Histórias de Ensino e Formação

Histórias de Ensino e Formação






FINANCIAMENTO

FCT - Fundação para a Ciência e a Tecnologia
(Grant no. PTDC/CED-EDG/1039/2021)
https://doi.org/10.54499/PTDC/CED-EDG/1039/2021




COORDENAÇÃO

Amélia Lopes
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade do Porto
amelia@fpce.up.pt
http://orcid.org/0000-0002-5589-5265

Leanete Thomas Dotta
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade do Porto, Portugal
leanete@fpce.up.pt
https://orcid.org/0000-0002-7676-2680




EQUIPA

Amândio Braga Santos Graça
Faculdade de Desporto da Universidade do Porto
agraça@fade.up.pt
https://orcid.org/0000-0003-1539-4201

Ana Mouraz
Universidade Aberta
ana.lopes@uab.pt
http://orcid.org/0000-0001-7960-5923

Angélica Monteiro
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto
armonteiro@fpce.up.pt
https://orcid.org/0000-0002-1369-3462

Fátima Pereira
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto
fpereira@fpce.up.pt
https://orcid.org/0000-0003-1107-7583

Isabel Viana
Universidade do Minho
icviana@ie.uminho.pt
https://orcid.org/0000-0001-6088-8396

José João Almeida
Universidade do Minho
jj@di.uminho.pt
https://orcid.org/0000-0002-0722-2031

Luciana Joana
Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE), Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto
lucianajoana@fpce.up.pt
https://orcid.org/0000-0002-0869-3396

Luís Grosso
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
lgrosso@letras.up.pt
https://orcid.org/0000-0002-2370-4436

Maria Assunção Folque
Universidade de Évora
mafm@uevora.pt
https://orcid.org/0000-0001-7883-2438

Margarida Marta
Instituto Politécnico do Porto
mcmarta59@gmail.com
https://orcid.org/0000-0002-0439-6917

Maria João Cardoso De Carvalho
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
mjcc@utad.pt
https://orcid.org/0000-0002-6870-849X

Paula Batista
Faculdade de Desporto da Universidade do Porto
paulabatista@fade.up.pt
https://orcid.org/0000-0002-2820-895X

Ricardo Vieira
ESECS | Instituto Politécnico de Leiria
ricardovieira@ipleiria.pt
https://orcid.org/0000-0003-1529-1296

Rita Tavares de Sousa
Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto
rtsousa@fpce.up.pt
https://orcid.org/0000-0002-0919-4724

Sónia Rodrigues
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
srodrigues@reit.up.pt
https://orcid.org/0000-0003-0571-024X
FYT-ID Financiamento
DESIGN
José Lima e Pedro Meireis

PROGRAMAÇÃO
Pedro Meireis

2º Ciclo, Anos Iniciais

I

Consulta de codificação em matriz - Visualização do [Conjuntos estáticos\2º Ciclo, Códigos\Categorias FYT\1. Percursos\Primeiros 5 anos de trabalho]


Arquivos\2º Ciclo\Alda

Referência 1 - 1,35% Cobertura

Entrevistadora: Em 1975 começou a dar aulas.
Alda: Sim.
Entrevistadora: Como é que foram esses primeiros anos?
Alda: No primeiro ano, comecei a dar [aulas] ao 9.º [ano de escolaridade]. Apesar de eu ter habilitação própria para Matemática e Ciências no 2.º ciclo [do ensino básico], não sei porque "cargas d'água" vim dar aulas [ao 3.º ciclo do ensino básico]. Eu vim aqui para Trancoso, [a escola] ainda funcionava no antigo colégio, que agora é profissional. Era aquela coisa de trabalhar, era um trabalho que eu tinha. Depois comecei a descobrir que até tinha algum jeito, porque gostava de falar - como hoje ainda falo muito (risos). Depois, era também aquele nível de alunos que em certa medida eram mais velhinhos e permitia-me... Era o 9.º ano [de escolaridade]. Aí também ainda estavam a dar aulas aqueles senhores padres que tinham criado o colégio. Eu ainda me lembro do senhor Padre A. estar lá a dar aulas de Música, o Padre T. a dar aulas de História - acho que era História que ele dava e outra disciplina. Nós, ali, coabitamos todos.

Referência 5 - 1,94% Cobertura

O meu marido, que era [professor] do 1.º ciclo [do ensino básico], antes de ser marido, só tinha estado um mês a trabalhar, a substituir uma colega. Não havia aqui lugar a nível do 1.º ciclo. Tinham dito que na Madeira havia muitos lugares [vagos para ser professor] e, então, fomos. Casámos e fomos para a Madeira. Foi lá a lua de mel, três anos. Eu fui sem concurso porque os concursos eram independentes. Eu não tinha penalização nenhuma. Lá, eu lembro-me de ir à Secretaria Regional e disseram-me assim: "olha, tem esta vaga, esta e esta.", qualquer coisa assim. Eu disse: "Estreito de Câmara de Lobos, que é onde resido." O meu marido tinha sido colocado, já lá tínhamos uma casita e foi aí que fiquei.
No ano seguinte, concorri para fazer estágio. Eu não tinha preparação pedagógica. Abriram umas vagas e fiquei no Funchal durante dois anos a fazer a profissionalização em exercício. Depois, já me podia candidatar a quadros de escola para efetivar. Sem isso não conseguia. Acabei por estar três anos a dar aulas na Madeira, o primeiro ano quando ingressei e depois os outros dois da profissionalização em exercício. Depois quando vim concorri para Trancoso e cá fiquei.


Arquivos\2º Ciclo\Aldina

Referência 1 - 1,55% Cobertura

Eu tinha acabado a faculdade, na Faculdade de Letras aqui em Lisboa, e não tinha profissionalização. Fiz a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, que na altura era uma coisa que me interessava e o meu objectivo quando acabei a licenciatura era submeter o currículo para a televisão - tinha lá algum conhecimento - ou para a tradução ou para turismo. E concorri, naquela altura era um mini concurso, concorri porque era o imediato. Eu terminei em Julho, nós não tínhamos exames naquela altura, portanto era só a avaliação contínua, sem exames. E eu terminei em junho e inscrevi-me no mini concurso e em outubro, quando passaram as férias grandes, que era um tempo em termos de procura de trabalho mais a meio tempo, eu concorri ao mini concurso e fiquei com o horário mínimo de 12h para começar a trabalhar. E depois o meu objectivo seria explorar, ver para onde é que eu iria inclinar. A verdade é que eu no final da primeira semana, fiquei colocada aqui em Lisboa - eu sou de Lisboa, vivi sempre em Lisboa - e fui colocada na Ajuda, numa escola da Ajuda e numa escola normal.


Arquivos\2º Ciclo\Carmo

Referência 2 - 2,26% Cobertura

Fui desorientada por um orientador muito medíocre, percebes? Era mesmo o estilo de pessoa que vinha da praia que me abraçava e dizia: "és a minha estagiariazinha". Eu tirei logo os braços dele de cima de mim. Ele era muito fraco. Foi um processo um bocado complicado para mim, porque eu tive que fazer queixa dele. Mandei uma carta para o [conselho] pedagógico a dizer como é que ele ensinava. Imagina uma pessoa que me ia avaliar... Depois também era avaliada pelo [conselho] pedagógico na área escolar e na área de sistema educativo. Aí estive muito bem. Os colegas que davam aulas comigo eram queridos, mas tinham muito medo e tomavam posições. E então foi assim essa minha história. Fiz estágio e fiz coisas muito giras. Adorei. Fizemos uma análise dos jogos tradicionais da altura que se jogavam - parece que foi no século passado. Inquiri os pais, os putos, desenhamos canos pela escola toda, caracterizamos os jogos, fotografamos os miúdos a jogar, muitas coisas. Isso foi o estágio na [Universidade] Fernando Pessoa. Foi um ano complexo. Foi um ano muito complicado para mim, que correspondeu ao meu divórcio.

Referência 3 - 1,31% Cobertura

Também foi nesta fase em que eu era mais pobrezinha. Não tinha dinheiro. Fiquei sem casa - não queria viver com os meus ex-sogros. Foi assim que eu entrei para o mestrado no ano letivo de 1985-86. Eu não tinha condições nenhumas, não tinha carro, não tinha casa, estava completamente desgraçada. Comecei a perceber que não estava a conseguir fazer aquilo - apesar de que para mim era fácil. Pensei que não ia continuar, que tinha era de dar aulas e depois tentar de novo, mas entrei. Eles deram-me logo entrada automática no mestrado - era em Ciências da Educação - e fui a primeira pessoa a acabar o mestrado. Esse foi o meu segundo mestrado,


Arquivos\2º Ciclo\Constança

Referência 6 - 0,29% Cobertura

Entrevistadora: Foi um bom início, tanto que a fez ficar na profissão, [certo]?
Constança: Sim! Quer dizer, com alguma ansiedade, não é? Porque durante muitos anos, os meses de julho e agosto, eram meses de ansiedade, sem se saber onde se fica colocado. Depois, entretanto, constitui família, e aí a coisa torna-se mais séria e a pessoa começa a pensar "como é que é vai ser?". Houve um ano que apanhei um grande susto porque saiu uma colocação para Rio Maior e eu tinha uma criança com dois anos e a imaginar que tinha que ir de malas e bagagens com a criança para Rio Maior. Mas tinha havido um engano e, depois fui para a Moita, [então] achei que tinha ficado em casa. Foi ótimo!

Referência 10 - 1,71% Cobertura

Entrevistadora: Provavelmente também chegou a ser directora de turma.
Constança: Não, nesses dois anos não fui. Curiosamente não fui e, portanto, essa realidade de contacto com as famílias não tive no Alentejo. Ia sabendo, pelos colegas, de algumas questões e fui-me apercebendo das dinâmicas familiares e das dificuldades que algumas crianças tinham em frequentar a escola. Algumas dormiam nesse colégio em Portalegre. Portanto, os pais que tinham mais poder económico. Eles ficavam lá durante a semana, mas nem todos tinham o poder económico para poder pagar a estadia e [por isso], alguns faziam muitos quilómetros durante a noite. No Inverno era penoso, quando saíam da escola já era noite, chegavam a casa tarde e iam trabalhar. Dava para perceber, até pelas mãozinhas deles, que a vida era difícil. Porque eu não tive contacto com as famílias e as famílias dessas crianças que moravam longe, também não estavam muito presentes na escola, como é óbvio. Trabalhavam no campo, não tinham grande disponibilidade para ir à escola. Havia alguns bons alunos, mas muitos deles tinham muitas dificuldades, porque a maior parte dos pais ainda eram analfabetos, e portanto naquela época eram muitos, ainda muitos analfabetos. Portanto, eu diria que as crianças que estavam no colégio eram as crianças mais favorecidas e essas, até tinham um ambiente dentro do colégio em que estavam com colegas, podiam estudar em conjunto e até tinham lá professores.


Arquivos\2º Ciclo\Esmeralda

Referência 1 - 0,96% Cobertura

Tive um convite para cobrir a necessidade de dar aulas a uma turma do seminário liceal em Alcains. Eu comecei lá, com uma madrinha que me apoiou. Os meus pais não tinham, quer dizer, eles tinham dificuldade em dar formação aos três filhos. Eu tinha uma madrinha que era enfermeira e que se ofereceu para me ajudar. E nessa altura, então eu fui para Alcains, fiz o sexto ano lá, depois fiz o liceu em D. e depois em Alcains, que é a minha segunda terra, onde eu tenho lá uma casa que neste momento, coitada, está abandonada, só lá vou no verão porque agora no inverno [é] muito frio. Tive uma autorização especial, mas as horas que eu tive a ver aqui no meu registo biográfico, eram poucas, 14, 17, 13, 11, 18. Eu tinha, portanto, apenas um horário, horários incompletos, isto não me conta na totalidade para o tempo de serviço, tempos de serviço completos só a partir de 1983, porque aí já [...] Nessa altura, é isso que eu ia dizer, foram anos complicados porque eu insisti em ir às aulas da faculdade e trabalhar.

Referência 2 - 0,45% Cobertura

Portanto, eu tinha um estatuto de trabalhadora estudante e nessa altura era possível eu vir às aulas. Tinha aqui alguém que me ajudava, uma amiga da madrinha que me dava o lugar para dormir e eu vinha às aulas quinta, sexta e sábado de manhã. Depois não me aguentei no último ano, então tive que ficar o ano inteiro a trabalhar porque estava a ser muito duro para mim e então terminei a faculdade. Nessa altura, a seguir à faculdade, concorri.


Arquivos\2º Ciclo\Fátima

Referência 1 - 1,34% Cobertura

No ano seguinte, fui parar a Peniche, para uma aldeia de Peniche e foi uma experiência incrível, porque eu lembro-me que chorei quando para lá fui, porque eu não fiquei na Benedita porque não pedi a recondução. Queria aproximar-me de casa, e fui parar mais longe, fui parar a uma aldeia de Peniche. E na altura era duro, porque não tinha carro, eu para ir para lá daqui tinha de ir até à Cruz da Légua - eu vivo no Juncal, agora, e, na altura, vivia [lá também], eu sou daqui - e então, tinha de ir dois quilómetros até à Cruz da Légua, portanto, tinham de me ir levar de carro. Ou ia a pé, mas, geralmente, iam-me levar de carro, o meu pai. Depois tinha de ir para as Caldas, depois ia para Peniche e depois ia para a aldeia. E quando vinha - havia aulas ao Sábado de manhã, isto ainda antes do 25 de Abril - eu para conseguir vir a casa tinha de roubar um bocadinho de tempo à escola para ir para Peniche, para depois ir para as Caldas, para depois vir para a Cruz da Légua, e chegava aqui por volta das 16h. E depois no Domingo às 16h tinha de me ir embora outra vez.

Referência 2 - 1,36% Cobertura

Foi um tempo, por um lado, estranho, porque os meus amigos estavam todos na guerra, mas é dos anos que eu recordo de uma forma muito especial, porque os meus alunos, alguns, eram quase da minha idade. Eu tinha 20 anos, eles tinham 12, 13, alunos com repetências… Os pais eram pescadores e as mães é que trabalhavam no campo. E as mães é que iam esperá-los à escola, com a enxada. E estavam habituados a ter…aliás, às vezes as mães e as funcionárias contavam que a professora andava na escola a fazer tricot e tal…e eu cheguei lá com 20 anos, eu e outra colega, e revolucionamos um bocadinho a escola. E lembro-me que um dia de um temporal brutal que houve eu disse: “Olhem, hoje ficamos em casa de tarde, porque está perigoso”, porque havia telhas a voar, etecetera…eles reclamaram! “Pronto, querem vir à escola? Então vimos todos à escola de tarde”. Mas é um ano em que eu me lembro, de facto, com ternura, porque as mães daqueles meninos sustentavam-nos. Matavam o porco, davam-nos carne, coziam pão, levavam-nos um pão…e foi uma experiência, de facto, muito interessante.


Arquivos\2º Ciclo\Fernanda

Referência 1 - 0,15% Cobertura

Eu estou na docência desde 84. Ano letivo de 84/85 portanto, este ano completo 37 anos de serviço.

Referência 2 - 0,20% Cobertura

O meu percurso começou, realmente, numa escola Secundária no C. P., no C. P. Foi a minha primeira escola, a escola Secundária do C.

Foi uma experiência difícil. Foi uma experiência difícil porque logo a seguir também tive outra experiência mais ou menos na mesma área, na escola R. E estas escolas são escolas que tem uma população de risco, alguns alunos de risco e foi difícil para quem começa. Nessas primeiras escolas eu estive apenas um ano. Foi mesmo de passagem.


Arquivos\2º Ciclo\Glória

Referência 11 - 0,60% Cobertura

E eu fui dar História. Eu dei História e fartei-me de estudar, porque eu quando me entrego às coisas. Eu gosto muito de História. Mas levei todo o ano a fazer sabe o quê, na sala dos professores, armada em arrivista? Todo o tempo a dizer “Não percebo, não percebo! Eu estou aqui a dar História, mas eu não sou professora de História! Eu não sou professora de História”, e as minhas colegas riam-se, riam-se! “Eu sou professora de Inglês!”. Entretanto eu já tinha feito conhecimento e amizade até com as colegas de Inglês que estavam a dar Inglês na experiência… ficamos sempre muito amigas. E pronto, “Mas claro, a escola está cheia de professora primárias, naturalmente”, e estava. Tudo quanto era horário para além dos professores efetivos, eram professoras primárias. Professoras primárias que estavam a dar História, que estavam a dar Português, que estavam a dar Desenho, que estavam a dar Matemática, que estavam a dar o que fosse preciso.

Referência 18 - 1,04% Cobertura

E depois vinham [risos] as inspetoras, a inspeção de Lisboa. Claro que não havia inspeção em Coimbra nem coisa nenhuma, isso é que era bom! Vinham as inspetoras ver se nós dávamos muitas negativas [risos] e eu dava muitas negativas, era tão parva eu, credo! Nos primeiros anos… tantas negativas! Também tínhamos alunos, 30 e tal alunos à frente, tínhamos turmas enormes, como é que havíamos… era a única escola preparatória, tudo o que era sítio, de sítios que eu nunca tinha ouvido falar na vida, quase perto de P.! E faziam quilómetros a pé para apanharem um autocarro para virem para a preparatória… sem um livro em casa, sem os pais que muitos não sabiam ler nem escrever, era um esforço tão grande e eu feita parva – eu e os outros – a dar negativas nos garotos? Só mais tarde é que aprendi. Mas era… era um tempo. E então vinham as inspetoras ralhar connosco porque dávamos muitas negativas, ainda no tempo do 0 a 20, porque a escala de 1 a 5 foi só em inícios de 80 ou 70 e muitos. E vinham as inspetoras, depois o V. G. chateou-se porque em Lisboa não nos davam as coisas que nós precisávamos. Chateou-se e acabou-se o conselho diretivo!


Arquivos\2º Ciclo\Iva

Referência 1 - 0,41% Cobertura

Na primeira escola, que foi a M. A. - eu tive com os colegas o distanciamento que já referi - tive um horário que era tarde-noite. Eu tinha 22 anos, portanto, os meus alunos eram mais velhos que eu, todos. Daí, fui colocada na Baixa da Banheira, onde estive nove anos [80-89]. Quando fui procurar onde é que era a escola - eu nem conhecia a Baixa da Banheira - encontrei uma senhora que me disse: "Olha, a escola é ali no meio do pinhal, mas a senhora é professora?". Eu sou [respondi]. "Ai que bom! Ainda bem que vamos ter professores.". Bom, a escola ficava, efetivamente, num sítio difícil. Nessa escola eu fiz de tudo. Encontrei um grupo de professores excecional, muito mais velhos que eu, mas que trabalhavam connosco em equipa. Portanto, eu trabalhava de manhã, trabalhei quase sempre de manhã, acabávamos às 13h30, íamos almoçar e ficávamos à tarde a planear as nossas aulas. Fantástico. Eram professores por gosto e eu aprendi imenso com eles, imenso. Aí tive a experiência de gestão. Era uma escola em que os professores ainda bebiam aguardente no bar da escola, de manhã, para aquecerem - a escola desconfortável ao máximo - porque hoje é uma escola nova, mas, na altura, era em madeira. Foi essa escola que eu, depois, acabei por gerir.

Referência 4 - 0,97% Cobertura

Olhe, no meu segundo ano de serviço, foi o meu ano de maiores episódios. Eu tinha um grupo de trabalho, com professores com outra experiência que não tinha nada a ver com a minha, que era uma novata. Aprendi muito com eles. Nós aprendemos uns com os outros. Ficamos com a turma de supletivos de dia. Eram miúdos, repetentes, com muitos problemas. Na verdade nós ajustamos aquelas planificações, aqueles temas a trabalhar, tudo de acordo com os interesses deles.


Arquivos\2º Ciclo\Joca

Referência 1 - 0,56% Cobertura

Eu acabei a ficar no segundo ciclo porque eu fiz o curso à distância. Eu comecei a trabalhar e não deixei, e demorei três anos para concluir, incluindo no último ano, a profissionalização que me concedeu a possibilidade de me tornar professor efetivo. Ali era só contrato e professor efetivo. Efetivei-me nesta escola. Agora já é agrupamento, na altura era a Escola Preparatória de O. Eu comecei em janeiro, porque não comecei o ano letivo, embora fosse praticamente todos os dias trabalhar com os meus colegas, trabalhar sem dar aulas ainda, porque nesse ano a maior parte dos professores contratados, ou todos os professores contratados através do chamado mini concurso, só entraram em janeiro. Portanto, eu e muitos outros só entramos em janeiro e os alunos tiveram o primeiro período com falta de professores, como está a acontecer agora, também, por aquilo que se sabe.

Referência 3 - 1,11% Cobertura

Durante os dois anos e meio, três anos que eu estive no Liceu O. eu não tive turmas, eu tive grupos, porque os alunos inscreviam-se em determinadas modalidades. Havia o andebol, o futebol, a ginástica, o atletismo [...]. Portanto, em termos desportivos, os alunos não iam com a sua turma, quem quisesse inscrevia-se em horários previamente definidos, eles tinham que se inscrever em horários em que pudessem ter as aulas. E esta foi uma primeira experiência muito fora daquilo que seria o que fazia em todas as outras escolas. Mas devo dizer que, com muito agrado meu, foi muito bom, até porque os meus colegas mais velhos ao prepararem o projeto perguntavam-me "que disciplinas, que modalidades é que tu preferes dar?". E aí houve alguma facilidade.


Arquivos\2º Ciclo\Maria Luís

Referência 1 - 2,76% Cobertura

Eu comecei sem ter a formação suficiente para ser professora. Mas aos bocadinhos eu fui estudando e consegui acabar uma licenciatura. E eu sempre gostei muito de ensinar. Eu acho que todas nós, nesta altura da minha geração, gostávamos de ensinar e eu gostei muito de ensinar. Era muito virada para as artes. Na minha família, todos nós temos um lado artístico. E eu já tinha feito um curso de artes no Soares Reis. E foi com esse curso de artes que comecei a concorrer ao ensino. Mas nessa altura fui colocada em “cascos de rolha”. Ora, nessa altura não compensava ir trabalhar onde eu fui colocada, porque era longíssimo e não havia transportes públicos. Por não ter a formação completa e a ganhar muito pouco ia gastar tudo no alojamento e nos transportes. Decidi não ir esse ano e tive uma penalização de dois anos, só pude voltar a concorrer dois anos mais tarde, daí eu começar aos 26 anos. Concorri e fui colocada em Viana do Castelo a dar a disciplina, na altura, dava EV.

Referência 2 - 2,67% Cobertura

Desde logo nesse primeiro ano, azar meu, fui ter várias turmas e uma delas nessa altura chamava-se turma dos supletivos, que era a turma daqueles alunos que no quinto ano tinham 15, 16 anos, porque nunca mais saíam da “cepa torta”. Quer dizer, andavam ali por andar, era uma turma mais pequena, com menos alunos, mas muito problemáticos. Eu dava aulas numa escola inserida num bairro piscatório. Eu fiquei simplesmente aterrorizada. Eu chegava à escola, as minhas colegas mais velhas do que eu, deviam ter 50, foram amorosas e foram dando dicas de quem tem muita experiência, super valiosas. E eu consegui, não me aterrorizei, nunca mostrei aos meus alunos medo. Consegui vencer esse ano de uma forma... tive episódios menos agradáveis, mas sempre conseguindo superar essas situações. O primeiro ano de ensino foi um choque para mim, porque eu vi que não ia ter sempre aquelas turminhas maravilhosas como eram as outras, de meninos de nove, dez, onze anos.


Arquivos\2º Ciclo\Orlanda

Referência 1 - 1,30% Cobertura

Eu entrei em 1982 para a escola, por mini-concurso, para Penafiel. Não tinha estágio, portanto, eu tinha apenas uma Licenciatura, que, na altura, devido ao alargamento da escolaridade obrigatória recorreu-se a muitos cursos: Engenharias, Economias, muita coisa, Farmácias, toda a gente veio para o Ensino, não havia alternativa. Estive em Penafiel nesse ano. No ano seguinte vinculei, porque, na altura, era diferente do que é agora: nós, se concorrêssemos a uma zona – que havia quatro zonas no país – vinculávamos, portanto, o Ministério já não se podia desfazer de nós. Então fiquei colocada em Valpaços. Estive lá em Valpaços e depois fiquei colocada em contrato plurianual na N.M., no Porto. Estive lá quatro anos e depois fiz o estágio.

Referência 2 - 1,29% Cobertura

Estive muito envolvida – mesmo na N.M., onde estive quatro anos, também foi muito importante, foi na altura em que se estava a discutir a Lei de Bases do Sistema Educativo, que foi aprovada em 1986. E, nessa época, eu estive muito envolvida na discussão dos documentos, tive o privilégio de encontrar uma ex-professora, que era do meu grupo disciplinar, a Dra. I.C., foi minha professora no liceu, encontrei-a lá – ela já estava quase no fim da carreira, mas também estava muito envolvida lá na discussão dos documentos. Foi muito importante, porque, para mim, foi uma formação, mesmo, a discussão daqueles documentos. E a participação, que todos nós participámos ativamente na Lei de Bases do Sistema Educativo. Isso foi muito importante.


Arquivos\2º Ciclo\Quitéria

Referência 1 - 0,89% Cobertura

No segundo ano fui dar aulas na Secundária de X.O. Adorei e tive aulas noturnas e todas as aulas noturnas. Gostei, apesar de ter sido muito duro, porque vir de Vila Nova de Ourém para Leiria às 21h00 não é fácil. Não era fácil, não é fácil agora, mas há 40 anos atrás ainda era muito pior, porque as estradas eram horrorosas. Pronto. E a escola acabava às 17h e depois as aulas à noite só começavam às 19h. Quer dizer, tinha ali duas horas de intervalo, três vezes por semana. Pronto, isto durante um ano inteiro. Foi assim, um bocadinho duro.

Referência 2 - 0,71% Cobertura

O primeiro ano foi nos Marrazes, depois estive dois anos na Secundária X.O. e depois estive como professora provisória, entrando sempre em mini concursos, três anos na Escola E.E., em Leiria, onde fui apanhar como colegas professores que tinham sido meus professores e até os funcionários já eram funcionários na altura, na escola onde eu andei. Porque eu fui aluna na experiência do Veiga Simão e foi aí que a Professora G. foi minha professora.


Arquivos\2º Ciclo\Rosário

Referência 1 - 1,39% Cobertura

Não era misto. Mas gostei. Também tive quem me auxiliasse logo no início. Quer dizer, na altura não havia reuniões do conselho de disciplina, nem conselhos nem nada dessas coisas que há agora; mas tive professoras que já estavam na escola, algumas delas até que já tinham sido minhas professoras, que vieram ter comigo e disseram: “Rosário, o que tu quiseres.” E falavam comigo. E eu tentei realmente, estudava muito, muito em casa antes das aulas. Estudava, preparava aquilo… até abrandei um bocadinho - estava a estudar em Coimbra. Eu queria terminar o curso e queria dar aulas. Mas eu gostava do contacto com os miúdos, os miúdos que não eram tão miúdos assim. E consegui. Consegui melhores notas do que anteriormente. Isso quando uma pessoa quer… e acho que [...], eu noto que depois a prática ajuda muito, não é?

Referência 2 - 1,16% Cobertura

Esse período foi um bocadinho difícil, lá está, pela mesma razão, porque havia exigências, muito mais exigências. Eu lembro-me que quando eu comecei a trabalhar não ganhava nas férias, tinha aulas todos os dias da semana e até ao sábado dava supletivos: pessoas já crescidas, homens e mulheres que trabalhavam durante o dia. Até sábado eu saía às tantas da noite, não tinha dia livre como agora têm. Havia também a sede, uma escola sede, e havia um outro edifício, que era um antigo seminário, que eles aproveitaram para ser escola, ali, dos rapazes, separada das raparigas. E lembro-me que eu, em 20 minutos a pé, tinha de me colocar de um sítio para o outro, e não é assim tão perto como isso. Não havia muita facilidade.


Arquivos\2º Ciclo\Sofia

Referência 3 - 3,35% Cobertura

Os primeiros 40 dias foram no Liceu O. N. Na altura escrevia-se para as escolas! Nós fazíamos uma carta a dizer que gostávamos de dar aulas [e enviávamos] ao reitor. Eu estava no terceiro ano de Filosofia, portanto, na altura estava no bacharelato. Para o meu espanto, ligam para casa dos meus pais a dizer que se eu estivesse interessada tinha um horário praticamente completo, de alguém que dava Filosofia e que foi para Lisboa. Eu, na altura, hesitei muito. Estava no final do ano, em altura de exames no bacharelato, mas resolvi ir e foi uma experiência fantástica, assim meia caída do céu. Eu tive alunos que eram da minha idade, outros que eu conhecia de miúdos porque eram conterrâneos, eram colegas dos meus irmãos - mais novos que conhecia de irem a minha casa. Foi numa altura em que se fumava, tanto alunos como professores. Fumavam dentro da sala de aula, outras turmas entravam pelas salas a perguntar o que é que se estava a passar. Filosofia, ainda estava muito fresquinha em relação à matéria que estava a dar. Introdução à política, não! Era uma coisa nova, que só surgiu depois do 25 de Abril. Eu tive que estudar muito. Depois, puseram-me como diretora de turma. Meteram-me no cofre da secretaria, uma coisa que me assustou imenso. É mesmo uma divisão, um cofre, onde, na altura, se escreviam os termos num livro, se escreviam os resultados de cada aluno. Eu sentia a responsabilidade, mas se fosse uns anos depois acho que teria ficado muito mais aflita.

Referência 4 - 3,88% Cobertura

Depois, em 1976, 1977, fui colocada na escola em Ovar, em dezembro. No ano seguinte voltei a ser colocada em Ovar, estive dois anos. Sempre como contratada, no segundo ciclo [do ensino básico]. Depois, em 1977-1978 fui colocada numa escola em Sever do Vouga e aí fui colocada em Filosofia. E qual é o meu espanto? Até podia trocar! Eu lembro-me que um colega que estava na direção de Ovar, na altura, me ligou. Eu preferia Ovar pois podia ir e vir todos os dias. Em Sever do Vouga tinha de ficar lá. Na altura não tinha carro. Eu queria ir, mas tinha sido um engano do Ministério. Era um antigo colégio privado. Na altura, perguntaram-me se eu queria dar aulas de História ao terceiro ciclo, mas eu não tinha habilitação própria, eu tinha ido para o segundo ciclo com Filosofia. Eu disse que sim, achei que era giro e gostei muito. Tive dois meses. Entretanto, foi colocada uma professora de História e eu fiquei sem horário. Então estive um ano a ajudar a organizar a biblioteca, porque a escola estava a começar como escola pública e foi isso que eu fiz, nesse ano. No final do ano, ajudei também a fazer horários e por aí fora. Depois, no ano seguinte, fui para Vale de Cambra, em 1979, 1980, também como supranumerária - outra vez um erro do Ministério. Aquilo já era na altura uma escola preparatória e colocaram-me lá em Filosofia! Eu cheguei lá e também não tinha horário. Portanto, estive um ano a dar apoios e na biblioteca - que era uma coisa que eu gostava muito. Foram dois anos complicados. Não havia relação com alunos. Em Sever de Vouga, até tinha pouca relação com os professores, porque estava muito tempo na biblioteca. Depois, fui dois anos para a Régua, em 1981-1982.

| B3.3 |