando cheguei, vi logo o carro do inspetor parado à porta. Ainda não eram 9h, mas ele costumava chegar sempre um quarto de hora mais cedo, para apanhar as professoras que chegassem tarde. O carro era verde, lembro-me perfeitamente! Já conhecia o carro porque as colegas falavam, embora não conhecesse o inspetor em pessoa. Ele não saiu logo, eu abri a porta da escola, entrei, e depois veio atrás. Apresentou-se: “Sou o inspetor”. Eu já sabia, mas fiz de conta que não, apresentei-me também e disse: “Seja bem-vindo, entre!”. (risos). Como era inverno, tínhamos aqueles fogões a lenha. A Junta de Freguesia deixava a lenha partida no pátio. Nesse dia, porém, a lenha era grande demais e não cabia no fogão. Não se podia pôr a tampa, a sala encheu-se de fumo. Ele disse logo: “Isto não tem jeito nenhum! A Junta tem obrigação de pôr aqui lenha com as dimensões certas!”. Nós éramos novas, nem pedíamos nada. E acrescentou: “Há aqui alguma criança que viva perto da escola?”. Respondi: “Olhe, esta menina mora mesmo em frente”. Então disse: “Mande-a buscar o malho”. Nunca me tinha acontecido tal coisa. A menina foi buscar o machado ao pai e o inspetor partiu a lenha! (risos) Quando contei às minhas colegas, ninguém acreditava: “O inspetor partiu a lenha?”. Mas foi verdade. Ele dizia: “Isto tem de ser, professora, não pode ser assim. A Junta tem de trazer lenha adequada, não é para andarem a apanhar fumo”. Essas visitas duravam normalmente três dias. Nesse primeiro dia, além de partir a lenha, ainda foi ver se os vidros estavam partidos e se as janelas fechavam bem. Era um homem que gostava dessas coisas. No segundo dia, quando cheguei, estávamos a corrigir os trabalhos de casa. Era difícil ter quatro classes ao mesmo tempo. Já tínhamos pensado numa estratégia: pôr os do primeiro ano no quadro, dar fichas ao segundo, pedir ao terceiro que estudasse um texto, e assim sucessivamente. Ele perguntou: “Quais são os meninos do primeiro ano?”. Eu tinha seis. Ele disse: “Vou levá-los ao quadro para trabalhar com eles”. Levou-os e ficou lá, ao mesmo tempo que ouvia o que eu fazia com os outros. Foi uma ajuda. Era também um inspetor que escrevia muito bem: fazia poemas, livros. Eu sabia disso e comecei a falar com ele. Ele ficou todo contente: “Mas como é que a professora já sabe?”. Respondi: “Ouvi dizer, senhor inspetor, que escreve muito bem, que já tem livros editados”. Ficou vaidoso e começou a tirar papéis dos bolsos: “Olhe, professora, quando estou à espera dos professores, no tempo vago, escrevo. Pode ficar com este”. E assim simpatizou comigo. Eu também o ia elogiando (risos). Ficou ali aquele dia, trabalhou comigo, e no último dia fizemos uma reflexão sobre o que tinha observado. No fim de contas, até gostei dele.


Arquivos\1º Ciclo\Gaspar

Referência 2 - 0,83% Cobertura

A primeira turma que tive tinha 28 alunos com quatro anos. Se fosse hoje, não sei como é que seria. Era impossível, mesmo. Mas na altura era possível. Nós conseguíamos fazer tudo. Já lá tinham passado vários colegas que não aguentaram. Eu fui o sexto a ser colocado lá, naquela escola. Aqueles alunos ficaram... eram especiais para mim.

Referência 5 - 0,92% Cobertura

Os alunos eram colaborantes. [Tive] muita sorte com aqueles alunos ou [também] consegui, da minha parte, fazer algo. O facto de eu jogar futebol com eles, (risos) com a maior parte dos rapazes, e fazer jogos.... [contribuiu para que o] ano [corresse] muito bem. Era no tempo em que consideravam o professor uma pessoa especial. Não era a importância do valor daquilo que nos davam, mas havia sempre uma lembrança para o professor. Nada de muito caro, mas era significativo aquilo que eles nos davam. Isso marcou-me bastante. Passei por outras escolas em que também havia essa maneira e esse sentimento de gratidão para com o professor. No segundo ano, também no distrito de Lisboa, no concelho de C., uma terrinha muito pequenina, as pessoas eram uma família. Era pouca gente, mas as pessoas eram como se [fossem] uma família naquela localidade.


Arquivos\1º Ciclo\Gisela

Referência 1 - 0,53% Cobertura

No início andei por muitas escolas. Primeiro foi em Tabuaço, depois fiquei no concelho de Moimenta da Beira, havia outra colega. No segundo ano já eramos duas colegas, estávamos a trabalhar, uma estava com o primeiro e segundo e outra no terceiro e quarto. Portanto, já era um bocadinho diferente.


Arquivos\1º Ciclo\Graziela

Referência 1 - 0,26% Cobertura

Lembro-me perfeitamente. [Trabalhei] em Bragança, e deram-me uma turma do 2º ano, penso eu que era do 2º ano, de miúdos, todos repetentes, eu acho que era tudo rapazes, tudo rapazes, todos repetentes, com idades entre os 12, 13, 14 anos. Era uma turma… [ao] chegar lá, com 19 anos, era assim… [Uma] pessoa com 19 anos, com uma turma de rapazes repetentes, cheios de vícios… muito complicada, mas que eu conseguia… olhe, é o termo da altura, “dominar perfeitamente”. [Foi] um ano que eu gostei de lá ter estado.

Referência 3 - 0,15% Cobertura

Nesse primeiro ano foi tão positiva que três vieram ao meu casamento, os três da tarde vieram ao meu casamento. Porque eu casei com uma pessoa de Bragança.


Arquivos\1º Ciclo\Ilda

Referência 1 - 0,62% Cobertura

Concorremos todos ao Distrito de Setúbal. E ficámos. Mas cada um no seu canto, o Distrito de Setúbal é… retirada, entre Coina e Moita, na casa de uma senhora viúva, que às nove da noite fechava tudo à chave, e eu tinha que ler-lhe novelas. [Foi] um ano horrível. [Corria] ao fim de semana para Évora, ao fim de semana onde me encontrava com o C., e onde ele, no fundo, quase fazia a supervisão do meu trabalho. Eu costumo dizer que tudo o que aprendi foi com os meus pares, no Movimento da Escola Moderna, porque saí da escola do Magistério primário com a convicção e a certeza do que não queria. Mas eu sabia que não sabia como é que havia de fazer o que eu queria. Foi uma procura dolorosa, inicialmente. É esta rede que continuo. Esta rede continua ainda hoje, mesmo quando não tenho turma, tenho sempre grupos cooperativos, aquilo a que chamamos grupos cooperativos. Grupos informais, mas que, no fundo, são a base da nossa autoformação. Ganhei gosto e entusiasmo pela profissão, porque encontrei uma alternativa. E, de facto, ainda hoje, com 65 anos, depois de cinco anos sem estar com meninos, eu - e bem sei que isto me sai do pelo -, mas eu entusiasmo-me com este trabalho. Com ver os meninos a envolverem-se nesta dinâmica, e no fundo, construirmos aquilo que hoje é tão vulgarizado, e já ninguém sabe o que é, que é uma comunidade de aprendizagem. [Sabemos] que é tão difícil construir uma comunidade de aprendizagem. Mas é para aí que se caminha, e, portanto, o meu entusiasmo…

Referência 4 - 2,22% Cobertura

[Ao] fim dos três anos, quando os meninos se foram embora para o segundo ciclo, voltei para o público. Voltei para o público e fui para uma escola (risos) - eu [tenho] uma certa tendência para grupos difíceis - que [fica] ao pé da minha atual escola, chamava-se R.D. Portanto, era um bairro de lata, na altura, era uma escola P3, uma escola moderna, mas que já não tinha nada, porque já tinha sido assaltada milhares de vezes, e até o esquentador já tinham levado. [Fiquei] com uma turma de segundo ano, terceiro ano e quarto ano de repetentes. Quatro meninos do segundo ano multi-repetentes, já [com] 11/12 anos, e [que] não sabiam ler, dez meninos do terceiro ano, pela primeira vez, e dez meninos do quarto ano repetentes. [Era] uma mistura. [Lá] implementei este modelo de diferenciação pedagógica, com estas coisas, com os ficheiros, com o plano individual, com estas coisas todas. Os P3 têm três salas - ou duas, no caso eram três -, [e] tinha uma colega ao lado que gritava, uma coisa horrível. [Volta] e meia lá era assaltada a escola. A sala dela ficava de pantanas, as salas ficavam todas de pantanas. A minha sala ficava impecável, porque um dos cabeças era um [aluno] do segundo ano, (risos).
E1: Esta não mexo…
Ilda: Exato! Ou seja, no fundo, para mim isto era o indicador de que aquele espaço, ele sentia-o como dele. E por isso não [...]. [Nunca] mais me esqueço desse menino, que me marcou tremendamente, porque o L., coitado, levava sovas do arco da velha e já andava naqueles gangues. E um dia chegou-me à sala com as mãos todas entrapadas, e eu perguntei: "L., o que é que te aconteceu?"; "foi a minha mãe", "o que é que ela te fez?", "queimou-me as mãos, porque disse que eu roubei 1000$00"; 1000$00 na altura... E enquanto não confessou, pôs-lhe as mãos em cima do fogo. Isto é de uma violência [...]. Na altura não se falava na CPCJ, nem de coisa nenhuma. Isto hoje era impensável, ainda bem. Mas foi terrível. [Quando] estava grávida do meu filho encontrei uma menina daquela escola, não minha aluna, mas aluna de outra sala, com 13 anos, grávida, também. Ela nem me falou, porque, coitada [...], devia ter imensa vergonha.


Arquivos\1º Ciclo\Isadora

Referência 1 - 1,55% Cobertura

A primeira escola que me ficou marcada foi a escola S. O. Tive sorte relativamente a outros colegas que foram para muito longe. Vivo no concelho de Seia. Não tinha carro, nem os meus pais. Na altura tinham, mas também não me podiam levar com facilidade. Os transportes também não eram muitos. Calhei em Santa Ovaia e fui. Não sabia muito bem onde era, mas lá apanhei o autocarro para Coimbra e desci na paragem. Só que Santa Ovaia não ficava à beira da estrada, então ainda tive que percorrer um bom percurso, cerca de um quilómetros, até encontrar a escola. As colegas eram espetaculares, receberam-me como uma filha. Ainda guardo muitas memórias da Dona C., da Dona B. e da Dona T. Eu e a Dona C. trabalhávamos de manhã. As outras duas colegas trabalhavam de tarde. Fiquei num primeiro ano. Fiquei muito assustada porque, como já tinha dito, eu tinha estagiado no primeiro ano, mas já numa segunda fase em que eles já sabiam ler. Apanhei o primeiro ano [com] uma criança surda muda. Lembro-me de ficar muito assustada, não sabia como havia de lidar com a situação. Mas foi por pouco tempo, não sei o que se passou. Depois, deram-me um 4.º ano [de escolaridade]. Trocaram uma turma, mas na mesma escola. Fiquei contente porque sentia-me mais à vontade no 4.º ano, mas já tinha arranjado tudo para o 1.º ano.

Referência 6 - 1,30% Cobertura

Depois, fui para Abrunhosa do Ladário, ainda não tinha carro. Eu nunca concorri para o distrito da Guarda, porque sabia que havia mais dificuldade em arranjar autocarros para me deslocar para as povoações. Ali, apesar de ser longe, havia mais meios de transporte. Então fui para a Abrunhosa do Ladário. Fomos um grupo de colegas e uma tinha carro. Depois, fomos conhecer a escolinha e apresentar-nos. Também foi difícil arranjar alojamento, era sempre muito difícil.


Arquivos\1º Ciclo\Lisboa

Referência 1 - 4,24% Cobertura

Não comecei logo a trabalhar no primeiro ano. Saí em 76 e concorri ainda esse ano, mas concorri a nível da zona porque na altura era a nível da zona que podíamos concorrer. Uma zona que abrangia o distrito de Coimbra, Castelo Branco e Guarda… Acho que eram estes três distritos. Não entrei, portanto, não fui admitida. Fiquei um ano em casa. No final do ano de 76 casei-me. O meu marido ainda estava no magistério. Nesse ano não trabalhei e depois, claro, as pessoas precisam de ganhar dinheiro para o sustento. No ano seguinte pensei, tenho mesmo de fazer as coisas de outra forma e tentar. Concorri a nível nacional e fui parar ao distrito de Setúbal, e aí [onde] fiquei esse ano. A distância custou bastante. A nível de escola até gostei, porque fui muito bem acolhida na primeira escola onde estive. Fiquei lá só até [ao] Natal em substituição de uma colega. Foi no concelho de Palmela. Fui recebida por uma família que tinha dois filhos na escola. Muito bem recebida. Nunca me quiseram cobrar a renda da casa, vivia com eles… Eram pessoas incansáveis comigo. A partir do Natal, em janeiro, fui para o Pinhal Novo, no mesmo conselho. Aí já ia para Lisboa, tinha lá família e ficava em casa dos meus primos. Portanto, ia e vinha todos os dias para o Pinhal Novo. Eu trabalhava em desdobramento aí nessa escola. Na primeira escola não, o horário era normal. [Tinha 31 alunos dos quatro anos e na segunda, era só um ano que tinha, mas trabalhava em desdobramento.


Referência 4 - 2,58% Cobertura

Depois desses anos, como já disse, entrei em licença de maternidade em maio… Portanto, o tempo de serviço contava na mesma. Entrei em licença e depois entrei de férias e contaram-me o tempo de serviço. No final do ano letivo contaram-me 183 dias de serviço. Ora, ao fim de 183 dias já podíamos passar a agregados. Na altura chamava-se agregado, depois passou a chamar-se vinculado… Eu já estava vinculada, estava com outras possibilidades de arranjar escola mais facilmente porque, com a escola ou não, teriam de me pagar. Então, nos concursos a seguir, no segundo ano, fiquei no distrito da Guarda vinculada. Nos primeiros anos também andei a saltar de umas escolas para as outras. Era um mês numa escola, um mês noutra. Estive numa oito dias só… Tinha de ser. E já tinha o meu filho mais velho comigo o que também não ajudou muito, mais complicado se tornou.


Arquivos\1º Ciclo\Mara

Referência 1 - 1,45% Cobertura

E, na altura, tanto eu como ela, por acaso, fomos à direção ao Porto e disseram-nos que, se não quiséssemos sair do distrito, iríamos ter vaga, por causa da nota que tínhamos – não ia ser logo, em outubro/novembro, mas que até maio iria ser conseguido, [por ser] o tempo limite para ficar vinculado ao distrito. Eu fui aguardando, porque se tivesse de ir para longe, de certa maneira, ia gastar tudo o que ganhava, não ia ter a certeza de onde é que poderia ficar…e fui aguardando. Até que fui chamada, pelo diretor aqui do Norte, a dizer-me que até maio não iria ser colocada. Fui chamada em abril, mais ou menos, já estava à espera há muito tempo - entretanto, tinha dado explicações em casa, também para rentabilizar o meu tempo. E fomos chamadas, eu e a outra colega, para nos dizerem que até ao final de maio, neste ano, não houve colocações, pela primeira vez, de professores, no distrito do Porto. E, então, optei por – também foi uma orientação que deram – candidatar-me ao distrito de Braga. E fui logo colocada em Esposende, que era o lugar mais perto daqui de Matosinhos. Eu, na altura, morava em Matosinhos, como agora ainda moro aqui - na Senhora da Hora, mas é o mesmo concelho. E fiquei lá.

Referência 2 - 1,08% Cobertura

E depois, passados esses dois anos – um ano e pouco, no fundo, não foi bem dois anos – concorri ao distrito do Porto, mas já estava vinculada – também acho que foi um ano excecional, talvez por não ter havido colocações no distrito do Porto e por ter havido bastantes situações assim, penso eu, a nível nacional – foi o único ano da história do ensino em que era só necessário um dia de serviço até ao final de maio para se ficar vinculado. De tal maneira que não perdia de ganhar. Foi o único ano, porque vários professores que eu conheço, que não são do meu ano, mas são um pouquinho antes [ou] um pouquinho depois, nem sabem disso ter acontecido, porque foi mesmo assim um ano… extra. E eu fiquei logo vinculada, porque, apesar de ter sido só colocada naquela altura, fiz algum tempo de serviço até ao final de maio - portanto, fiquei logo vinculada ao ensino.


Arquivos\1º Ciclo\Marlene

Referência 1 - 1,71% Cobertura

A escola, quando nós saímos para a rua, não correspondia ao que nós vimos, nem de perto, nem de longe. Depois, entretanto, eu estive um ano sem trabalhar porque era novinha - faço anos em dezembro. Quando nós não tínhamos tempo de serviço éramos postos na lista pela idade cronológica. Eu sou de 28 de dezembro. Entretanto, começaram a vir os retornados, do antigo quadro dos aditos. A esses, como estavam a pagar os ordenados, passaram à frente. No ano seguinte - Madeira e os Açores ainda pertencia a Portugal Continental - concorri e fui parar à Madeira. Eu, por acaso, até gostei de estar na Madeira. Eu não tive problemas. Eles olhavam para nós e chamavam-nos continentais, cubanos, era assim aquela pressão. Vivia-se a flama, aquelas coisas pós 25 de Abril, das ilhas. Depois, no segundo ano, estive na Madeira. Foi um bocado uma aventura. O pré-escolar em 1980 começou a ser oficial na Madeira. Primeiro [foi] no Continente. Perguntaram numa reunião - nós trabalhávamos ainda ao sábado - quem é que queria ficar orientadora de estágio da pré. Aquilo realmente fascinou-me. O facto de poder vir a Lisboa, a reuniões. Portanto, estive um ano a orientar o estágio. Depois já vim para Portugal com umas condições óptimas porque era altura que havia escalões para se concorrer. Fiquei bem colocada, pois fiquei a 16 quilómetros de casa. Aí começou o percurso.

Referência 3 - 1,54% Cobertura

Quando nós chegávamos à escola, por norma e infelizmente, os mais novos apanhavam aquelas turmas de repetentes com 15 anos. Eu acho que as pessoas chegam à escola um bocadinho desprotegidas, muito embora agora com os conselhos de ano seja mais fácil. As pessoas já fazem uma planificação como tronco comum, já há reuniões semanais, já trocam experiências, mas naquele tempo era conselho escolar ao sábado. Nós consideramos - éramos miúdas de 20 anos, 22 anos - que aquela gente é que sabia muito daquilo.


Arquivos\1º Ciclo\Mónica

Referência 1 - 1,41% Cobertura

E havia muita falta de trabalho, sítio onde trabalhar, porque nós sabemos perfeitamente que a educação durante o Estado Novo não foi assim tão propícia à educação quanto isso e não havia lugares mesmo para os professores e tive medo de ficar desempregada. [Então] acabámos, acabei o meu curso e não consegui o emprego que queria, não se conseguiu a colocação, e nos primeiros concursos que conseguimos trabalhar resolvi concorrer logo para o sítio onde eu sabia que tinha lugar, que era para o Alentejo [risos]. Era para o sul [risos]. Então fui para o sul, um Alentejo muito pertinho que foi em Almada, portanto aquilo era um Alentejo muito pertinho de Lisboa [risos]. Outros colegas foram para Alentejos bem mais profundos, como se costuma dizer. No primeiro ano não fiz trabalho nenhum de escola; fiz um trabalho de SASE, orientar uma cantina. Porque não havia lugar para pôr os professores, punham-nos a fazer outros serviços [risos]. Depois no ano a seguir vim logo para aqui, para cima, para o Porto outra vez e comecei efetivamente a trabalhar com os miúdos.

Referência 3 - 0,76% Cobertura

[Depois] começou a minha seca-meca. Entretanto casei-me, engravidei, tive a criança. Andámos a trabalhar por escolas para a direita e para a esquerda… não fui para muito longe, nunca. Das escolas de interior, a que me marcou mais foi a de Mafómedes, que fiquei lá no cimo do monte e ia à segunda-feira com a minha filha e vinha à sexta-feira. Não havia transportes para lá, portanto ia de camioneta—ainda não havia autoestrada para ligar lá nem nada —ia de camioneta até Baião, apanhava aqui em São Caetano, tomava um comprimido para o enjoo, que eu sempre vomitei muito.


Arquivos\1º Ciclo\Morgana

Referência 1 - 0,91% Cobertura

Para grande decepção minha, eu fui colocada, naquela altura, como tinha muitos retornados, muitas pessoas das ex-colónias, havia muitos professores e não havia assim tantas colocações. E eu fui colocada numa coisa que se chamava o SASE, o Serviço de Ação Social Escolar, em Almada, numa escola secundária. Foi o meu primeiro trabalho como professora, e fiquei um bocado dececionada, mas pronto, a vender senhas, fazia de funcionária e a vender senhas para os almoços, a fazer a contabilidade do dinheiro, ver quantos almoços tinha havido. Foi o meu primeiro trabalho. Fiquei um pouco decepcionada.

Referência 2 - 1,78% Cobertura

No ano a seguir, fui colocada também em Almada, mas já como professora de apoio. E isso foi muito interessante, porque eu gostei muito de fazer isso, porque trabalhava com aquelas crianças que os professores indicavam que precisavam de apoio e precisavam de ajuda. Mas trabalhava na sala de aula, não trabalhava fora da sala de aula. E isto é muito interessante, porque deu para ver diferentes maneiras de ser professor e conhecer diferentes maneiras de ser professor, e que não há só uma maneira de ser professor. E cada pessoa reinterpreta aquela situação, reinterpreta e produz... eu acho que há aqui uma produção cultural neste ato de ser professor e de trabalhar com as crianças e com toda a gente. Portanto, ajudar os outros a aprenderem, a desenvolverem-se. Foi muito interessante nesse sentido. Havia pessoas muito mais velhas, extremamente rígidas, apesar de já ser depois do 25 de Abril e havia outras de uma grande abertura, de uma maneira de fazer tudo com uma grande naturalidade, mesmo nos episódios mais difíceis, com problemas disciplinares de algumas crianças, alguns mais velhos. Foi muito interessante. Para mim foi uma experiência muito rica.


Arquivos\1º Ciclo\Nélia

Referência 2 - 1,92% Cobertura

Eu lembro-me, e agora fazendo uma retrospetiva, ainda com comportamentos muito infantis, porque ainda me lembro de correr atrás dos alunos. Do género quando a pessoa os chamava e eles não acatavam as nossas ordens, naquela altura seriam ordens "vem cá, anda cá", de andar a correr atrás deles. É caricato, mas é verdade. Só me recorda atitudes de criança, o crescimento começou-se a fazer a partir daí. A primeira escola para onde fui trabalhar. Não sei se conhece o Algarve, mas é uma escola unitária, onde naquela altura trabalhávamos duas pessoas, mas era uma escola só com uma sala e era ali no Vale da Valverde. Está ali uma escolinha e foi aí que de facto éramos duas professoras, uma colega saía às 13h00 e eu entrava a essa hora. Era no concelho de Albufeira e lembro-me de no Inverno, nos primeiros meses, era noite e eu vinha com os alunos - não havia eletricidade - e eu vinha com os alunos para uma taberna que havia na 125 e a senhora da taberna fazia-me companhia. Sentava-se ali comigo, trazia umas amêndoas para descascar e acabava também por descascar amêndoas enquanto o autocarro chegava. Nessa altura tínhamos que dizer ao motorista "olhe, não se esqueça que eu amanhã também venho", porque aquilo era de tal maneira isolado que o motorista podia não nos ver. Isto é aquilo que eu recordo de há 40 anos a esta parte.

Referência 3 - 0,80% Cobertura

Estava a substituir colegas. Nos primeiros anos de serviço, aquilo que nós fazíamos, principalmente, era andar a substituir colegas. Íamos um mês para fazer a licença de maternidade daquela colega, licença por doença. Portanto, fazíamos isso nos primeiros anos. Tanto estávamos aqui como estávamos em Lagos. E eu, como lhe disse hoje, o mais longe que trabalhei foi em Albufeira, felizmente. E, entretanto, andei assim uns três ou quatro anos e depois acabei por ir para a Educação Especial, foi na altura em que acabei por ir para Educação especial.


Arquivos\1º Ciclo\Olívia

Referência 1 - 1,04% Cobertura

Eu fui colocada em Outubro. Estive a trabalhar um ano e no ano seguinte eu tentei candidatar-me à Universidade de Coimbra, mas eu não tinha o 12.º ano. Comprei os livros, fiz a matrícula, mas depois informaram-me que havia uma hipótese. Normalmente havia duas, três vagas para trabalhadores-estudantes, para quem já tivesse um curso. Eu candidatei-me a uma dessas vagas e consegui entrar. Entrei e trabalhei em simultâneo! (risos) Fiz em simultâneo. Nos primeiros dois, três anos consegui ficar aqui, em concelhos perto de Coimbra, a trabalhar [como professora]. Eu lembro que no primeiro ano que eu entrei na faculdade, eu estava no concelho de Montemor e passava o comboio e eu só trabalhava à tarde e levantava-me de manhã, às 06h00 para ir às aulas teóricas a Coimbra. Eu entrava às 13h30, mas o comboio era às 12h:00. Eu chegava lá [à escola] sempre atrasada, mas eu já tinha combinado. São as tais situações que hoje era completamente inviável. Eu, na altura, como estava a dizer, trabalhava só no horário da parte da tarde e havia outra colega que estava de manhã. Isto é muito engraçado. Isto são histórias de vida engraçadas (risos). A minha colega era de Coimbra, mas ela tinha que ficar à espera de boleia de outra colega que saía só às 15h30 para vir para aqui. Então o que é que combinámos? Ela ficava com os meus alunos até eu chegar. Os pais tinham conhecimento disso.

Referência 15 - 3,43% Cobertura

Aquilo era a parte administrativa. Eu estava na parte da contabilidade. Acho que já nem me lembro o que é que eu fazia. Fazia qualquer coisa para ali. Verificava recibos, verificar uma papelada qualquer. Não tinha nada de responsabilidade, porque tinham os técnicos próprios para isso. Eu estava ali de passagem, era assim uma coisa muito só para verificar qualquer coisa que eu já nem me lembro o que era, sinceramente. Mas não gostei. Tinha de lá estar para me proteger, mas em termos de serviço não gostei, não era o que eu gostava de fazer. Mas, em termos de aceitação e de as pessoas me receberem bem, fui muito bem recebida. Fiquei lá só até ela nascer. E depois ela nasceu em 1988 e, com ela pequenina, bebezinho, voltei outra vez para C. Nesse ano, o meu marido também conseguiu ficar numa terra perto. As coisas com a bebé já foram mais complicadas. Pedimos ajuda a um colega da escola que vivia perto, para nos ajudar a encontrar casa. E não me deixa saudades. Pedimos-lhe ajuda e ele mostrou algumas casas que eu não era capaz de mostrar a ninguém. Senti-me desanimada. Só não me senti tão desanimada porque já não estava sozinha. Depois, conseguimos arranjar um quarto numa casa de uma senhora viúva. Tínhamos serventia de cozinha e conseguimos. Eu trabalhava de manhã, acho eu, e ele trabalhava de tarde. Havia um espacinho de meia hora em que não tinha quem ficasse com a menina. Também não havia lá infantário, não tinha nada. Então, a senhora ficava com a menina. E a colega que também estava colocada, nesse ano, na mesma escola, teve uma menina (risos). Perguntou se não nos importávamos de que ela ficasse lá também, se a senhora também lhe alugava um quarto. Nós dissemos que não. Então, ela ficou lá connosco. Ficamos os três! Os três não, os cinco! A senhora ficava com as bebés. Ajudamo-nos uns aos outros.


Arquivos\1º Ciclo\Roberta

Referência 1 - 0,95% Cobertura

E depois fui colocada em Outubro de 1980, eu acabei o curso em Julho. Já no estágio, que foi o terceiro ano do Magistério, nós tivemos mesmo uma turma a quem dávamos aulas. Éramos um grupo de quatro e dávamos aulas a uma turma. Era uma vez por semana e eu gostei da sensação de dar aulas. Senti que estava, claro, envergonhada e tudo como era o princípio, mas ao mesmo tempo senti que era um desafio que eu queria manter e gostei imenso e comecei logo a gostar. A partir daí foi sempre a gostar de dar aulas.

Referência 2 - 3,28% Cobertura

Apanhei uma turma de primeiro ano que já era toda equilibrada em termos de idades, mas tinha metade da turma de Campo de Ourique e metade da turma do Casal Ventoso. E portanto tinha uma mistura bastante boa, quanto a mim, porque equilibrava bastante. E estive aí até o final do ano. Um primeiro ano numa escola de Campo de Ourique que eu gostei imenso de estar. Depois, acho que fui um ano para uma escola em São Sebastião, que não foi assim muito agradável, não tinha muita dificuldade mas tinha um corpo docente muito envelhecido. Eu era a única miúda, tinha 19 anos e nesse aspecto custou-me. Depois voltei a Campo de Ourique por mais dois anos e adorei. E aí fiquei amiga de alguns professores e foi muito bom. Depois andei por algumas escolas em Lisboa até ter sido colocada... Deixa ver se eu consigo lembrar-me... a partir da altura em que nasceu a minha filha eu fui colocada... Ah! estive noutra escola, também, na D.M., em Lisboa. E depois engravidei da minha filha e logo depois de fazer a licença de parto, fui colocada numa aldeia no Algarve. E não queria ir para lá e fiz várias diligências para não ir. Entretanto fui colocada lá e acho que pus atestados médicos, já não sei como é que resolvi a situação, e depois, como já não podia pôr mais atestados médicos, consegui uma cunha para ir para o Ministério da Educação. Eu que tinha dito que não aceitava cunhas! E a pessoa que me perguntou se eu queria uma cunha, eu comecei aos gritos com ela e disse que não aceitava. Passado dois meses estava entre a espada e a parede: ou ia para o Algarve, para um sítio que era uma aldeia e que nem sequer dava para vir ao fim de semana a Lisboa porque só tinha camionetas e eu não conduzo - nunca conduzi, nem conduzia - e portanto ou ia para o Algarve e tinha que me separar do meu marido e da minha filha, que tinha seis meses na altura ou aceitava uma cunha. Pronto, pedi a cunha!


Arquivos\1º Ciclo\Zacarias

Referência 1 - 0,28% Cobertura

Zacarias: Comecei a carreira na número quatro, em Setúbal, 15 dias. Fui muito bem recebido. Depois fui para Santiago do Cacém no mesmo ano. Tudo no mesmo ano. E depois regressei à Cruz, ao Seixal, à Amora, onde estive até ao fim, esse ano todo. Nesse ano passei por três escolas num ano. Eu fui lá com o intuito de me vincular, e o diretor disse que havia uma escola no Alentejo que estava disponível para todo o ano, e eu tanto fazia estar a 400 quilómetros como estar a 600, e fui para lá. Quando lá cheguei, disse-me que havia alojamento, que havia tudo, aquilo era um monte com duas salas de aula e havia alojamento. Fui lá ter com uma senhora que tinha uma taberna, e que me disse "ah, se fosse uma senhora, agora um homem". E então tinha que ir para Santiago do Cacém todos os dias, onde não havia alojamento. Havia dificuldade de alojamento, inclusive tive de dormir no carro uma vez ou duas. Um dia cansei-me e meti-me no carro e vim para Setúbal, que isto de estar a trabalhar num sítio....Então havia solução para isso. Não havendo alojamento, a gente podia escolher outra escola e daí tive um bocado de sorte e apanhei Cruz de Pau por um mês, mas depois fiquei o resto do ano.
Entrevistadora: Então essa aventura no Alentejo e chamo-lhe aventura, porque não ter alojamento é mesmo uma aventura, foi também no seu primeiro ano?
Zacarias: No primeiro ano, sim, no primeiro ano.


Referência 5 - 1,36% Cobertura

Fica sempre muita coisa por conversar. Portanto, não se apaga 42 anos assim. Não sei, também não sei. Mas acima de tudo, boas recordações. Tenho boas recordações! Estive longe, estive perto, com mais sacrifício e menos sacrifício. Ainda agora me espanto quando vejo colegas que estão a 20 quilómetros de casa e estão a queixar-se que estão longe. Eu tinha esposa e já com o filho e nós éramos obrigados a concorrer. Nos primeiros anos, quem é que ficava a menos de 20km de casa? Poucos, aqui! Éramos obrigados a concorrer a uma região, pelo menos, e depois já ficamos só no distrito. Mas ainda bem! É bom que lutem pelos interesses deles.

| B3.2 |