I
Factores que demonstraram ser obstáculos aos ideais profissionais
Arquivos\1º Ciclo\Abel
Mas, entretanto, em 2015, eu tive um carcinoma na corda vocal esquerda... tive que fazer tratamento. Eu não posso estar a projetar a voz durante muito tempo.
Arquivos\1º Ciclo\Bruna
Eu já fiz o meu pedido de aposentação à Caixa Geral de Aposentações, só que há aqui uma diferença do tempo que eles me contabilizam, efetivamente para o tempo de serviço que eu tenho. Eles só me estão a contar 37 anos de descontos, dizendo que no tempo que eu estive em França não tem lá descontos nenhuns. Ora, eu tenho os meus documentos todos conforme fiz os descontos. Agora, já é a segunda vez que mandei email para o Instituto Camões, porque são eles que agora estão com o ensino de português no estrangeiro, para que eles me digam se realmente eu fiz descontos e se não o fiz, e para que entidade é que eu fiz. Não podia estar para aposentação com 37 anos de descontos, ia ser muito penalizada. Então estamos, andamos aqui nesta luta. Eu a querer-me ir embora e eles a querer que eu fique.
Arquivos\1º Ciclo\Clotilde
Mas depois temos esta coisa de sermos portugueses e de desenrascar. E muitas vezes o trabalho de projeto é feito em casa pelos pais. E isto não é trabalho de projeto nenhum! Portanto altera todo o conceito do que é um projeto e do que é trabalhar em projetos. É o que eu estava a dizer há bocado, que às vezes nas escolas nós falamos, dizemos as mesmas palavras mas não falamos a mesma língua,, mas não nos entendemos. Estamos a dizer coisas completamente opostas.
Arquivos\1º Ciclo\Gaspar
Eu acho que antigamente, naquela altura, os pais gostavam de saber, preocupavam-se com o comportamento, gostavam que os alunos também tivessem boas notas. A gente avaliava-os. A avaliação era mais… Antigamente nós fazíamos a avaliação, ao nível do primeiro ciclo, de forma descritiva e era isso que esteve durante muitos anos. No caso concreto do nosso agrupamento, a partir de determinada altura - quando os agrupamentos se formaram - o primeiro ciclo teve que copiar aquilo que os outros ciclos tinham, que eram pautas, que eram avaliações...
Arquivos\1º Ciclo\Gisela
Agora, nestes últimos anos, [o] que eu critico mais é a parte da direção, que acho que é ruim. Era tão bom quando nós tínhamos a delegação escolar, ia falar com os colegas, quanto tempo tem de serviço, quando é que eu mudo de escalão… Era uma proximidade tão grande que a gente sentia-se bem.
Arquivos\1º Ciclo\Irene
Era uma grande frustração nunca conseguir ficar com as turmas que já tinha e isso para mim causou alguma insatisfação, porque os aspectos afectivos, eu sentia, parecia um corte, e depois começava outro, e depois já sabia que se calhar no final do ano não ia ficar.
Arquivos\1º Ciclo\Isadora
Tenho uma recordação, porque eu, como cumpridora feita tolinha, eu recebi a carta do alvará de manhã, pelo correio, e tratei logo de me dirigir à escola. Pedi a alguém que me fosse levar porque eu não tinha carro. Apanhei o autocarro para Viseu e depois para Coimbra. Só que chego à escola à tarde e o meu horário era de manhã. Eu dei entrada ao serviço, mas esse dia já não me reconheceram. Ou seja, eu perdi esse dia, embora eu não tivesse trabalhado, mas eu estive na escola. Eu não sabia o meu horário. Tenho uma má recordação, só por causa disso, porque perdi um dia em relação a outros colegas. Não fez a diferença, mas poderia fazer. Acho que foi injusta essa situação. Só mais tarde é que eu descobri isso. Quando foi a contagem do tempo de serviço, contando aos outros colegas, é que descobri.
Arquivos\1º Ciclo\Lisboa
Mas eu apanhei pouco tempo porque eu já estava quase no último escalão quando isto aconteceu. Só me faltava subir um escalão, porque eu tive a reforma completa também. Mas houve muitos professores que estiveram vários anos no escalão bem cá para trás. Mas eu como só foi um escalão não estive muitos anos, não. Não me posso queixar muito dessa fase, até passou quase despercebida. Eu até me reformei na Páscoa, no início do segundo período. Claro, havia colegas que tinham… Eu comecei e não me importava nada de ficar até ao fim, mas pronto. Havia colegas que, coitados, também estavam na eminência de se irem embora e se eu me reformasse eles ficavam com o lugar. Dei um jeitinho, a mim não me fazia diferença.
Arquivos\1º Ciclo\Mara
Como avaliada já senti os dois lados da questão, ou seja, o muito bom e o mau. Eu já tive excelente, numa avaliação, e aí até fui eu própria a dizer, na altura, ao avaliador - neste caso ao diretor – que eu achava que merecia muito bom, não era excelente. E ele lá me dizia porque é que achava. Claro que fiquei muito feliz, mas também pensei: eu para ter um excelente, há alguém…porque isso pesa, também. Eu gosto muito de me dar bem com os colegas todos e gosto de ter bom ambiente e tenho, graças a deus. Mas também já tive o contrário. Por exemplo, este ano. Este ano, em que eu continuo com isto tudo, e continuo a ser avaliadora externa, normalmente, tenho dado notas até que acho justas. Tive um diretor, que no início deste ano, numa conversa informal, ele disse: “Tu já sabes que vais ter bom, este ano.” Isto no início de um ano em que eu ia ter o meu relatório, que só ia fazê-lo no final do ano, em que ainda nem tinha, praticamente, começado o ano letivo, e ele me disse logo isso. E eu, na altura, também não reagi, quer dizer, não mostrei agrado, porque: vou ter bom? Mas o ano ainda nem começou. “Mas já sabes que aqui os muito bons é para quem precisa”, disse assim com umas justificações que não vale a pena. E eu fiquei muito triste, na altura, e disse: ele disse aquilo, mas, se calhar, vai chegar ao fim e pode ponderar – não sei se vou merecer ou não, mas vou tentar, porque tudo faz jeito, eu não estou no topo da carreira, vou tentar. E, realmente, só tive o bom e não tive justificação nenhuma. Isso é que custa mais: é trabalhar, ter pais que estão do meu lado – eu tenho meninos que vêm transferidos para mim, porque sabem que eu estou naquela escola, não é para me gabar mais que outras, porque não sou só eu, na minha escola somos várias pessoas assim – estou ligada a estas coisas que já disse, sempre a trabalhar a 100% e, no mínimo, acho que alguém devia entregar, pessoalmente, uma avaliação a um professor, ao fim de tantos anos de serviço e de dar tanta coisa. E não: fui chamada por uma secretária, num balcão assinei a minha avaliação. Isso é que é triste: é um feedback triste de uma situação. E fui eu que, passado uns dias, vi que ninguém me dizia nada, fui bater à porta da direção ter lá uma conversa. E dizendo que fazia e que continuava a fazer tudo com a melhor vontade possível, com muito gosto, mas que achava isto assim assado, como disse agora aqui, que no mínimo era assim, para a pessoa sentir também uma motivação de quem está a trabalhar connosco e acima de nós e a dar as diretrizes. Porque as pessoas são feitas à imagem de uma direção, é como noutro sítio qualquer. E se eu até tenho uma motivação intrínseca, há pessoas que não a têm, e que precisam que alguém, no mínimo, lhes bata nas costas e diga: “não foi possível, mas, realmente…”. E isso faz falta. Isso é uma palavra de alento – nós precisamos, nós somos seres humanos. Se as crianças precisam, nós também precisamos. Não é pela idade que temos que vamos deixar de precisar de motivação, todos nós precisamos. E ouviram-me. Eu já fiquei contente, porque me ouviram.
Arquivos\1º Ciclo\Marlene
Eu acho que as quotas vieram a fragilizar a relação dos professores. Estou à vontade porque já não sou avaliada. "Para tu seres boa, ele tem de ser ruim". Isto começou a fragilizar as relações. Eu acho que as quotas são um mau princípio para tudo. Se eu tenho uma ficha inovadora, não te mostro porque tu podes fazer… É muito difícil.
Arquivos\1º Ciclo\Mónica
Em relação à autonomia dos professores do primeiro ciclo, eu acho que foi a partir do momento em que se instituiu os agrupamentos. Foi aí a grande coisa. Porque nós no primeiro ciclo, quando eram as direções escolares e não sei que mais… E eu fui uma defensora dos agrupamentos, tem calma aí… nós não podíamos fazer nada. Nós tínhamos que pedir autorização para tudo. Mas podíamos fazer tudo, porque fazíamos tudo sem pedir autorização para fazer fosse o que fosse [risos].
Arquivos\1º Ciclo\Nélia
Acabei por deixar a educação especial porque já tinha os meus filhos mais crescidinhos e porque foi na altura em que se pôs em prática o 319. E nós, como professores, teríamos que ficar em sala de aula a trabalhar com os outros colegas. Para mim é difícil porque eu gosto de conversar. Não consigo entender o ensino, a aprendizagem sem haver um diálogo, uma participação, uma conversa. E eu achando que iria para a sala de aula de uma colega, por um lado, não queria ser um estorvo, mas por outro lado também queria fazer aquilo que gostava. No fundo, ao longo destes anos todos, tenho tido alguns convites para deixar o ensino, para participar noutras coisas, mas não! O que eu gosto de fazer é trabalhar com os miúdos.
Arquivos\1º Ciclo\Zacarias
Veio mexer um bocadinho, sim! Também depende dos diretores que passam por lá e da visão que têm das coisas, da educação - uns melhores outros piores - da abertura que têm. No primeiro tempo, a coisa decorreu mais ou menos, deixaram-nos continuar com os nossos organogramas, os nossos sistemas todos... Pronto, agora acabaram com isso tudo.
Arquivos\2º Ciclo\Cecília
Houve ali um período um bocadinho conturbado relativamente à profissão e relativamente à carreira, em 2009. Os professores não foram muito bem tratados, e isso teve algum reflexo na desmotivação deles, e mesmo na forma como os pais começaram a olhar os professores e os alunos começaram a olhar os professores e a sociedade começou a olhar os professores.
Arquivos\2º Ciclo\Constança
Há professores que, de facto, tiram as férias e acabam. Não têm mais nada, não fazem, ninguém os chama para fazer nada, porque são pessoas que infelizmente, como em todas as profissões, não dão o seu melhor e não fazem, porque há imenso trabalho nas escolas durante o período das férias. Se eu lhe disser que há professores que a pessoa pensa "vou pô-lo a vigiar este exame ou não vou pôr", é verdade! Mas pronto, porque a pessoa não pode arriscar, se é um exame em que a pessoa tem que fazer uma leitura dirigida ao aluno, porque temos imensos alunos com necessidades educativas especiais, e este colega não tem esse perfil, tem que se fazer isto. Este tipo de trabalho tem de ser feito e, portanto, esta medida do horário permanente na escola de mais horas veio impossibilitar o desenvolvimento de alguma criatividade de alguns docentes, que era ótima, em projetos, em dedicação à escola, em desenvolvimento de atividades com os alunos. Veio comprometer porque as pessoas depois ficaram zangadas e agora querem cumprir o horário e não cumprir mais do que isso.
Arquivos\2º Ciclo\Fátima
Mas foi um tempo em que eu sofri muito. Não pelos colegas, mas sobretudo por uma orientadora de estágio que eu tive, na História, precisamente. Porque eu nunca fui muito de papéis e de fazer muitas coisas - e depois irritava-me, porque nós não podíamos fazer um plano de aulas em conjunto. Nós éramos três ou quatro no meu grupo, mas cada uma tinha de ter o seu plano. E eu sempre fui muito refilona e eu dizia: “Mas porquê? Porque é que nós não podemos fazer em conjunto?” Porque era aquela coisa, depois a nota tinha de ser muito…enfim, não se podia confundir esta e aquela. E eu, às vezes, refilava, e prejudiquei-me um pouco por isso. E depois eu trabalhei muito naquela escola em condições… Eu, às vezes, levava o meu filho – eu entrei em estágio em outubro - o meu filho mais velho nasceu em maio, eu estive um mês em casa e depois voltei para a escola ainda antes das férias. Lembro-me que às vezes saía a correr porque tinha leite a escorrer pela blusa abaixo, para ir dar de mamar ao bebé, porque havia formações e coisas que eu não queria perder. Portanto, por ter um bebé. Eu levava-o na alcofa para a escola e ficava em cima da secretária da rececionista enquanto eu ia às reuniões. Depois, sem esperar, mas felizmente, fiquei grávida em dezembro do segundo ano.
Arquivos\2º Ciclo\Fernanda
E a parte burocrática é que nos impede, muitas vezes, de falarmos menos da parte pedagógica. Porque temos de responder a determinados formulários, candidaturas e avaliações disto, daquilo e daquele outro. E, muitas vezes, a parte mais importante fica um bocadinho aquém...
Arquivos\2º Ciclo\Iva
Cometi um erro. Só nove anos [1983/1984] depois é que me efetivei porque nunca me quis afastar, relativamente, de casa. Depois casei, tive filhos e, portanto, o impeditivo era ainda maior, mas primeiro foi por preguiça e comodidade. Estive nove anos a lecionar sem entrar na carreira, propriamente. Isso foi um erro. Hoje, aos meus colegas, eu digo isso frequentemente: "Vão para longe, vão para onde for, porque isso é muito importante depois para a progressão na carreira.". De resto, gostei de tudo o que fiz.
Arquivos\2º Ciclo\Joca
Uma coisa negativa é que, não me lembro bem o ano, mas por 2009, 2010, surgiu uma notícia num jornal local aqui em Leiria, de que teriam feito uma denúncia para a inspeção de que os meus serviços administrativos tinham concedido a reforma a um docente que não estava habilitada para tal. Como deve calcular, eu nunca fiz contas relativamente à aposentação. Não estou em condições disso. Os papéis vão para baixo, para a Caixa Geral de Aposentações, depois lá eles é que dizem se está bem, se não está bem. Mas foi feita uma denúncia. Chata. Por alguém que mais tarde - eu nunca procurei saber quem foi o denunciante - mas eu vim a saber. E eu tive um processo disciplinar. Eu e o chefe dos serviços, tivemos os dois um processo disciplinar, mas foi resolvido sem problemas. O inspetor tentou perceber, até porque a Caixa Geral de Aposentações acabou por nos dar razão. Isto há coisas inacreditáveis.
Arquivos\2º Ciclo\Quitéria
E depois estas coisas de aprendizagem por projetos, cada escola a fazer o seu projeto… É tudo muito bonito, mas eu continuo com o Inglês, com o mesmo programa de 1974. O programa é o mesmo, não mudou. Se calhar, se o Ministério não consegue fazer uma interligação entre os programas das diferentes disciplinas, será que é a escola A, B ou C que vai conseguir fazer essa interligação entre os vários programas? E não se compreende como o programa continua a ser o mesmo de 50 anos atrás. As aprendizagens essenciais, depois outro nome, os objetivos mínimos, mas as coisas são sempre as mesmas. Se calhar a mudança de fundo é o programa, isto é, no terceiro é isto, no quarto aquilo, no quinto aquilo e por aí adiante. Posso estar enganada, não sei. Eu estou um bocado desmotivada com a escola. Hoje acho que todos nós, professores, que nos vimos ao final de alguns anos, neste momento acho que são poucos os professores que estão motivados. Principalmente os da minha idade, já estamos mais cansados e saturados.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Amélio
E, apesar dessas medidas todas, eu acho que a nível de modos de trabalho dos professores não houve grandes mexidas em aulas. Houve mais a nível curricular.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Catarina
Nós estamos ali para ensinar e ensinar não tem mal nenhum! Ensinar é a melhor coisa da vida! A gente aprender é a coisa melhor que nós temos do ponto de vista intelectual, esta capacidade que temos de aprender até morrer como seres humanos. E hoje parece que não se pode falar em ensinar, porque isso não é pedagogicamente correto. Temos que interagir com eles, temos que não sei quê, temos que estar atentos aos problemas dos miúdos. Uma coisa não se opõe à outra, percebe? Eu continuo a batalhar nesta até morrer - nós temos que ensinar, nós temos que lhes transmitir conhecimento, ou pelo menos fazê-los querer ter conhecimentos, que os fazer ansiar por saber. E essa missão... olhe, eu uma vez assisti a uma conferência de um pedagogo catalão, de uma universidade catalã, organizada pela Associação de Professores de Filosofia, eu nunca mais me esqueci de uma das coisas que ele disse: "Ser professor é dar testemunho. Fundamentalmente, é dar testemunho". O professor… é que nós não estamos ali meramente a transmitir conhecimento, nós estamos, no fundo, a transmitir-lhes [aos alunos] uma experiência de vida passada que engloba a transmissão do conhecimento, mas que engloba também a maneira como os conhecimentos entraram em nós, como foram por nós absorvidos e toda a experiência de vida passada que a gente lhes vai transmitindo. Isso, ao contrário do que alguns pedagogos podem achar, eles [os alunos] gostam disso, eles gostam muito disso. E eu assisti, muitas vezes, a eles a queixarem-se de que há professores muito porreiros: "Professora, há professores muito porreiros, mas não ensinam nada!" Quer dizer, é bagunça nas aulas, podem fazer tudo, mas eles apercebem-se mais do que ninguém. Não é por acaso que eles diziam que preferiam uma aula com regras do que certa bagunça de professores porreiríssimos, que falam tu cá, tu lá. Não é tu cá, tu lá, nós somos professores, eles são alunos. Da mesma maneira que um pai e uma mãe - e eu também sou mãe e sou avó - eles não são amigos, não são camaradas, são pais e são mães. E os professores são professores. Eu cheguei a ter colegas que deixavam que as tratassem por tu na aula. Isto é giríssimo e porreiríssimo, como eles diziam. Mas isto é, há hierarquias que têm que ser respeitadas, quer por uma parte, quer pela outra, e que é muito mais fácil eu insultar uma pessoa a quem trato por tu, do que uma pessoa a quem trato por senhora, ou senhor ou professor ou professora e por você, não é? E, portanto, há normas que foram um bocadinho ultrapassadas e julgo que agora as coisas já estão a entrar […] Eu já estou fora desde 2009. Está a ver?
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Clorinda
Pode ter interesse para esta conversa, falar sobre o ensino e dos problemas com que nos confrontamos antes [mesmo] de estar na escola, porque somos pais. No último ano em que dei aulas, como eu queria já muito sair - estava muito exausta. Sentia-me muito exausta porque o ensino também tinha dado umas voltas em que nos era exigido muito tempo. Tarefas que não tinham a ver propriamente com a lecionação. O meu histórico era perder muito tempo a preparar aulas, precisamente para chegar ao ponto que expliquei. Eu queria chegar à aula com uma aula preparada de véspera e não preparada no intervalo. Eu queria chegar [à escola] e ter, mais ou menos, dimensionado o tempo para eu conseguir cumprir o programa. Aquilo tinha que ser bem esticado e tinha que dar tempo para criar pontos informais dentro da sala de aula, interessá-los. O que acontece é que isso, entretanto, não estava a acontecer. Tinha até, no ano anterior, sido invalidada a hipótese dos professores pedirem a reforma, que na altura eram os 30 anos de serviço e 55 anos de idade. Houve ali um tempo de um governo em que não sei se chegou a ser um ano em que não se podia pedir aposentação antecipada. Eu estava muito, muito, muito cansada, e queria sair.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Luciana
Houve aquela divisão entre os professores titulares e os não titulares. E aquilo foi muito aproveitado de uma maneira que criou clivagens grandes na carreira, grande descontentamento dos professores e, eventualmente, sim, foi um marco importante na degradação da carreira docente.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Maia
Eu não me dei bem com a reforma. Sobretudo porque confundi tudo, eu estava com muita vontade de me reformar, estava mesmo com muita vontade de me reformar. E portanto, mal pude, pedi a reforma. O que é que eu não percebi? Eu estava era farta de estar na gestão. E das burocracias, das plataformas da gestão e de não haver professores na gestão. Eu estava farta de resolver problemas que não resolviam coisa nenhuma e de não conseguir estar atenta aos grandes problemas porque não tinha tempo. E queria ir embora. E não percebi que eu queria dar aulas. E percebi isso naqueles dois primeiros, ou três meses, que estive a dar aulas. Ou seja, eu não devia ter pedido a reforma, eu devia simplesmente ter sido professora.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Otávia
Entrevistadora: Como foi viver esse período?
Otávia: Foi terrível. Eu fiz tanto, fiz tanto. Tenho um monte de atividades. Tínhamos de fazer muitas coisas para mostrar que valíamos. Isto é terrível. O que nós valemos temos de mostrar junto do aluno, não aos outros.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Tita
Pronto, é assim, como vê, eu sujeitei-me a avaliação - até tive excelente, tenho que me gabar, já que ninguém ma gaba agora. Fui avaliada, os alunos estavam todos nervosos porque tinham medo de que eu fosse mal avaliada, veja só, ali a torcer por mim. É assim, mas eu comecei logo a abandalhar aquilo tudo (risos). Eles entraram na linha. Então esteve aqueles tempos todos congelados. Eu tive três filhos em simultâneo no ensino superior em Coimbra e Aveiro. As coisas foram difíceis. Agora acham que por a gente receber 2000 euros, somos ricos. Não nos sobem nada. Nós estamos constantemente a perder poder de compra. Mas eu, às vezes, tenho assim umas determinadas teorias - até se riem de mim. Eu acho que onde se devia ganhar melhor era no início da carreira, veja só. Eu voltava tudo isto ao contrário. Porque as pessoas estão com filhos, com casas, acho que devia ser ao contrário, ou então igual. Percebe? Isso dá-me assim um certo... quando vejo pessoas a ganhar 800 euros e até menos, às vezes, com horários completos, e incompletos. Como é que esta gente consegue? Nunca fui pessoa de grandes exigências, sou uma pessoa muito simples. Como sou muito simples, também não gasto muito dinheiro, em algumas coisas, que não condeno ninguém por usar, mas eu sou assim, sinto-me bem assim. Pois com certeza que comentava com os outros, e lutava, se me davam a hipótese de ter aulas assistidas para conseguir, eu ia lá. Mas do resto olhe, sei lá, não… não fui, realmente… também não valia a pena. O que é que a gente havia de fazer? Mesmo agora, eles estão constantemente a cortar, a todos, nós estamos num período muito mau. Muito mau, mesmo. A gente vai às compras, e vai lutando, vai lutando, mas eu pergunto: "O que fazem aqueles que têm o ordenado mínimo ou menos?".
Arquivos\Pré_Escolar\Adelaide
Tem sido isto... todo o percurso da minha carreira e de todos estes... penso que nos tem favorecido em nada. Tem havido uma desmotivação muito grande por tudo, porque toda aquela.... Como éramos vistos na sociedade e como somos agora vistos já não tem nada a ver...
Entrevistadora: O que é que neste percurso poderia dizer que gerou tensões ou foi mais negativo? O que é que a marcou neste percurso? Se tivesse que dizer alguns momentos-chave...
Adelaide: A coordenação da Escola D. N... naquela fase, em que houve aquele problema e a fase da licenciatura... foi muito complicado gerir tudo e a nível familiar sentiu-se bastante. Não sei se estará ao mesmo nível, mas acho que sim, porque abalou-me na mesma tudo isto destas injustiças que houve da progressão na carreira, isto tudo. Estes três momentos deitaram muito abaixo, sinceramente.
Arquivos\Pré_Escolar\Maria Tiago
Existem teses de doutoramento no âmbito da creche. Há muita produção já feita. Existem pessoas a trabalhar muito bem e existe divulgação disso. O Conselho Nacional de Educação - que também já foi há muito tempo - divulgou sobre os 0 a 3 anos. Há muita questão também com a Convenção dos Direitos das Crianças. Toda esta questão do direito da criança à educação desde cedo. Depois, é preciso ter vontade política para mudar. Acho que já era tempo, mas ainda não estamos a conseguir.
Arquivos\Pré_Escolar\Noel
Como é que, por exemplo, o Ministério para tratar de problemas da Educação passa por cima dos professores e vai aos pais, aos educadores? E põe os educadores contra os professores, está a ver? E isto já lá vai há um tempo. O que nós assistimos hoje é uma herança que vem de trás e é transversal. Não é do governo, do partido A ou B. Não, foi transversal. Quer dizer, uns de uma maneira, outros de outra, contribuíram para esta situação. E daí, hoje em dia, a desmotivação que há também dos professores, aqueles que cá estão e querem sair e aqueles que já nem entram, é dramático o que está a passar!
Arquivos\Pré_Escolar\Rita
Olha, uma das coisas [que fez sair do privado para o público] foi que eu estava cansada, estava exausta. Estava-me a sentir institucionalizada, eu só vivia para a instituição. Eu estava mesmo a ficar fechada, encasulada. Tinha pouca oportunidade de estar com outros, com outras colegas, que pudessem partilhar comigo e pudessem dar alguma coisa.
Arquivos\Pré_Escolar\Rute
Eu penso que a avaliação é muito constrangedora... É muito constrangedor para o avaliador, porque, é assim, eu sou avaliadora interna e fui avaliadora externa. E o papel do avaliador é tão, tão constrangedor quanto o facto de nós termos que cingir a um relatório, quando aquele relatório pode não traduzir nada do que se passa na realidade; e isto é tanto mais constrangedor quando me põe um documento à frente e eu percebo que aquele documento de facto não traduz aquilo que eu visualizei ao longo do ano, para melhor ou para pior. Portanto, acho que é ingrato, é um papel ingrato e que dá origem a muitas injustiças e tanto mais injusto é quanto se está condicionado às cotas. Há colegas que, na minha perspetiva são muito boas, são excelentes, são muito boas profissionais e que, pelas questões de não haver cota, elas ficam com bonzinho. Isso angustia muito, eu acho isto terrível. Não sei muito bem como... porque eu acho que deve ser valorizado o empenho, sim; isto tem que haver, de facto, algum critério, mas a forma como está a ser não me parece que seja justo. Não me parece que seja justo para todos os colegas, para todos os colegas, inclusive para mim. Portanto, não me parece que haja justiça neste formato de avaliação.