I
políticas educativas gerais ou específicas de um determinado nível de ensino que moldam alguns anos da prática profissional (projeto educativo; área escola; áreas não disciplinares, metas;, etc.)
Arquivos\1º Ciclo\Anita
As avaliações dos professores? Neste momento, vou-lhe dizer que sou avaliadora externa sem vontade nenhuma de o ser, já sou há dois anos. Daí posso-lhe falar pouca coisa, porque é assim... avaliei três ou quatro colegas, já vi como é que se processa. Eu nunca fui avaliada nesse sentido, a não ser com os relatórios que fazemos no final do ano, sobre a nossa atividade. Nunca tive aulas assistidas, mas agora estou nessa situação das aulas assistidas.
Arquivos\1º Ciclo\Bruna
Primeiro começou com a alteração dos currículos. Uma matéria que nós dávamos antigamente no 4.º ano [de escolaridade], agora passou para o 2.º ano. Os miúdos não têm maturidade nenhuma para conseguir perceber aquilo que nós lhe estamos a dizer.
Arquivos\1º Ciclo\Carla
Eu sou um bocadinho mais nova. Eu fiz os 62 [anos de idade] agora em Novembro. Pelas contas que tinham feito anteriormente, como no fim deste ano eu completo os 40 anos de serviço, não preciso de chegar aos 66 [anos de idade]. Creio que será aos 65 anos e meio, mas se fosse com pouca penalização eu já me ia embora - com saudades dos garotos. Mas pronto, a gente também precisa de uma certa paz e descanso. Mas eles vão dificultar ainda mais, porque há falta de professores.
Arquivos\1º Ciclo\Carmina
Um momento que eu não gostei nada foi a avaliação dos professores. Já fui avaliadora externa e avaliadora interna. É horrível. Estamos todas juntas e depois tenho de ir bater à sala do vizinho e observar duas aulas. Já fiz isto nesta escola e não gostei. Eu avaliei três professores que estavam ali comigo, que eram meus pares. Não gostei nada desse trabalho. Eu quis ser professora, não quis ser inspetora. Foi um trabalho muito difícil. Temos que tentar ser muito objetivas na nota que vamos dar. Justificar tudo. Por acaso não tive problemas nos professores que avaliei. Concordaram com a nota e com as coisas menos boas que eu disse. Mas não gostei dessa experiência. Agora, nós vamos avaliar externamente. Por um lado [é melhor], não temos nada que nos una àquela pessoa. Mas também não me senti muito bem, porque a pessoa está ali, sorria, era simpática e tal - eu até levei logo uma grelha com vários parâmetros de coisas e tal. São momentos de que eu não gostei.
Arquivos\1º Ciclo\Celeste
Ao longo destes anos, houve aqui muita coisa. E depois também teve a ver muito com os ministros da Educação que fomos tendo. Com estas visões.
Arquivos\1º Ciclo\Clotilde
Agora não me lembro do termo, mas foi por volta do ano 2000, 2001, 2002 mas não me recordo agora do termo. Em que tivemos que fazer, os professores tinham que ter um projeto para a turma e que isso foi abandonado e caiu. E quando se falou nos novos programas, principalmente de Matemática, que eu acho que houve um grande avanço, isto foi 2008, 2007, foi um grande avanço na Matemática, que depois caiu tudo com o nosso amigo Nuno Crato. Eu acho que isto não pode continuar assim. A educação tem tido várias propostas de avanço que depois nunca foram avaliadas e pensadas e assumidas como um projecto para o país. Não é um projecto para um governo deste ou um governo daquele. O que é mau, porque tem prejudicado, porque andamos aqui em avanços e recuos. Eu acho que foi um período em que efetivamente os professores falaram sobre a educação, pensaram - foram obrigados, alguns, a pensar - nisto do currículo, dos meninos e que depois caiu. Agora temos as aprendizagens essenciais que acho que é importante, mas que eu acho que não está a ser assumida, porque foi uma época em que os professores foram envolvidos, apesar de alguns terem sido obrigados, eles tinham que pensar sobre aquilo. E quando nós somos envolvidos, somos chamados a pensar, é diferente! E os professores são pouco participativos. Quando não são obrigados, não participam. Eu acho que pensam pouco na profissão! Fazem as formações, algumas até são formações muito interessantes, mas depois não aplicam. Porque não estão envolvidos, ou porque não os envolveram ou porque eles não se quiseram envolver. Mas foi ali por volta do ano de 2000 que eu senti que havia ali uma maior envolvência dos profissionais. Estou a tentar situar-me no tempo, mas já é difícil, são muitos anos. Que depois fui um bocadinho posto em causa com o início dos anos do Nuno Crato. Foi assim uma miséria, em tão pouco tempo deu cabo de tanta coisa que já se tinha feito. E estas coisas de não haver um projecto para o país, para a educação do país, para a educação enquanto um projecto forte, que seja para o país, também cansa os professores. Também os cansa! Também é verdade que os cansa porque não há um fio condutor. Pronto, agora "vamos fazer isto", porque as pessoas já são um bocadinho avessas à mudança, é difícil mudar, sair da sua zona de conforto e depois até quando já estão a entrar um bocadinho, acabam e volta-se tudo atrás e sem nada avaliado, sem as coisas terem sido avaliadas.
Arquivos\1º Ciclo\Filipa
Eu sou avaliadora, e, dentro do meu agrupamento, eu avalio relatórios. Não avalio aulas, avalio relatórios. E, realmente, nota-se alguma tristeza por parte de outras colegas quando a avaliação não é aquilo que elas esperariam. E tem havido reclamações. Eu estou a falar de uma maneira geral, quando isso acontece, há reclamações, por vezes, há zangas. Não estou a falar em nome pessoal, mas estou a falar do que vejo. Por vezes, há zangas. Por vezes, há – não há uma zanga, não chega a ser uma zanga, mas nota-se na outra pessoa que não aceitou bem a avaliação que teve. Avaliar relatórios, eu acho que isso não contribui para a melhoria da prática pedagógica da colega que eu estou a avaliar, portanto, não vejo que essa avaliação seja uma avaliação pertinente, porque eu estou a ler um relatório, eu não conheço a prática pedagógica da colega. E, portanto, estou a avaliar aquilo que ela diz. Se ela obedece a tudo aquilo que nós achamos que deve ter um relatório e se ele estiver bem feito, pronto, damos uma boa nota, e se fizer referência a tudo o que fez durante o ano. Não vejo que essa seja uma avaliação que deva ser feita. Quando eu vou avaliar aulas eu avalio duas aulas, portanto, o que é que eu vou avaliar? Se a pessoa fizer uma aula que costuma fazer sempre, embora escolha para aquela aula uma motivação mais interessante – porque nós não estamos todos os dias a escolher uma motivação interessante, não é? A aula seguinte pode ser uma conclusão da aula anterior. Pronto, nós avaliamos aquela aula e sim, realmente foi uma aula muito bem conseguida e damos uma boa nota. Mas e as outras aulas? Nós não sabemos. E agora, para terminar, quem sou eu, uma colega que está nas mesmas condições das outras colegas, para avaliar? Eu acho que não devia avaliar outras colegas. Que essa avaliação devia ser feita por alguém que tivesse escolhido uma carreira de avaliador. Eu sou uma colega como outra qualquer, portanto, quem sou eu para achar que a outra colega fez muito bem ou fez muito mal? O que é o excelente para mim? O excelente para mim pode não ser, para essa colega, a mesma coisa. Eu acho que esta avaliação não é muito justa, não acho que seja. Eu tenho de a desempenhar e tento fazer com a maior honestidade possível: tenho um modelo que é o excelente, que foi uma pessoa com quem eu trabalhei, e trabalhava pelo Movimento da Escola Moderna, e eu achei – eu nunca trabalhei, mas acho que é uma maneira de trabalhar muito livre e muito avançada, e era esse modelo que eu tinha como excelente. E é a partir daí que eu comparo as colegas que vou avaliar. E é isso. E tento fazer a avaliação da maneira mais honesta possível.
Arquivos\1º Ciclo\Graziela
Aqui na escola, quando eu saí, eu disse ao professor V. N. que ia concorrer para o 1º Ciclo, porque queria ir para a aposentação aos 52, que foi aquilo que me prometeram quando eu entrei na carreira. E então…e ele disse-me: “Não vás, que eu passo-te um documento para tu ficares aqui”. E eu fui à DREN tirar tudo a limpo. E a DREN disse-me: “Olhe, não acredite em nada, vá para o 1º Ciclo, porque senão depois não vai”. E… pessoas que estão aqui a trabalhar estão a sair daqui…e vão para o 1º Ciclo, ou vão para as escolas para irem para a aposentação aos 52.
Entrevistadora: Porque professora F., se estivesse no Ensino Especial não se podia reformar, era isso?
Graziela: Não me podia reformar, estava lá, ainda…
Entrevistadora: Então e…e porque razão é que não se podia reformar?
Graziela: Não podia reformar porque estava fora do 1º Ciclo, da monodocência. Estava fora da monodocência.
Arquivos\1º Ciclo\Ilda
Os anos do Nuno Crato foram avassaladores. Foi horrível, eu lembro-me daquelas provas de aferição, daquelas coisas horríveis, os meninos daquela escola… aquela escola é um meio sociocultural e económico baixo. Meninos sempre com dificuldades, com pouco suporte em casa. Aquelas provas foram horrorosas, eu lembro-me que sofri horrores, porque os resultados da escola toda foram maus, os meus também.
Arquivos\1º Ciclo\Inês
Sim, e depois eu, como presidente de departamento, tive de avaliar alguns colegas. Eu acho que não funciona. Eu tentei que aprendêssemos alguma coisa uns com os outros, quando fizéssemos a avaliação, porque onde é que eu tinha mais capacidade para avaliar os colegas que estavam na mesma função que eu? A única coisa que eu tinha era mais experiência - por acaso tinha porque era mais velha. Tive colegas com mais experiência que foram avaliadas por colegas mais novos e elas não acharam piada. Eu, por acaso, a única coisa que tinha era mais experiência. Mas não sei até que ponto é importante esta avaliação – e depois com as cotas, as pessoas não passam de escalão… Querem ter excelente, e… eu era incapaz de alguma vez pedir excelente. Acho que uma pessoa, para ser excelente, tem de ter capacidades e fazer coisas fora do normal. Eu acho que fui uma professora normal. Depois, cria-se um ambiente ruim entre os professores. Eu lembro-me que nós, antes destas coisas, tínhamos sempre um bom ambiente, trabalhávamos muito em conjunto, partilhávamos muitos materiais, e isto foi-se perdendo. Com esta avaliação, as pessoas ficam aborrecidas, acham que merecem mais… Eu, por acaso, não dei excelente a ninguém, dei muito bom a toda a gente, porque achei que as pessoas até se esforçaram, nas aulas assistidas e na planificação. Achei que toda a gente se esforçou e fez o melhor. Fiz sempre uma crítica, também, muito positiva. Quando avaliava dizia: “Olha, se calhar, podíamos ter feito assim”...
Arquivos\1º Ciclo\Irene
Em 97 saiu uma legislação que permitia a criação de alguma coisa que se assemelhava com escolas bilíngues. Era o 7520 o despacho que permitia que se criassem espaços nas escolas regulares em que os miúdos surdos poderiam, e digo poderiam porque era um despacho e, portanto, não era obrigatório, mas organizava o ensino de surdos. Eles deveriam estar juntos nas disciplinas ou nas áreas chamadas menos práticas, mais de estudo, para poderem ter a aprendizagem do currículo em língua gestual. Este despacho saiu em 1996 ou 97, talvez.
Arquivos\1º Ciclo\João
Trabalhei sempre com crianças surdas. Depois da especialização, ficámos na Escola Superior de Educação. Também concluí o curso de Especialização em problemas de comunicação e depois já não regressei, quando vim para Setúbal. Recebia as crianças surdas, digamos, quase de todos os concelhos à volta de Setúbal. Até de Pegões vinham crianças. E havia uma série de crianças aqui de Setúbal. [Houve] a Integração pela primeira vez de crianças jovens em escolas do segundo ciclo. Desenharam esse projeto e depois, quando eu cheguei aqui, convidaram-me para assumir. É a primeira vez que são integrados aqui em Setúbal, e mesmo em Odivelas, nunca se tinha avançado para a integração de crianças [surdas].
Arquivos\1º Ciclo\Lisboa
Eu não tinha lá mais ninguém, era a única naquela escola. Eu fiquei no monte da Fonte da Barreira. Aquilo era muito isolado, nem estradas tinha propriamente. Para chegar de carro tinha de passar pelo meio das vinhas, que eram umas estradas de terra… Portanto, eu estava assim um bocado isolada ao nível de colegas. Não tinha comunicação com ninguém. Até ao Natal estive mesmo sozinha. Em maio já estava grávida. Nessa altura entrei em licença de maternidade.
Arquivos\1º Ciclo\Mara
Houve algumas mudanças, principalmente a nível de organização e de funcionamento das escolas. A organização das escolas era mais metódica, por exemplo: havia mais pedidos de documentos, que, no início, quando eu comecei a trabalhar, não se via muito, fazia-se aquelas reuniões mensais e pouco mais. E aos poucos começou a haver isso. A organização das planificações já seguia muitos métodos. Portanto, eu acho que era tudo mais organizado, mas também não posso comparar muito, porque eu já entrei nisso, portanto, já estava habituada a esse tipo de registo. Em 1989 é que houve ali outra grande mudança, mesmo ao nível da carreira docente. Até aí havia um escalonamento dos professores; depois, em 1989 foi outro marco grande que houve.
Arquivos\1º Ciclo\Marlene
A educação de adultos é uma vertente que tem muito a ver com as políticas educativas. Tudo está relacionado a isso, mas o facto de nunca termos tido um ministério, andávamos separados, éramos uma Direção-Geral e acabamos por passar a Secretária-Geral. Aquilo acabou por os agrupamentos escolares absorverem - tem a ver com a gestão de recursos humanos - o chamado ensino recorrente noturno, as unidades capitalizáveis e mais tarde os cursos EFA. Entretanto, foi criado o centro das Novas Oportunidades para validar as competências. Depois, eu já estava na escola, no ensino regular, mas ia fazer a validação de competências até o 12.º ano. Outro desafio. Para ler os portfólios tinha que dominar a cidadania, o português.
Arquivos\1º Ciclo\Mónica
Tenho quarenta e um anos de serviço e nesses anos houve tanta mudança, tanta alteração, umas [com as quais] eu concordei, outras [com] que não concordei, e principalmente, tanta mudança que não foi avaliada, tanta experiência que não foi avaliada, que não foi transmita, por exemplo, o “Ensinar a Investigar,” um projeto que andou aí por Portugal, é uma coisa interessantíssima, mas nem todos os professores tiveram acesso a isso. E depois onde é que ficou a avaliação daquilo? O que se fez com aquela experiência que deu resultado?
Arquivos\1º Ciclo\Morgana
E isso também foi uma coisa que pesou na minha decisão, porque esta lei da reforma atual mudou quando me faltavam três ou quatro anos para [a reforma]. Apanhei um grande corte nas minhas receitas, e portanto eu tenho que continuar a trabalhar. Eu tenho que ter para o resto da minha vida que continuar a trabalhar para ter o nível de vida que tenho. Mas isso são coisas importantes para mim
Arquivos\1º Ciclo\Nélia
Penso que há uns cinco ou seis anos, esta parte que as coisas começaram de alguma forma, começou com a história das metas curriculares, em que houve algumas alterações no currículo e havia as metas e, nessa altura, até se defendia outra forma de trabalhar. E agora, com este novo paradigma da avaliação pedagógica centrada no aluno e em que tudo tem que ser medível. Eu digo-lhe uma coisa, e a senhora que também trabalha com crianças, como é que nós conseguimos medir sentimentos, como é que nós conseguimos medir emoções? E isto preocupa-me um bocado, porque em vez de estar vendo que aquela criança está feliz, estou preocupada em registar como é que eu vou registar aqui que ela está feliz.
Arquivos\1º Ciclo\Roberta
Eu agora estou muito bem, mas tive uma fase da minha vida em que... Eu comecei a trabalhar com 19 anos, em 1980. E a minha ideia era 40 anos de ensino, portanto, aos 59 anos eu saio. E estava convencidíssima disso. Quando aos 52 ou 53, percebi que não ia ser nada assim, fui-me abaixo completamente! Tive uma depressão. Só apetecia reformar-me. Mas não podia, como é óbvio, não tinha maneira de o fazer, porque eu vivia do meu salário, não podia ficar a viver de uma reforma, nem era permitido reformar-me na altura. Agora já existe a antecipada, mas na altura não existia. Essa parte foi muito má porque depois foi na altura do governo da Maria de Lurdes Rodrigues e acho que nós fomos completamente machucados, e no tempo do Passos Coelho passei a ganhar menos 500 € do que aquilo que ganhava. E só recuperei o ano passado, basicamente. Eu já não sei quando é que foi o governo Passos Coelho, mas eu ganhava 2.100 € nessa altura, e eu passei a receber 1.600 €. E depois, ainda nem agora recebo 2100€, eu recebo 2079€, não chega a 2100€. Eu passei de um nível para um outro muito mais abaixo, e isso foi anos e anos e anos assim a receber os 1600€ e sem contar o tempo de serviço e sem subir de escalão e sem nada. Portanto, foi assim uma coisa bastante pesada. Entretanto, no ano passado, cheguei ao último escalão. Ah! E depois, para passar para o último escalão, houve uma grande guerra porque me diziam que eu tinha que fazer formação. E eu sou sindicalizada - mas nunca me sirvo do sindicato - fui informar-me e o sindicato disse-me que não, que eu não precisava, depois o sindicato desta vez até se portou bem. Conseguiu enviar, através da advogada, tudo ao diretor do meu agrupamento e de facto eu não tinha que fazer a formação, e passei logo de escalão sem a dita formação que era de 50 horas.
Arquivos\1º Ciclo\Zacarias
Os agrupamentos estão a tentar formatar o primeiro ciclo. E o primeiro ciclo é completamente diferente! Os diretores da escola não entenderam que [este] ciclo é um caso à parte, não pode ser equiparado aos outros em termos de trabalho, de comportamentos, de horários. Isto está a desmotivar muita gente, vejo colegas muito desmotivados. Porque infelizmente é algo que parece que é geral, os colegas a queixarem-se que o primeiro ciclo está a ser um bocadinho posto de lado. Ainda não entenderam que aquilo é específico, tem condições específicas, modos de funcionamento diferentes.
Arquivos\2º Ciclo\Adelina
Nessa altura, também haviam os contratos plurianuais, que era a forma de nos segurarmos, vamos assim dizer - a possibilidade de entrar na carreira para fazer estágio. Mas também aí fomos um pouco enganados porque eu andei em contratos plurianuais [por] algum tempo, quatro ou seis anos, e acabei por não usufruir dessa maravilha ou dessa possibilidade que era de fazer estágio e, realmente, eu só fiz estágio 14 anos depois de iniciar a carreira.
Arquivos\2º Ciclo\Aldina
Não, mas existem as DAC [Domínios de Autonomia Curricular]. É disciplina de área curricular. Não sei, agora estou a inventar. Agora existem as DAC que não estão tão intensas como eram há três ou quatro anos. [Antes] tinha que haver um trabalho DAC, portanto, eu sou de Português e ia articular consigo. Nos conselhos de turma combinava-se "o que é que eu vou articular consigo? Olhe na minha disciplina eles podem escrever uma história, e consigo traduzem", se for em Inglês, se for em EV podem ilustrar. Combinamos isto em conselho de turma ou nos corredores, mas depois tem que ficar em ata. Portanto existe, continua a existir. Mais na cabeça de uns professores que estão mais interessados nesta interdisciplinaridade, noutros não tanto. Eu, por exemplo, faço trabalhos em conjunto com a disciplina de EV mas já nem ponho em ata. Comigo escrevem a história, depois ilustram, depois nós fazemos livros, mas se não ficar em ata não faz mal. Se calhar o objectivo é este, é que aconteça. De qualquer maneira as atas dão informação para a direção e depois a direção dá a informação aos organismos que perguntam como é que vão estas coisas. Porque é tudo muito vigiado. Não sei se vigiado é a palavra certa, mas...
Arquivos\2º Ciclo\Esmeralda
E nós, por exemplo, herdámos da Maria Lourdes Rodrigues uma carga muito pesada, como o descrédito total sobre a classe docente. E estamos a pagá-la ainda, como docentes. Os pais não acreditam em nós.
Arquivos\2º Ciclo\Fátima
Foram anos um bocadinho duros, eu trabalhava muito, porque depois tínhamos muito trabalho, era a Área de Projeto, era a Área Escola… E depois lembro-me que tive uma turma muito difícil, com miúdos muito rebeldes, que faziam de propósito para me estragar as aulas assistidas, respondiam ao contrário, isto no tempo do estágio.
Arquivos\2º Ciclo\Fernanda
Avaliação para as aprendizagens… E discutíamos um pouco isso relativamente ao decreto-lei 98, que faz este ano 30 anos, em que se falava na avaliação formativa e que já estava plasmada nos diplomas desde essa altura, mas que efetivamente tem sido muito difícil de realizar e que tem sido muito difícil os professores apropriarem-se dessa postura formativa ou eminentemente formativa.
Arquivos\2º Ciclo\Glória
A reforma de Veiga Simão, que foi uma maravilha! Do melhor que tivemos em educação nestes tempos todos da minha vida. A experiência do Veiga Simão foi uma coisa… foi uma pena, mas as revoluções são assim. Tudo o quanto era para ficar para trás era para chumbar, até o Camões foi chumbado naquela altura, nem se dava Camões porque tinha sido… pronto, um nacionalista [risos] chamam-lhe cada coisa!
Arquivos\2º Ciclo\Maria Luís
Tudo se estragou e tudo descambou, por assim dizer, quando surgiram os agrupamentos, a minha escola foi a escola mãe e éramos o maior agrupamento da zona Norte. Nós tínhamos duas escolas, segundo e terceiro ciclo e depois tínhamos não sei quantas com pré-escolar e primeiro ciclo. Tudo se descambou. Uma pessoa que olha para uma escola com 500 alunos, de repente começa a olhar para um agrupamento que tem, vamos supor, 3000 e tal. Não se pode, impossível, é impossível. E tudo descambou. Deixa de haver comissão executiva passa a haver o presidente. O meu presidente, ele era do Porto e concorreu para lá e saiu, porque começou a ver que era insuportável estar longe de casa e estar com este trabalho, que era desumano.
Arquivos\2º Ciclo\Orlanda
Para já, foi em 1992 o novo diploma de avaliação das aprendizagens. Era o 98A, penso eu, que saiu no fim de julho, por aí. E eu convoquei logo uma reunião geral com os colegas, dividi em grupos, distribuí o diploma, para que, em setembro – que já ia ser aplicado e aquilo era um corte umbilical com o que existia anteriormente. É evidente que as práticas, depois, demoram mais tempo a acompanhar. Mas para mim foi a Lei de Bases do Sistema Educativo e esse diploma, que foi muito importante para a avaliação.
Arquivos\2º Ciclo\Quitéria
Por exemplo, na minha escola consideravam que os apoios são componentes não letivos. Eu não considero que isso seja correto, porque muitas vezes, para dar um apoio, tenho mais trabalho na preparação da aula do que para dar uma aula normal.
Arquivos\2º Ciclo\Sofia>
Um dos piores anos - profissionais - foi realmente aquela época com a Doutora Maria de Lurdes Rodrigues, como ministra da Educação. Foi muito complicado, não só pela legislação que ia saindo constantemente. Lembro-me de estar numa reunião com ela e com representantes da DREN, aqui em Matosinhos, e de lhe colocarmos questões de como aquele professor, naquela situação, seria avaliado. Nem ela sabia explicar. E depois, o caos criado à volta. A má fama! Nós, que já não éramos uma classe [profissional] considerada [pela sociedade], aí piorou muito. Até tenho exemplos a nível familiar. Adoravam a ministra da Educação porque finalmente ia pôr os professores no seu lugar. Foi muito complicado.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Amália
Pelo aspeto negativo, a Doutora Maria de Lurdes Rodrigues... foi uma ministra que – se calhar, isto é muito forte – eu acho que ela conseguiu, pela postura dela, criar muito mau ambiente nas escolas. Eu acho que isso se reflete até hoje. Primeiro, aquele tempo todo de lutas e de contestação. Depois, o que deixou... porque os que vêm a seguir dão continuidade, embora façam alguma alteração aqui e ali, dão continuidade. A questão da avaliação dos professores não está resolvida... é uma pedra no sapato dos professores... as pessoas sentem-se injustiçadas, as pessoas sentem que o seu trabalho não é valorizado, que não têm uma carreira que contemple aquilo que é o seu trabalho, ao fim de muitos anos – as últimas pessoas que eu avaliei tinham 50 e tal anos de idade e estavam no 4.º escalão numa carreira que tem dez escalões... e com aqueles entraves em dois momentos. Isso para além de criar mau ambiente – porque as notas de avaliação não são públicas, mas as pessoas acabam sempre por saber: “Porque é que aquela tem muito bom e eu só tenho bom? Porque é que aquela teve excelente e eu só tenho bom? O que é que ela faz que eu não faço? Na primeira fase, foi o movimento de contestação, porque havia sempre quem estivesse contra. Depois, foi isto que ficou e que está aí, ainda. Esta falta de professores, bem podem dizer que vão resolver isto e aquilo, a falta dos professores tem a ver com isto... isto já acontece há muito tempo. Ela, eu acho que deu a machadada final no desencanto dos professores e na sensação de injustiça que se tem perante um Ministério que mudou, que não reconhece o empenho das pessoas.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Amélio
Área de Projecto também foi outra coisa que saiu mal. Mal, porque os projectos não nasciam dos alunos. Nunca. Tinha que ser o professor a propor os projetos, o que era contrário às intenções. A intenção era que os alunos propusessem projetos consoante as suas necessidades. Era esta a ideia pura, mas isso não acontecia. Acabavam por ser os professores a propôr. Porque, realmente, depois, o projeto proposto também não era muito do agrado de todos os alunos. Nem todos participavam. E eram aulas um bocado falhadas, eu acho.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Aurora
Uma colega de Trabalhos Manuais era assim: “Eu vejo a Aurora sempre, parece uma formiguinha! Sempre a mexer”, era o termo que ela dizia. Depois, se eu der umas aulas de porcaria dão-me um bom, dão-me um suficiente, dão-me um medíocre. Se eu der umas boas aulas dão-me um bom ou um muito bom, mas é nas aulas que se vê o que a pessoa é!!! Isto para dizer que foi marcante para mim a avaliação dos professores porque muitos estavam cheios de medo, e com razão porque agora iam ser avaliados ao centímetro! (risos) - nunca tinham feito nada para além de ler o livro na aula. Felizmente, não eram muitos, mas havia desses. Pronto, eu nunca tive problemas nenhuns mas foi complicado, ao nível da escola. Nós éramos um grupo em que eu fazia um teste sobre determinada matéria, o meu colega de grupo dizia: “Olha, já deste esta matéria assim? Então, empresta-me para eu ver.” - eu emprestava. A partir daí não se emprestava nada. Aquele ambiente de tranquilidade, de paz, de harmonia, foi ao ar. Para isso também contribuiu o plafond de número de pessoas que podiam subir de escalão. Não podia ir toda a gente. Portanto, para ir tinham de ser os que estavam no topo, e por aí fora. Isso criou muito mau ambiente, foi muito mau. Depois, acho que foi um bocado ultrapassado. Não sei, esse foi bastante marcante.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Camila
E eu fui das que fiz exame para aceder ao oitavo escalão. O exame era uma prova que tinha que se apresentar o currículo e depois era um exame oral. Enfim, uma conversa com três professores, um da nossa área específica, no meu caso de Português e Francês. Depois um senhor da Universidade do Minho, que era o que fazia perguntas sobre, enfim, o sistema de ensino, se a gente concordava com a avaliação do professor nos moldes de então. E depois uma outra pessoa que era da área das Pedagogias.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Célia
Eu gostava, mas eram turmas enormes, eram muito maiores do que aquelas que eu tinha. Como não dava aulas há 11 anos, esta adaptação foi... Eu tive uma disciplina que se chamava Área de Projeto e sabe o que é que eu fiz com os meus alunos [nesta disciplina]? No 12.º ano [de escolaridade] eu tinha uma turma e construímos um zepelim.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Chico
Mas aborrece-me a reação dos professores neste momento. À custa de dizerem que o ministério é um malandro, as pessoas têm menos brio, deixam de estudar… uma coisa que me faz muita confusão. O DC [desenvolvimento curricular] nas escolas está ao nível de muitos anos atrás. É uma exceção os contextos em que os professores fazem trabalho colaborativo. As pessoas não acreditam que junto com os colegas fazem melhor. Fizeram assim, continuam a fazer assim. E pronto. Mesmo o discurso do excesso de burocracia que é real, mas 80% das vezes a burocracia é feita por nós próprios. Só é burocrático se não servir para nada. Um plano individualizado não é burocracia. Só é burocrático quando aquilo não serve para nada. Agora, um miúdo ... não merece um plano diferente, não é? Não merece o investimento diferente dos...
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Clorinda
Para estar concentrada não era na escola, não era o espaço de trabalho. Para mim, a escola nunca foi espaço de trabalho. A escola é um espaço de vivência, de partilha de coisas que já estavam feitas e que partilhamos. Houve uma disciplina que foi criada nos últimos anos, [chamada] Área de Projeto, que envolvia 12 professores. Neste ano estive envolvida nisso - aquilo deu-nos uma trabalheira. Nós não tínhamos horário para reunir, então inventamos uma hora no intervalo de almoço. Aquilo era tão novo e era uma coisa tão subjetiva que os alunos queriam saber à viva força como era a avaliação.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Joana
Relacionei-me sempre muitíssimo bem com toda a gente, desde o princípio até hoje. Foi muito mais difícil nos quatro anos da senhora Ministra Maria de Lurdes Rodrigues. Sem ser, porque não foi com animosidades, nem nada. Foi muito difícil. Nessa altura eu era coordenadora do departamento, portanto também fazia parte do Conselho Pedagógico. Tivemos lutas muito grandes, discussões muito grandes. Tínhamos que, por um lado, compreender as angústias dos nossos colegas e as nossas próprias e, por outro, tentar “desdramatizá-las” para manter as coisas a funcionar.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Luciana
Na carreira docente e, infelizmente, foi a chamada “Era da Ministra Maria de Lurdes Rodrigues”. Eu não partilho muito, confesso. Não partilho esse sentimento e acho que com todos os erros de casting que ela eventualmente teve em termos políticos, eu revia-me em algumas ideias da ministra e dessa política educativa. Acho que há um certo corporativismo, um exercício sindical se calhar muito… não quero chamar nomes, mas há aqui uma visão muito corporativa que é o papel dos sindicatos. Agora, de facto, há aqui peças na engrenagem que impedem que isto seja tão assim, que é as cotas. Mesmo quem trabalha muito, pode não progredir. Portanto, isto são sempre sentimentos que de facto afetam a carreira docente. E as questões dos concursos? E as colocações? E a instabilidade? E a precariedade? Eu acho que sim, que a profissão docente foi muito desvalorizada, mas não consigo colocar isto na ministra Maria de Lurdes Rodrigues, ao passo que todos, a maior parte dos portugueses, todos os professores dizem que foi ela que deu cabo da profissão. Acho que é mais ou menos assim.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Maia
Mas o que digo sobre a avaliação de desempenho é que é, de facto, perversa. Primeiro, não avalia o que devia avaliar. Não avalia, ponto. Depois, tentaram introduzir a observação de aulas para que tornasse a coisa um pouco mais séria. Não é. Não é porque depende mesmo de quem vai observar a aula. A minha melhor professora teve uma péssima nota. O meu pior professor teve uma nota do caraças. Quer dizer, isto não cabe na cabeça de ninguém. Eu até preferia aquela altura em que era o Presidente do Conselho Executivo, nessa altura era ele que avaliava. Tínhamos que ler um relatório, era uma seca ler relatórios todos os anos, mas pronto, pelo menos...
Mas é perverso, porquê? É perverso na relação com os professores, porque eles...como é que eu hei-de explicar isto? É difícil de explicar. Quando percebem que conseguiram fazer qualquer coisa ou pré-fazer qualquer coisa mesmo que não tenham levado a cabo, a ideia estava lá, de realmente interessante e inovador, não partilhavam com ninguém. Com ninguém! Porque isso depois ia para o relatório, ia para a avaliação… Quer dizer, as pessoas começaram a trabalhar não em função dos alunos aprenderem… Perdiam o tempo a juntar materiais e porcarias, e grelhas e o raio que os parta. Eu nunca fiz uma grelha, graças a deus tive o M., porque quando me puseram à frente aquelas coisas assim para escrever os planos de aula, eu disse “Não faço. Escrevo na vertical!”. [risos] Ele disse: “Escreve na vertical, rapariga”. Tive sorte, porque se fosse outro qualquer bem tinha que usar as grelhas.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Maria
Não, a educação física faz parte do tronco comum. Eu tenho ideia de que em determinada altura, no 12º ano, quando eles tinham poucas cadeiras, já podiam optar se queriam ou não. Mas só no 12º. Mas faziam parte: o português, a filosofia, a educação física e o inglês. Era um tronco comum no secundário.
A — Que era dentro da área geral…
M — É, fazia sempre parte. A luta…
A - Quando é que começou a sentir que havia um investimento na educação física?
M — Foi para aí há 20 anos, não foi mais. Nós na educação física sentimos sempre muito isso.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Matilde
E depois foi instituído, a certa altura, pelo Ministério da Educação, as aulas de substituição. Foi um descalabro porque havia um grupo de professores que estavam escalados para substituir - eu por acaso nunca fui isso, mas sei - e por exemplo, eu ia substituir uma aula de, sei lá, de matemática com um professor de filosofia.
Era uma estupidez total. Lembro-me do professor de filosofia - por isso é que eu falei de filosofia - que foi substituir uma aula no oitavo ano, e a professora que estava a controlar, a mandar os professores substituir disse-me "olha, tu não te passa o que é que o que aconteceu com o P.? Ele sofre de coração, já teve uma crise de coração, mandei-o substituir o oitavo ano e ele aparece-me aqui completamente louco. Eu julguei que ele ia ter um ataque". E não acabou a aula, saiu a meio. Portanto, essa nova substituição foi um descalabro, por exemplo. Para quê? Para nada. E não é só, os alunos quando viam uma professora que eles não conheciam, automaticamente portavam-se mal, não tinham o respeito por ela. O respeito era pela sua professora.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Rómulo
Depois veio a flexibilidade curricular, a gestão flexível do currículo. O decreto que veio mudar isso tudo é de 2001. Há aqui coisas marcantes. Por exemplo, o governo do Nuno Crato, tudo aquilo que foi publicado [por ele] em termos de legislação, veio contribuir para que as escolas andassem para trás muitos anos, nomeadamente os programas. O Nuno Crato põe cá fora, as equipas que ele formou. Por exemplo, os programas de Português eram textos até chegar à vida, o jornal, essas coisas. Ele acabou com isso tudo no Português, no secundário.
Entrevistadora: Sim, retira as competências e tudo mais.
Rómulo: Isso e põe os conteúdos. Conteúdos que não têm interesse nenhum, volta o programa a ser como era no meu tempo de estudante. Ainda hoje ninguém mexeu nos programas... Os alunos de hoje, do décimo ano, dão "As cantigas do amigo" e as "Crónicas de D. João I", esses textos dificílimos de trabalhar para alunos, isto é completamente anormal.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Teresa
Nessa altura houve um boom de cursos da educação e houve também muita abertura de escolas, toda a vila, todo o lugarejo abriu uma escola e, portanto, houve escolas básicas de segundo ciclo, terceiro e secundário. Cada escola era uma unidade, o que eu até concordo. Eu não gosto muito dos agrupamentos. Para mim é uma experiência muito negativa. Não gosto.
Eu não gosto desse modelo que não me serve absolutamente para nada e há um clima, eu acho que agora vivemos um clima de competição negativa.
Entrevistadora: E ao que se deve?
Teresa: Deve-se muito às cotas. Fazem-se muitas flores o que não significa propriamente sucesso. Mas eu acho que é muito show off. As escolas estão muito viradas para si e não para os alunos. Está virada para a sua projeção para a comunidade. Eu acho que continuamos a negar o sucesso dos alunos com os nossos comportamentos e como nós nos integramos na escola. E depois é tudo projetos, muitos projetos. Nós aqui em Valbom temos tão poucas turmas e temos tanto projeto, que eu no outro dia estive aqui a ver, não sei se vamos ter alunos para os projetos, coitadinhos, eles vão ter que andar em todos.
Arquivos\3º CIclo e Secundário\Tita
Eu sempre fui uma pessoa muito trabalhadora, punha o trabalho acima de tudo. Eu fui para Bragança com um bebé de três semanas. Cheguei lá, deram-me logo a coordenação da profissionalização em serviço. Nesse ano, ainda não havia aulas na formação inicial, porque estava tudo a arrancar, mas tínhamos 100 e tal formandos, perto de 200, da Profissionalização em Serviço - eram aqueles que iam fazer formação às ESE. A mim, deram-me a coordenação, coitada de mim. Ainda muito por fora disso tudo, mas eu quando me meto nas coisas é a sério. Então, nesse ano coordenei a profissionalização em serviço e dei aulas de algumas cadeiras, de desenvolvimento curricular, e coisas assim. Foi também uma adaptação difícil, a dar aulas… os formandos, no ano anterior, tinham estado a fazer, já, as disciplinas das Ciências da Educação, mas faziam tudo por trabalhos. Trabalhos de grupo têm o seu valor, mas não medem muito a parte individual. Eu cheguei lá, comecei a pedir trabalho e testes… não queira saber. Houve uma altura - é outro momento que eu guardo - em que eu estava num auditório com os quase 200 formandos, eles achavam que eu era autoritária, era tudo e mais alguma coisa, porque exigia testes. Eles não queriam testes. Eu deixei-os falar, deixei-os falar, e depois perguntei assim: “Eu só vou fazer uma pergunta: quais dos senhores professores aqui é que não dá testes, levante a mão”. Eles pronto, calaram-se. Digo-lhe assim: “Pronto, afinal também são todos autoritários. Perguntem aos seus alunos se querem fazer testes.” O que aconteceu é que eu dei o trabalho e o teste, fiquei lá nas férias da Páscoa, com uma tromboflebite, a corrigir trabalhos, e eles tiveram melhores notas nos testes do que nos trabalhos. No ano seguinte, queriam só testes.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Violeta
Eu não, porque eu tinha muito tempo de serviço…e, portanto, naquela altura, nós podíamos reformar-nos com penalização, claro – com 36 anos de serviço e 63 e meio de idade. 63 e meio, 36 de serviço. Eu, como tinha mais anos de serviço já e porque, o tempo de serviço do Conselho Diretivo dava uma bonificação do tempo de serviço. Tinha sempre muito poucas faltas, portanto, eu tinha muitos anos sem faltas e fiz descontos, para depois me contar, também, para o tempo de serviço.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Virgílio
Houve aquela abertura com o ministro, com o professor Roberto Carneiro. Com ele, houve uma lufada de ar fresco. Houve uma grande abertura de vagas, o que me permitiu saltar do Entroncamento para Vila do Conde, foi um salto imenso. Acho que ele [Roberto Carneiro] tinha uma visão da educação, uma visão muito abrangente. Foi um bom ministro. Não quer dizer que não tenhamos tido... eu acho que esta pasta é muito difícil. É uma pasta muito difícil. Mas, por exemplo, neste momento, o João Costa - por quem eu tenho até consideração, porque leio muito, ele é da linguística e ele sabe muito. Mas de facto, do meu ponto de vista, está a ver muito mal a questão. O anterior ministro, Tiago Rodrigues, também não pareceu assim… era um ministro muito ausente. Esse ministro, nós praticamente nem precisávamos dele. O Nuno Crato, foi uma pena. Foi mesmo, eu digo, eu gostava imenso dele porque era um homem - era e é - muito inteligente, um professor e gostava muito dos debates. Plano inclinado, julgo eu, no plano inclinado. Ele de facto tinha boas ideias, mas depois julgo que ou não conseguiu ou não sei. Foi pena? Foi. Foi uma pena. Esperávamos todos muito do professor Nuno Crato. Mas não foi, digamos que não foi o pior ministro. Deus me livre. Agora tinha aquela obsessão dos exames e isso, nem era os exames aquilo que eu achei terrível, foi aquele exame que os professores tinham de fazer, aquela prova que os professores deviam fazer. Eu achava aquilo humilhante.
Arquivos\Pré_Escolar\Adelaide
Uma pessoa quando não tem coisas novas custa sempre um bocadinho a adaptar-se. Mas, como uma pessoa que trabalha em grupo, eu penso que é uma mais valia. Foi isso que também os agrupamentos trouxeram. Já quando era em jardins sozinhos, já fazia as reuniões [de concelho], mas agora trouxe uma maior proximidade entre as docentes do mesmo departamento. Eu acho que aí sim, é uma mais valia, mesmo para todas estas coisas que nos aparecem aqui e que a primeira reação é sempre: "Mais, lá vêm coisas novas, Meu Deus do céu e não sei que mais.". Depois, muitas delas têm fundamento, outras não... Em conjunto, em cooperação, acho que uma pessoa consegue chegar às coisas e consegue perceber e ver aquilo que tem lógica, e é para avançar e não custa nada… As orientações curriculares vieram ajudar muito. Já fui do tempo em que não havia... Acho que agora é um documento que é uma bíblia para nós.
Arquivos\Pré_Escolar\Alexandra
Na altura, não sei se ouviu falar de uma política que para nós foi muito importante, a Maria de Lourdes Pintasilgo... fez parte de um... já não sei de que governo, mas foi ela que conseguiu colocar as educadoras de infância no quadro dos professores... foi graças a essa senhora maravilhosa.
Arquivos\Pré_Escolar\Ana Rosa
Eu estou à beira da reforma, digamos assim, e saio, assim, um bocadinho desconsolada com a escola. Eu penso que o que veio minar o ambiente das escolas foi a avaliação, completamente. As relações já não são as mesmas, as pessoas estão sempre ali... porque eu, felizmente, não tenho problemas. Fui avaliadora externa uma vez e não é uma posição agradável para mim, mas muito menos das colegas com quem trabalhamos no dia a dia. Eu não tive experiências destas. Neste momento, já não era coordenadora, mas noto que nos últimos anos o ambiente foi muito dominado pela avaliação.
Arquivos\Pré_Escolar\Arminda
Até que veio o nosso amigo José Sócrates, o PT 2000 e os Magalhães. Fui eu que acompanhei todo o processo de migração, fazia as reuniões, acompanhava os técnicos... foi muito engraçado. Porque houve a alteração do Estatuto da Carreira Docente... acontecia antes da Maria de Lourdes Rodrigues ser ministra... tinha-se direito a doze dias de férias, ao abrigo do 102, a oito dias de faltas para formação - isso no contexto dava 20 dias por ano fora o período de férias, que todos os professores aproveitavam.
Arquivos\Pré_Escolar\Gina
Chegou a este ponto! (risos) Depois em Vila Real que já é uma cidade onde tinha muitas colegas e onde nós na quarta-feira à tarde, salvo erro, nós não trabalhávamos. Nós tínhamos reuniões. Chamavam-se reuniões de núcleo pedagógico. Acho que era assim que se chamava, onde os educadores se juntavam para discutir formas, metodologias, projetos. Quando eu estava em Constantim, a primeira aldeia onde fiquei pertencia a Vila Real, [portanto] reunia-me com o núcleo Vila Real. E eu chego assim, vinda do céu, caída do céu! Acredita que nunca me perguntaram como é que foi, para eu ir para ali e abrir um jardim de infância, assim do nada, nunca. Só depois de uma confiança, de nos conhecermos melhor. Perguntaram-me "Então agora conta lá como é que foi?" Isso mostra que não havia desconfiança. Havia um acolher de quem vem de fora. Eu recordo isso até hoje. Recordo isso.
Arquivos\Pré_Escolar\Gracinda
Acho que na nossa profissão há algo que não tem solução - tenho um pensamento feito sobre. O que está muito errado é o sistema de avaliação dos professores. Não cria um clima nada bom nas escolas, entre colegas. É extremamente injusto. Eu sei que justiça é um conceito muito subjetivo, eu sei. Mas é muito complicado. A questão das quotas, nos escalões, faz com que muitas vezes quem tem um "Muito Bom" não é aquele que ao longo do ano desenvolveu um trabalho meritório. Concertam-se as coisas, de maneira que o colega que precisa da cota, ir para as listas nacionais, tenha mais uma décima vez, às vezes é uma centésima diferença para esse colega. E o outro colega, que durante o ano se esforçou imenso, que fez um trabalho extraordinário, que obteve, alcançou e contribuiu para os objetivos do agrupamento, para a construção do Plano Anual de Atividades, o Projeto educativo, que desempenhou muitos cargos, que esteve ali ao lado da escola e deu o melhor de si, que é "Muito Bom", é convertido num "Bom". O outro colega, que está de passagem, ou até que se preocupou, que não fez o investimento na escola, mas esse colega como precisa de cota para não ficar no escalão... Vamos ser solidários com o colega. Sabe-se lá o que lhe vai acontecer. Esse colega fica com "Muito Bom". Portanto, isto é muito injusto. Cria mau ambiente, às vezes, dentro da escola.
Arquivos\Pré_Escolar\Guiomar
Mas a verdade é que também há leis e há uns contraditórios que não entendo, querem que faça os projetos integrados, mas tem meia hora por semana para fazer... Se é para ser integrado, não tem que impor um espartilho de meia hora, agora vou desenvolver em meia hora por semana ou 25 horas por mês para desenvolver um projeto integrado. Mas porque não podem ser as horas todas? E depois, tenho que ter sete horas de Português, sete horas de Matemática, três horas e meia para Estudo do Meio, mais três horas e meia para Artes ou para a Plástica... Depois tem um projeto, aquilo tem outro nome, mas agora não me vem, mas é um projeto de integração, de integrar todas as disciplinas [...]
Arquivos\Pré_Escolar\Helia
Não. Isto é assim, as políticas impõem sempre. Eu até mudei de opinião. Mudei de opinião, não! Obrigaram-me a mudar. Eu, quando andei na escola de educadores, diziam-me que era um projeto educativo e havia o projeto pedagógico. Depois mudaram tudo. Depois vem o projeto curricular, não é? Nós todos temos que fazer.
Arquivos\Pré_Escolar\Luísa
Esses quatro anos vão-me contar para a reforma. Há, entretanto, uma Lei, uma Portaria, que dava equivalência a esses anos, a pessoas que tivessem estado no serviço. Tínhamos que estar sozinhos, em sala, portanto tinha que haver essa condição. Termos, na altura, o sétimo ano de Liceu, que é o equivalente ao décimo segundo de Magistério, portanto o sétimo ano de Liceu, termos exercido como Educadores - eu ainda fiz esse pedido de equivalência. Porque reunia todas as condições.
Arquivos\Pré_Escolar\Maria Tiago
Depois, até acompanhando o desenvolvimento histórico da rede pública, em 94, o professor J. F. fez um parecer sobre a educação pré-escolar. No fundo, o que ele dizia era - porque havia várias redes, IPSS, privados e a República - que é preciso haver uma mesma unidade, uma mesma referência comum. Os educadores tinham condições laborais muito diferentes. Nós, na rede pública, tínhamos menos horas de trabalho e tínhamos um ordenado maior. Hoje já estamos quase a aproximarmo-nos. De facto as pessoas diziam... Isso foi motivo, às vezes, de alguns constrangimentos. "Trabalham menos horas e ganham mais.". Em 94, aquele parecer [do professor J. F.] dizia: "É preciso que a rede pública estenda os horários e que crie uma resposta socioeducativa." Não tem. Só tem letiva. "E é preciso que as IPSS e os privados - mais as IPSS - invistam no tempo letivo porque já têm outra componente". Portanto, ele previa construir centros educativos que, no fundo, tivesse uma organização menos informal e mais institucional. Isso aconteceu e a partir de 97, temos as primeiras orientações curriculares para todas as respostas socioeducativas.
Arquivos\Pré_Escolar\Mariana
Só que não conseguia aproximar-me, porque quem estava no privado pôde concorrer ao público. Foi dada essa abertura. Ora, as do privado tinha muitos anos de serviço, passaram à frente e também porque começaram a dar promoção, a fazer uma formação às auxiliares de ação educativa que estavam no privado e elas passaram à educadoras, só que passaram de uma forma [...]
Arquivos\Pré_Escolar\Nena
Trabalhávamos muito mais horas, menos interrupções. E depois ainda veio um Justino, estavam as coisas mais normais, e houve um Justino que estragou outra vez tudo. E nós atrás dele nas manifestações. Eu estava lá, sempre!
Arquivos\Pré_Escolar\Noel
E aí sempre tive um esforço no sentido de, em relação às minhas colegas, criar instrumentos de reflexão sobre o trabalho. Inclusive quando houve aquele processo de avaliação da ministra Maria de Lurdes Rodrigues. No fim de contas, aquilo era - a meu ver, é a minha interpretação - era resolver um problema que tinha sido criado no tempo do Cavaco, do Governo do Cavaco Silva com o Estatuto da Carreira Docente do Pré-Escolar, Ensino Básico e Secundário. Porque, quer dizer, as pessoas iam passando, apresentavam os créditos de umas ações de formação que, às vezes, não tinham grande interesse, faziam um relatório - e que relatórios, eu tive numa comissão de avaliação e vi relatórios que era de fugir. Quando foi [o tempo] da Maria de Lurdes Rodrigues, que a coisa apertou bastante mais, a questão da avaliação. Eu tive um trabalho enorme - na altura já era professor titular, portanto já estava no topo da carreira - para transformar aquilo que era uma forma de penalizar os professores, a progressão na carreira, num instrumento de formação dos professores, dos próprios. Bom, isso é um trabalho enorme. Reverter aquela situação para não ser só aquele instrumento burocrático.
Arquivos\Pré_Escolar\Olga
E neste contexto, neste momento, nos agrupamentos, quer a identidade da educadora, quer a identidade de jardim de infância, quer o trabalho, a valorização do trabalho alterou-se tudo. Eu nessa altura não me lembro onde é que eu estava nessa fase. Sei que houve muitas questões, “politiquices”, quem é que era a escola que juntava a qual e depois quem é que ia mandar naquela escola. Lembro-me dessa fase nesse aspeto. Mas penso que o trabalho ficou diluído. Penso que, pelo menos este que nós desenvolvemos e que nós tentamos, ficou diluído. E a partir daí deixou, pelo menos aqui nesta zona, de outros sítios não sei. Lembro-me de em Portimão haver grandes problemas dentro de um destes agrupamentos horizontais, com a necessidade de mandar da pessoa que ficou [como] diretora, coordenadora, não faço ideia. Mas sei que houve muita tentativa de imposição, de mostrar o trabalho custe o que custar, de exaltar a sua personalidade através do trabalho dos outros, porque aquele agrupamento tinha que ser o melhor de todos. E tinha que fazer muita coisa, muita coisa.
Arquivos\Pré_Escolar\Tânia
Nos anos anteriores, em termos da BQJB - considerada uma instituição modelo do MEM por todo o percurso e pelo envolvimento das famílias - as famílias iam, participavam e ensinavam a fazer receitas. O N. deixou-me um projeto para eu dar continuidade. Era ir conhecer as casas das pessoas, das famílias. Elas moravam em casas com uma nomenclatura especial e com uma organização especial, que eram os pátios. Isso acontece muito na zona da Ajuda. Por exemplo, a voz do operário é dentro de um pátio. Eu tinha várias crianças a morar em pátios. Cada pátio pode ter dez casas, oito casas, nove, cinco casas, depende dos pátios. Os outros meninos não, esses moravam em prédios. E, portanto, fomos conhecendo. As famílias eram muito chamadas [à BQJB] e participavam, efetivamente, muito. Quando cheguei ao Colégio do X., por exemplo, eu percebi que as famílias, embora tivessem um estatuto diferente, estavam muito disponíveis. Eu tentei perceber como é que as famílias podiam participar. Podiam participar, de uma forma fantástica, ajudando outras crianças que precisassem, que não frequentavam o Colégio do X. Começámos a estabelecer parcerias com escolas da Trafaria, onde há muita necessidade, mas também a recolher alimentos para o Banco Alimentar. Em termos de participação, as famílias também participavam indo às salas, falando sobre as suas profissões ou ensinando culinária. Nas salas onde tenho passado, acho que somos nós, educadores ou professores, que promovemos esta participação das famílias. Somos nós, não há dúvida nenhuma! Porque se as escolas não quiserem que as famílias entrem, as famílias não entram. Portanto, está muito naquilo que nós acreditamos, nos nossos modelos, nos nossos fundamentos e princípios. Isso é claro. Em termos de legislação, tem havido um percurso de motivação [à participação] das famílias.