I
ex: formação dos agrupamentos, uso de plataformas digitais, mudanças burocráticas, papeladas
Arquivos\1º Ciclo\Abel
Este acompanhamento, esta troca de partilha, esta partilha da experiência que é vivida e que nem sempre está nos livros, mas que parte muito realmente da prática e daquilo que os contextos vão dando e que possivelmente estes novos professores que vão entrar, não digo os que já estão, mas os que se calhar entram daqui a uns anos, não vão ter a riqueza desta experiência dos professores mais velhos que tiveram e que viveram coisas que não se vão repetir, certamente.
Arquivos\1º Ciclo\Anita
Foi muito complicado, porque nos juntaram com outra escola onde os livros eram diferentes, onde as normas eram diferentes, as nossas reuniões eram horríveis, não nos entendíamos, mas pronto, foi difícil, também, juntarmos as várias escolas num agrupamento só. Passei também por isso... durante uns anos, foi complicado acertarmos, entrosarmo-nos uns com os outros. Mas praticamente não estive no ensino – acho que se chamava agrupamento vertical. Depois passou para os agrupamentos… como é que se diz? A minha escola é do agrupamento J. Q., que é uma grande escola. Mas as reuniões eram muito difíceis... os livros não batiam certo, uns tinham uns livros, outros tinham outros… eram sempre muito complicadas as reuniões. Mas, como eu disse, eu tenho passado pelas mudanças todas e cá vamos andando, cá vamos conseguindo superar estas coisas, com muita união entre nós, que é o que me vale na minha escola, é o espírito de ajuda.
Arquivos\1º Ciclo\Bruna
Eu era Vice-Presidente do Agrupamento Horizontal de Nelas. Foi na altura em que foram formados os agrupamentos. Fizemos uma equipa, [com] duas colegas do 1.º ciclo [do ensino básico]. Uma delas era a presidente, eu era vice-presidente e a outra colega do pré-escolar, também era vice-presidente. Para mim foi bom. Primeiro, centralizou todos os serviços. Depois, as colegas continuaram a ter as suas escolinhas nas aldeias, o que quer dizer que elas continuaram a ser autónomas na mesma. Estava tudo centralizado connosco. As reuniões eram feitas connosco, os pedidos eram feitos connosco.
Arquivos\1º Ciclo\Carla
No ano passado estive outra vez de apoio. Este ano, com os problemas que houve da colocação dos professores, por causa da mobilidade por doença, não houve apoio para ninguém. Mesmo as escolas da cidade têm alguma dificuldade, têm apoios pequenos. Este ano é algo completamente diferente. Tenho seis meninos, duas no quarto ano [de escolaridade], uma no terceiro [ano de escolaridade], um que deveria andar no terceiro, mas está no segundo, apesar de estar a nível de primeiro [ano de escolaridade], e dois que estão no segundo [ano de escolaridade]. Uma delas é holandesa. Foi a mesma história com os pretinhos, por causa do inglês. Foi preciso ensinar do zero, com gestos, com visitas, andar na rua. Acho que foi útil porque a miúda entretanto já lê e escreve. No outro dia não sabia o que era pomar e eu expliquei. Quando é sentimentos, às vezes pode ser com caretas. Com palavras, depende da circunstância. Já fala melhor Português do que os pais. Essa é uma experiência diferente.
Arquivos\1º Ciclo\Carmina
Entretanto, acabaram, com a Maria de Lurdes Rodrigues. Eu acho que ela não deve gostar dos professores. Enquanto ela foi ministra da Educação, ela retirou os destacamentos todos. Aliás, eles agora só têm os monitores. Têm muito menos atividades. Eles sentiram muito esta parte. Nós lá éramos pagos pelo Ministério.
Arquivos\1º Ciclo\Celeste
Eu acho que com os agrupamentos houve aqui uma tendência do primeiro ciclo ficar muito subjugado. E o pré-escolar se não se afirmarem aos outros ciclos... Isso verificou-se ali mais no início. Agora as pessoas começaram a ter uma maior consciência disso e acho que os professores do primeiro ciclo e do pré-escolar foram progressivamente ganhando maior... Foram-se afirmando um bocadinho mais.
Arquivos\1º Ciclo\Clara
Quando os agrupamentos se formam eu já estou de saída. Eu pertencia ao agrupamento da escola D., mas eu já estou, de facto, de saída e não senti muito porque estava mesmo… Ao início ainda as coisas não estão sistematizadas e eu, entretanto, estava de saída. A diferença foi que tivemos um professor (infelizmente também já falecido) que ia à turma do ensino especial. Portanto, era um professor que ensinava trabalhos manuais. Nós tínhamos uma turma de ensino especial na nossa escola, crianças que se integravam na nossa turma, que eram distribuídas pelas nossas turmas e esse professor ia trabalhar com essas crianças. Mas já tínhamos tido outros… Antes do agrupamento também já tínhamos tido um artista de cerâmica que ia lá fazer esse trabalho. Não posso dizer, não tenho factos para poder falar disso.
Arquivos\1º Ciclo\Clotilde
Não sei. Eu acho que as pessoas, e cada vez mais, estão descontentes, estão desanimadas. Não sei. Eu ainda consigo ir, ao fim destes anos todos, ainda consigo ir para a escola com vontade, claro que neste momento estou numa situação mais privilegiada que a maior parte dos meus colegas. Estou no apoio educativo, que é uma coisa completamente diferente. Mas farto-me de trabalhar também! Eu quando comecei a minha carreira, ganhávamos muito mal. E continua-se a ganhar muito mal. Mas eu dizia "eu estou aqui, pagam-me para eu trabalhar. Então vou fazer este trabalho, o melhor que souber e o melhor que puder!". Agora sinto as pessoas muito desanimadas, muito sem vontade. Não investem. Eu acho que as pessoas trabalham muito, mas não trabalham no rumo certo. E depois também há muitos pedidos, muitas solicitações, muitas coisas ao lado, que as pessoas deviam dizer "não". Há muitas coisas que deveriiam dizer "Não!". E desgastam-se com coisas que muitas vezes não são necessárias. E as pessoas às vezes têm que dizer "eu não vou fazer isto porque a minha opção é esta", "eu não vou fazer o trabalho de projecto que me estão a encomendar porque os meus alunos não se enquadram neste neste tipo de encomenda". Agora, trabalho e faço projetos e cumpro o programa e faço isso tudo. Agora, quando é uma encomenda... e os professores também estão muito cansados de encomendas, mas muitas vezes também são-lhes feitas porque se não for por encomenda as pessoas não fazem trabalho de projeto.
Arquivos\1º Ciclo\Filipa
Depois, quando estava em Valença do Minho, foi criado lá o agrupamento vertical. O que eu notei foi uma vontade de partilhar com os colegas do 2º ciclo e os colegas do 2º ciclo estarem mais dentro daquilo que nós dávamos. Portanto, o que eu notei foi a necessidade de partilharmos com o ciclo seguinte aquilo que nós dávamos na sala de aula. E tínhamos várias reuniões de partilha com eles. As reuniões aumentaram, muito. Tínhamos reuniões para tudo e mais alguma coisa. E depois começamos a ver que elas não eram muito produtivas e que não valia a pena termos assim tantas reuniões para tudo e mais alguma coisa. o que eu notei mais não foi na nossa maneira de trabalhar, mas sim numa aproximação com os colegas do 2º ciclo, principalmente.
Arquivos\1º Ciclo\Gabriela
Agora aqui em Trancoso temos um agrupamento, em que todas as escolas estão aqui na cidade, exceto em Vila Franca, porque também é uma vila aqui pertinho que também tem uma turma de cada ano, do primeiro ciclo. E uma outra, a Ribeirinha. Portanto, fora aqui da cidade, temos duas escolas, dois pólos a funcionar, mas com pouca gente, porque a distância ainda era grande para transportarem as crianças. De resto, temos tudo aqui, mas foi muita diferença! Foi uma grande diferença.
Arquivos\1º Ciclo\Gaspar
Agora já não se expõem as pautas. Só o encarregado de educação é que tem acesso às notas dos seus educandos. Nos outros ciclos também só são fixadas na própria escola. Mas vão lá ver, tiram uma foto e depois põem no facebook. (risos)
Arquivos\1º Ciclo\Gisela
Eu acho que o ensino, que ia bem quando eu comecei, eu achava que aprendiam, que os meninos eram felizes na escola, que nós trabalhávamos com eles. Talvez dedicássemos mais tempo a trabalhar com eles diretamente. Agora é muita burocracia. É um faz de conta. Às vezes é projeto para cá, projeto para lá, e vamos tirar mais umas fotografias, vamos pôr mais isto aqui... eu não gosto disso.
Arquivos\1º Ciclo\Inês
O que notei foi muita burocracia, muito papel, muito escrever, muito passar para o papel e, muitas vezes, as coisas, na prática, acabavam por não resultar, e as pessoas aborreciam-se, às vezes, de tanta coisa… antes era tudo mais fácil. Tínhamos mais liberdade para fazer as nossas coisas sem nos estarem impondo. O projeto curricular de turma, o projeto curricular de escola, o projeto curricular de não sei quê… acabávamos por fazer isso em conjunto, em grupo, por necessidade nossa, porque achávamos que era importante trabalhar em grupo, [mais] do que depois quando nos impunham as coisas. Eu preferia antes.
Arquivos\1º Ciclo\Irene
Em 2006 saíram os quadros da Educação Especial. Havia uma grande pressão e o governo acabou por criar os quadros da Educação Especial nas áreas do domínio cognitivo e motora, portanto, que era a parte das crianças e dos jovens com algum défice cognitivo e depois na área da surdez e na área da cegueira. Portanto, há estes três grupos e eu aí tive que tomar a decisão: ou continuava como professora do primeiro ciclo ou tinha que ir para a Educação Especial, para os quadros e, portanto, ingressei na Educação Especial, com formação de base de primeiro ciclo, e experiência. Mas decidi ficar na Educação Especial, onde mantive até agora, até ao fim.
Arquivos\1º Ciclo\Isadora
Tive sempre muita sorte. Nunca tive nenhuma situação assim propriamente desagradável, mesmo com os pais. Antigamente, nos primeiros anos, as passagens de ano eram muito rigorosas. Hoje em dia já não são tanto. Hoje, só em casos muito extremos, digamos assim, é que o aluno fica retido. Alguns pais não aceitavam, mas nada de mais. Gosto menos agora, sinceramente. Eram outros tempos. Era um tempo mais calmo em que tínhamos tempo para ouvir os meninos e para os deixarmos fazer as coisas, os trabalhos com mais calma, ao ritmo deles. Não era "Despacha-te! Anda lá.". Os programas eram mais curtos. Portanto, havia tempo. O que me falta agora é o tempo, realmente. Mesmo para os colegas, mesmo para estarmos uns com os outros. Andamos todos sempre muito agitados, muito apressados. Temos sempre muitas coisas para fazer. Falta-nos esse tempo.
Arquivos\1º Ciclo\Lisboa
Nós propriamente com a pré-primária já tínhamos atividades lúdicas. Não tínhamos outro tipo de atividades, mas eu acho que foi bom, acho que até é de valorizar. Eram atividades diferentes, os da escola também se juntavam com os mais pequeninos, eu não sei… mas penso que foi positivo nesse aspeto. Sabe que quando eu comecei a trabalhar nós tínhamos a delegação escolar. A escola era gerida por ela. Havia a direção escolar a nível de distrito e depois a delegação escolar que era quem seria o conselho e, a partir daí, é que depois passamos para o agrupamento. Eu acho que as coisas depois, não sei, não ficaram tão próximas. Acho que não há aquela proximidade como havia.
Arquivos\1º Ciclo\Mara
Houve algumas mudanças, principalmente a nível de organização e de funcionamento das escolas. A organização das escolas era mais metódica, por exemplo: havia mais pedidos de documentos, que, no início, quando eu comecei a trabalhar, não se via muito isso, fazia-se aquelas reuniões mensais e pouco mais. E aos poucos começou a haver isso. A organização das planificações já seguia muitos métodos, havia muitos métodos. Eu acho que era tudo um pouquinho mais organizado, mas também não posso comparar muito, porque eu acho que entrei nisso, portanto, já estava habituada a esse tipo de registo. Depois em 1989 é que houve ali outra mudança grande, mesmo ao nível da carreira docente. Até aí havia um escalonamento dos professores.
Arquivos\1º Ciclo\Marlene
Eu continuei, mas entretanto... a educação de adultos é uma vertente que tem muito a ver com as políticas educativas. Tudo está relacionado com as políticas educativas, mas o facto de nunca termos tido um ministério, andávamos separados, éramos uma Direção-Geral e acabamos por passar a Secretaria-Geral. Aquilo acabou por os agrupamentos escolares absorverem o chamado ensino recorrente noturno, as unidades capitalizáveis e mais tarde os cursos EFA. Entretanto, foi criado o centro das Novas Oportunidades para validar as competências. Depois, eu já estava na escola, no ensino regular, mas ia fazer a validação de competências até o 12.º ano. Outro desafio. Para ler os portfólios tinha que dominar a cidadania, o português.
Arquivos\1º Ciclo\Mónica
Foi tudo administrativo. Agora, se os professores queriam estar com aqueles ou não, não interessava. E depois outra coisa em relação ao primeiro ciclo. Ninguém pensou que o primeiro ciclo trabalharia de uma forma diferente de outros níveis de ensino. E cada vez se pensa menos, cada vez estamos a copiar mais o modelo de segundo e terceiro ciclo.
Arquivos\1º Ciclo\Morgana
Outros momentos foi esta questão da introdução das tecnologias na educação, sobretudo pela maneira como foi feita e este apelo à criatividade, à liberdade, a diferentes perspetivas, diferentes maneiras de ver, que não precisamos de ver todos da mesma maneira, que podemos fazer percursos diferentes. Não foi um movimento de cima para baixo, mas foi um movimento de baixo para cima. Eu acho que isso foi uma coisa muito interessante e sobretudo quando nós pensamos que as tecnologias têm um grande poder de controlo, mas também podem ser utilizadas de outra maneira. E, portanto, há aqui este paradoxo que eu acho que é que é muito interessante e que marca muito.
Arquivos\1º Ciclo\Nélia
Está a ver há para todos os gostos, mas é tudo mais ou menos dentro da mesma idade. E, neste momento, nós estamos de tal maneira assoberbados com tanta burocracia, tanto papel, tanto descritor, tanto querer medir tudo, que acabamos de alguma forma por não tirar prazer daquilo que realmente é trabalhar com crianças. É aquilo que eu sinto neste momento.
Arquivos\1º Ciclo\Olívia
Nós, lá na escola, somos um corpo que já está lá há alguns anos e já trabalhámos em conjunto há alguns anos. Mas, mesmo assim, é verdade que eu também sinto que não há tanta partilha como havia antigamente. Na minha opinião, acho que se perdeu muito com o alargamento, com os mega agrupamentos, como nós funcionamos agora.
Arquivos\1º Ciclo\Roberta
E o que eu acho é que em relação a isso, nós nessa altura que eu estava a dizer, que foi em 1994, nós tínhamos uma relação muito próxima dos pais e tínhamos eles na escola connosco. E de repente, quando entrámos em agrupamento, a primeira coisa que a direcção fez foi expulsar os pais, não permitir que os pais entrassem na escola. Eles iam buscar os alunos à sala, isto era vulgaríssimo, durante anos isto aconteceu, e a primeira coisa foi proibir os pais de entrarem na escola, portanto, só entravam se fosse haver uma reunião com professores. Em relação à associação de pais, também foi uma entrada muito abrupta, porque eles tinham um espaço dentro da escola. Pronto, era tudo de boca, mas tinham um espaço que nós lhes dávamos, que nós cedíamos para eles desenvolverem atividades e tiraram-lhes esse espaço, enfim, foi assim afastarmo-nos dos pais! É sermos forçadas a afastarmo-nos dos pais. E depois, claro que houve a revanche, os pais ficaram descontentes. Neste momento, até há bem pouco tempo, a relação com os pais era conflituosa na minha escola, uma coisa que nunca foi. E neste momento, estamos outra vez, felizmente, a recuperar os pais e a ter uma ligação mais chegada e mais ativa com eles, o que me agrada muito, porque é assim que eu vejo a escola.
Arquivos\1º Ciclo\Zacarias
Isso sem dúvida! Nesse aspeto hoje em dia já há pouco disso. Foi o que eu disse há bocadinho, o professor naquela altura, era bem visto em todo o lado, e mesmo pela comunidade que não tinha miúdos na escola. Era respeitado, era acarinhado. Agora, esta transição também para os agrupamentos também veio complicar muito as coisas. Há muitos miúdos que vêm das aldeias com três anos e são enfiados aqui, são tirados do ambiente deles, isso também alterou um bocado o comportamento dos miúdos, mas até mais dos pais. Ficou muito diferente.
Arquivos\2º Ciclo\Adelina
Houve uma altura em que só trabalhei com EFAs e CEFs, uns anos. Depois de estar na gestão, saí e juntamente com alguns colegas que estavam na gestão da escola, propusemo-nos a abrir cursos de Educação e Formação para Adultos e Educação e Formação para Jovens. Aconteceu durante uns anos, em que só trabalhei com estes públicos. Perafita tem um público de nível social muito baixo e houve uma altura em que a escola pensou em fazer uma coisa - que se me mandassem eu não faria, mas não mandaram! - fez turmas de nível. Portanto, turmas de alunos que tinham um conhecimento melhor, portanto, os meninos que vinham da escola primária com melhor formação - e os outros. Eu não concordava que se fizesse isso, mas fez-se! Então, como eu não concordava e era professora da escola, eu tinha que ficar com a distribuição de serviço que me deram e realmente deram-me uma turma de alunos com fraco aproveitamento escolar. Depois, no outro ano tive os outros meninos, com um conhecimento um bocadinho melhor. Como digo, eu fiz o trabalho... o melhor que sabia, mesmo não concordando, é evidente. Mas o resultado não veio para ficar, porque nos dois anos em que se fez essa experiência, nos anos seguintes deixamos de fazer porque isso não resultou. Até porque, pronto, eu acho que isso era quase excluir, um grupo para um lado e outro para o outro. Minha nossa! Olhe, até os próprios alunos daquela turma, que eram considerados os meninos com melhores conhecimentos, até eles não gostaram da diferenciação da turma. Os próprios pais, alguns deles também não acharam grande piada a essa experiência e realmente não resultou de todo. A minha experiência, até com os últimos meninos, com os meninos com maiores dificuldades, foi muito penosa para mim, porque nós não tínhamos um trabalho daqueles [que] tinha de ser feito de uma forma muito estruturada. Não podia se enfiar ali uma turma de quase 20 alunos que têm problemas sociais gravíssimos em suas casas, que não gostam da escola porque não gostam, porque têm fome, porque são maltratados em casa. Portanto, esse aspecto para mim foi muito negativo. Isto foi, realmente, já na parte final da minha carreira. Realmente foi muito, muito negativo. Um aspecto negativo mesmo. Quer dizer não sei quem, foi uma decisão do Conselho Pedagógico com certeza, mas foi uma experiência muito mázinha. Depois, é evidente que a escola teve sempre muitas preocupações com os alunos e com a forma de os acompanhar e de fazer com que eles fizessem da escola um lugar que eles gostassem - e fez-se. Aliás, penso que ainda se faz uns clubes interessantes. Havia um clube de música, havia um professor de Música muito dedicado, em que os miúdos faziam um bom trabalho, assim como outros ateliers de pintura. Lembro-me desse clube da pintura, da música... Na disciplina de Matemática, sim, conseguiu-se fazer também umas coisas interessantes, mas não era aquilo que mais lhes agradava - é uma verdade (risos). Também precisávamos de recursos e não tínhamos. Mas na escola fez-se um bom trabalho nesse sentido, sim fez-se. E penso que há transformações, o que são é pequeninas! Acho que é preciso fazer mais. Eu estou a dizer isto porque se nós recuarmos um pouquinho, 20 e poucos anos, às vezes converso com colegas que são mais ou menos da minha altura e umas que foram saindo mais tarde - porque saíram mais novas... realmente, alterações significativas não se vê. Não há grandes alterações. Os miúdos, a partir do nono ano de escolaridade, não prosseguem estudos. É difícil. As meninas engravidam muito cedo. Continua a haver... pelo que ainda me apercebo, porque, às vezes, até vou ao supermercado lá próximo e encontro miúdos e essas questões ainda continuam, não há grandes melhorias.
Arquivos\2º Ciclo\Alda
Foi acontecendo gradualmente, lentamente. Nós começamos a ter essa sensação quando nos começaram a meter muita burocracia - eu agora não sei situar os anos. Quando começámos a passar quase mais tempo a fazer os PIT e essas coisas assim, depois a fazer por objetivos e depois por competências - ou ao contrário já nem sei. Trocavam-nos as voltas e começámos, portanto, naturalmente, a descurar o outro aspecto. Foi uma pena.
Arquivos\2º Ciclo\Aldina
Em termos burocráticos, há muito mais grelhas, muito mais informações para dar. E estou a falar isto antes do COVID, porque depois do COVID eu fui directora de turma um ano e, pronto, isso é outra fase. Portanto, ao longo destes anos foi sempre aumentando em termos de informação para dar, informação de subidas, descidas, de aprendizagem, informação dos pais, informação de abandono escolar, informação de absentismo, todas as informações que é preciso dar. Dar informação que nós recolhemos, dados da aprendizagem e das famílias que é preciso passar para a direção e depois a direção, imagino que passará para o ministério.
Arquivos\2º Ciclo\Carlos
A mudança nas questões organizacionais de executivo para diretor, depois a formação dos agrupamentos de escolas. Nesta reorganização até foi interessante ter os professores do 1.º CEB e os educadores de infância tão próximos. A princípio foi complicado, mas esta reorganização acompanhada das tecnologias foi uma grande aprendizagem.
Arquivos\2º Ciclo\Constança
Acho que nós perdemos algumas coisas e perdemos alguma identidade, ganhamos outras, ganhamos alguma articulação, mas também já fazíamos com as escolas ali à volta. Mas perdemos muito e, portanto, nesse percurso eu fui apanhada para constituir o agrupamento de escolas com as escolas de primeiro ciclo e o pré escolar, que foi uma coisa de loucos, fazer o regulamento interno novo com aquelas escolas, e elas estavam muito sobre si, foi desbravar terreno, não nos aceitavam muito bem. Foi um desgaste muito grande e depois eu, no ano seguinte, disse que não aceitava e que me vinha embora e então o ministério indigitou-me! Obrigou-me a ficar. Então eu ao fim deste ano, saí. Saí porque achei [que] eu tinha que estar de alma e coração em uma coisa que eu acredito. E eu não estava a acreditar naquele projecto, que acho que não era o melhor.
Arquivos\2º Ciclo\Esmeralda
Portanto, tornou-se muito penoso, para além da burocracia, o peso da burocracia, não é? Cada vez mais temos, através dos e-mails que nos entopem, documentos para apreciar sobre os quais temos que formular opiniões, que têm que depois ser sujeitos à reunião do departamento, depois têm que ser encaminhados para o conselho pedagógico do qual eu faço parte, ou seja, eu não gosto desta parte, você já reparou pelo meu tom de voz. Porque retira-me tempo para aquilo que eu acho que é mais fundamental, por exemplo, para a parte criativa?
Arquivos\2º Ciclo\Fernanda
Na era da pandemia foi absolutamente horrível para mim e horrível para os alunos… Foi muito difícil porque esta barreira é transponível, mas não é ideal.
Arquivos\2º Ciclo\Glória
Portanto, em 1976 saiu a normalização, que foi muito bom, desde 1974 a 1976 nós andamos por aí à deriva, mais ou menos. Mas também não admira porque as revoluções têm destas coisas. Saiu o decreto-lei que já não me lembro o número, também não interessa, em 1976, que foi realmente a normalização do ensino e a preparação para o estatuto da carreira docente e essas coisas todas. E com a normalização, depois foram estabelecidas as direções das escolas, que não se chamava executiva, era mesmo o conselho diretivo, o conselho pedagógico. E começou realmente a escassear o número de professores que quisessem ir para as direções, ninguém estava para isso, só malucos. E então lá vinham as inspetoras ralhar connosco, RGA, inspetoras de Lisboa… a inspetora de Lisboa fazia - oh meu Deus! -, fazia reuniões de professores, faziam-se as eleições, e depois era eleito um qualquer. E as eleições naquele tempo, pelo menos na minha escola, nas outras não sei – mas devia ser a mesma rebaldaria – nas eleições juntava-se o pessoal todo no ginásio, vinha a senhora inspectora, ainda por cima era de Lisboa, vinha a senhora inspetora “então vamos lá ver, reúnam-se um bocadinho para ver se arranjamos aí, e tal”. E o pessoal se reunia, mas estava bem abelha! “Pronto, então vamos para eleição” e a gente votava num papelinho e tal, e punhamos o nome do fulano que queríamos tramar [risos], nem queira saber! Era um regabofe! Pronto, depois havia os brancos, depois havia os nulos e depois elegiam-se à viva força duas ou três pessoas que depois tinham que arranjar uma equipa. É claro que não aguentavam mais do que um ano letivo, seis meses, e pumba! Caía o conselho diretivo. Volta outra vez à mesma cena.
Arquivos\2º Ciclo\Iva
O ensino obrigatório deixou de ser o 4.º ano de escolaridade e passou a ser o 6.º ano de escolaridade. Abriu a carreira para entrarem os professores todos para o 2.º ciclo [do ensino básico]. Eu entrei nessa vaga. A seguir, uns anos depois, abriu para o 3.º ciclo [do ensino básico]. Eu tenho inclusive pós-graduação. Tenho licenciatura e tenho pós-graduação. Não é por falta de habilitação, foi por inerência do tempo. O ensino obrigatório era o 2.º ciclo, logo era aí que eles investiram na abertura de lugares, portanto, aí eu entrei.
Arquivos\2º Ciclo\Joca
Agora, nenhum docente pode ser diretor de uma escola sem ter formação na área de administração escolar. E deu-se uma modificação enorme - na altura em que eu estava na gestão - em todo o ensino em Portugal, foi a criação das Escolas C+S, isso é, as escolas preparatórias, como a de O., era uma escola preparatória, só tinha turmas do quinto e do sexto ano, passaram a ter turmas até ao nono ano e houve toda uma adaptação, porque os professores, no fundo, eram os mesmos. Os professores não estavam habituados a dar aulas a alunos mais velhos, foram poucos os que vieram de fora. Portanto, houve todo um processo de adaptação, que não foi fácil, mas que foi conseguido, eu acho e, pronto, as coisas agora já não funcionam assim.
Arquivos\2º Ciclo\Maria Luís
Aí a escola para mim deixou de ser o encanto. Ensinar era aquilo que eu queria e era aquilo que eu não podia fazer praticamente. Começou a surgir um número de papelada, de relatórios, de papéis, de diretora de turma. Davam-me, às vezes, duas direções de turma. Ah, porque tu tens perfil para isto. Eu tenho perfil, mas estou cansada disto. Eu estou cansada e a direção de turma era uma burocracia.
Arquivos\2º Ciclo\Orlanda
Mesmo quando houve uma altura em que houve transferências de pessoal não-docente para a autarquia, eles ficaram dependentes dela. A Câmara deu-nos liberdade de gestão para tudo pessoal: “Nós apenas somos pagadores, quem gere são vocês nas escolas”. E nós geríamos, coisa que não acontece em muitos sítios, em muitos concelhos. E continua assim agora. Também, agora, houve a transferência de competências, mais alargada. E penso que as coisas vão continuar a funcionar, a funcionar bem.
Arquivos\2º Ciclo\Quitéria
Houve muitas mudanças com os novos segmentos de avaliação das crianças, o ensino inclusivo, as crianças com necessidades educativas especiais e realmente temos uma tonelada de papel. Passamos mais tempo em volta do papel do que das crianças. A escola neste momento, para mim, não responde. Não corresponde ao que deve ser uma escola, onde está um conjunto de professores, estão ali para ajudar um grupo de alunos e não para... temos de fazer uma atividade tão gira que vamos ao sábado para a escola e fazemos ali um grande fogo de artifício, corre lindamente, mas os miúdos não aprenderam nada. Nós fazemos o relatório, fazemos projetos e relatórios... É a quantidade de papelada que se tem de preencher por causa de qualquer criança que apresente um mínimo de dificuldades de aprendizagem. É uma coisa inacreditável. E acho que o tempo que estamos a perder para preencher papelada, se tivéssemos a fazer materiais que motivassem o miúdo, tivéssemos possibilidades de adequar a nossa prática de ensino àquela criança, não temos tempo.
Arquivos\2º Ciclo\Rosário
Depois concorri a efetiva, fui colocada em Marrazes. Não, fui colocada na Batalha, mas nunca fui para lá porque, entretanto, houve um projeto, um projeto piloto, em que a nossa escola foi uma das escolhidas, em que estive a dar o quinto ano experimental. Foi um ano muito bom, em que uma pessoa aprendeu muito. Era um projeto piloto em que uma pessoa tinha muitas reuniões e tínhamos muita documentação que mandava. E então foi um ano – olhe, a G. também esteve nesse, a G. esteve. Eu dava Ciências do Ambiente, ela acho que dava Inglês ou Português, não sei. E acho que foi um ano muito rico, e em que eu aprendi muito. E também o contacto com colegas diferentes é muito bom. E também dar aulas a alunos mais velhos, que eram alunos que já tinham 16, 17, 15… correspondente ao nono de agora. Foi um ano muito rico: fazíamos várias viagens, tínhamos muitas reuniões de coordenação… eu acho que foi um ano muito bom. Depois acabou, não sei porquê.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Amadeu
Estou-me a lembrar que, na altura, tínhamos duas vezes, 50 minutos, que era uma corrida, digamos, contra o tempo. As condições também de trabalho não eram nem de perto, nem de longe, das que são agora. Eu penso que o grande marco de perda, digamos assim, foi a mudança da gestão escolar. Porque antigamente, nessa fase, na escola, tudo era feito de baixo para cima. Ou seja, o coordenador, na altura o delegado disciplinar, era eleito pelo grupo, portanto, tudo ia de baixo para cima. Nós sentíamos que as coisas... Havia a tal representatividade, que nós tínhamos uma voz ativa nas coisas. Penso que a mudança do sistema de gestão da escola virou tudo ao contrário. Ou seja, as coisas passaram a ser ao contrário, de cima para baixo.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Amália
Na escola vejo, se calhar, nos últimos tempos, muita burocracia a mais. Muita burocracia a mais. Porque é preciso alguma, eu acho, mas muita burocracia a mais.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Amélio
Não. Porque nós permanecemos na minha escola e eu até nem via na integração grandes vantagens. Não via vantagem. Não via porque as escolas continuavam a ser as mesma, pois o agrupamento era uma falsa reunião de escolas e elas só tinham a vantagem para o Ministério da Educação, que tinha menos funcionários porque deixava de tê-los nas secretarias de cada uma das escolas, passava a ter uma só secretaria e poupava. Poupava dinheiro com isso. Mas, de resto, o intercâmbio entre as escolas não era nenhum. Ora, se eles passassem a ter representantes no Conselho Pedagógico, digo eles, os coordenadores.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Aurora
Em termos de evolução do ensino, acho que evoluiu positivamente, em termos do ensino propriamente - a democratização. Quando começaram a exigir muitos papéis, achei que deu cabo do ensino. Eu era coordenadora dos diretores de turma e era assim: “Aurora, não te dou mais papel nenhum, estou farta de papéis!”, às vezes, era o mesmo papel três vezes. Eu achei que isso era um desperdício. Uma vez que está no computador – já se fazia tudo no computador – passava-se para uma pen, não havia necessidade, era tanta coisa, tanta coisa que era um disparate. A papelada foi horrível. Não concordei. Ainda hoje acho que é assim. Eu não acho piada. Acho que se perde muito tempo com isso e as secretarias foram muito aliviadas, demasiado aliviadas. Havia coisas que eles faziam e que eu acho que devíamos ser nós a fazer, mas outras coisas não. Lançamento das faltas e não sei que mais, eles iam ao livro de ponto e tiravam, quer dizer. Não concordo! Portanto, essa burocracia toda atrapalhou um bocado. Outra coisa foi a liberdade, entre aspas, que se deu aos alunos no sentido de eles não poderem ser castigados, nem admoestados, só em casos muito difíceis. Eu nunca tive problemas de comportamento. Eu dava-lhes a volta e pronto, mas alguns reconhecia que eram difíceis, se havia um professor com menos pulso eu acreditava que eles abusassem. Mas era assim, marcava-se uma falta disciplinar, era tanto papel, tanta burocracia que tinha que se preencher que a maior parte dos colegas não fazia, percebe? Depois, eles abusavam. Aquilo não dava em nada e eles podiam fazer como quisessem. Isso acho que foi uma parte negativa - foi e ainda é.
Arquivos\3º CIclo e Secundário\Camila
Tenho a impressão que, do ponto de vista dos alunos não afetou grandemente, embora tenha a impressão que quando ficou obrigatório, quando houve mudança no 12.º ano, houve uma mudança grande de carga horária para os alunos, porque eles nos primeiros anos tinham três disciplinas, que eram as disciplinas nucleares, digamos, e depois passaram a ter cinco disciplinas, como no 11.º ano. Mas o que eu acho que mudou mais foi precisamente a partir do momento em que, com a mudança de direção das escolas, se começou a burocratizar mais a tarefa do professor. E eu acho que isso desmotivou imensa gente. No ano em que eu me reformei, reformaram-se comigo mais seis ou sete colegas minhas. Também ainda sem a idade para atingirem a idade da reforma, mas porque estavam saturadas.
Arquivos\3º CIclo e Secundário\Célia
Nem foi um concurso, as pessoas apresentavam cartas. Era assim que funcionava, mas já tinha havido um concurso. Podia haver falta de professores naquelas escolas e, então, para se completarem os horários, funcionava assim.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\César
O chefe de pessoal já tinha experiência. A chefe da secretaria foi-se buscar a uma escola em Viseu. Depois, abriu-se concurso neste ano e as pessoas foram para lá pela primeira vez. A escola só abriu já em finais de outubro deste ano. Era tudo novo, realmente um edifício novo, material novo e foi aliciante por isso. Houve funcionários - ainda hoje - que nos dizem: "Aprendi consigo.". Ensinamos a ler a legislação, a interpretar a lei. Eram pessoas com o 11.º ano ou 12.º ano [de escolaridade] e que não tinham aquela experiência. Foi interessante. Depois há uma coisa que eu sempre fiz, até hoje [faço]. Eu não faço mais do que dois mandatos. Outra coisa que também me aliciou, além de ser uma EBI, é que era uma experiência nova, tinha mudado o decreto da gestão, passou dos conselhos diretivos para os Conselhos Executivos, portanto, com mais alguma margem de autonomia, pelo menos teórica. Um funcionamento um bocadinho diferente. Aí os mandatos eram de três anos. Eu estive seis anos, dois mandatos, entre 1998 e 2004.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Clorinda
Isto era mesmo o que nós sentíamos e brincávamos um bocado. Claro que nós mantínhamos uma cerimónia, mas não era suficiente. Depois, as grandes reuniões de professores eram feitas no salão nobre, com uma mesa enorme onde era eleito - mantiveram isso - com uma pessoa para fazer a ata - era escolhida dentro da assembleia - e depois aquelas reuniões eram absolutamente.... Eu não estava habituada àquilo. Nas escolas anteriores já tinha havido muita vivência política, mas não aquele aparato. Gente a falar muito bem, com intervenções absolutamente soberbas, mas combativas. Havia combates quase pessoais. Foi muito importante para mim. E depois tenho que dizer uma coisa. Gostei bastante, gostei muito mesmo. Eu não me evidenciei muito, talvez um pouco. No fim, fui convidada por elementos da direção para a nova lista, para ficar lá, mas eu disse-lhes que não. Eu já vinha de uma vida e estava a ser tudo muito, muito denso e eu queria ir abrir horizontes para outro sítio e queria diminuir um bocadinho a carga, de maneira que não fiquei.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Joana
De facto, os professores que são diretores de turma andam sempre estoirados e desgastados, [o que] muitas vezes, impediu ou fez com que essas reuniões setoriais de troca fossem muito mais - não direi superficiais - rápidas, muito mais rápidas. O gosto da troca e de estar ali não era tão evidente. Às vezes, era mais evidente o gosto de estarmos ali só por estarmos. De facto, esta sobrecarga de trabalho de papelada... apesar de a existência do computador, das redes sociais, da internet, a electrónica não veio nem poupar papel, muito menos veio poupar o trabalho do papel, pelo contrário.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Lara
E então, recordo-me perfeitamente: havia o cumprimento do horário na escola, havia depois o tempo para preparar as aulas e os materiais e era rara, mas muito rara a noite que não houvesse tempo para nós nos encontrarmos no café, estarmos um bocadinho... e isso desapareceu completamente. Não havia o estresse, nem a angústia de ter que ser para ontem; as coisas eram todas afixadas em placard, com papel; havia a tal 48 horas de antecedência, não sei quantos; os fins de semana eram tranquilos, porque ninguém nos enviava nada. E nós sabíamos. Portanto, era uma vida muito programada, mas nós sabíamos aquilo que tínhamos que fazer, à distância no tempo.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Maia
Eu passei-me e chateei-o lá, depois da reunião, depois do intervalo disse: “Não, desculpe lá, não pode ser, não tem sentido, não tem critério, não faz sentido”. E ele dizia, com razão, porque a nossa escola era do sétimo ao décimo segundo: “Faz falta aqui uma escola do 2º Ciclo”. E temos aí uma escola do 1º Ciclo despernada, que era a L., que era lá muito perto da escola. Eu pensei “Caramba!”, e disse-lhe: “Olhe, deixe-me ir para a DREN ajudar a fazer a Rede Escolar. Provavelmente nós conseguimos ficar com o Secundário, e eu teria todo o prazer de fazer uma escola da Primária, e só tenho pena de não conseguir fazer da Pré-primária, mas da Primária, dos 6 aos…”. Eu era contra os Agrupamentos. Tenho várias cartas abertas a Ministros, uma delas é ao Nuno Crato sobre os Agrupamentos, a dar-lhe para trás, mas este era um Agrupamento diferente, porque só tinha uma escola do 1º Ciclo, e o 2º Ciclo ia funcionar na nossa escola. Portanto, no fundo era como eu estudei, era no mesmo edifício, por acaso aqui era um edifício ali pertinho, dos 6 aos 17 [anos de idade]. E acabava uma coisa que me irritava imenso nos Conselhos Pedagógicos que era quando eu tentava que as pessoas me justificassem os péssimos resultados de alguns anos, de virem sempre com a falta de bases. Eu disse: “Meus amores, acabou a falta de bases, porque se há falta de bases, a culpa é nossa. Se a culpa é nossa, vamos ver o que é que estamos a fazer mal. Não há outra hipótese”.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Maria
Havia o tempo das opções. Os alunos que queriam ir para área do desporto já no nono ano podiam escolher várias e podiam fazer essas opções. E até essas turmas eram desafiantes porque estavam lá, e depois, também no secundário, também podiam optar. Agora penso que já não é nada disso. É só uma época em que era assim, de facto. Agora já não é nada disso… É assim, a educação física era o parente pobre... e, de facto, era preciso investir nela e não se investiu durante muito tempo. Depois chegou-se à conclusão de que a educação física era importante para a formação geral do aluno e então começou a postar-se.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Matilde
Não, não. Eu sei o que quer dizer mas não é do meu tempo. Não sei, francamente, acho um bocadinho estranho. Se calhar tinha uma razão, mas eu nunca percebi qual era a vantagem disso. Nunca percebi a vantagem dessa mudança. Já não é do meu tempo.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Rómulo
E foi assim praticamente até 2000, só depois é que as turmas começaram a diminuir. Agora, claro que havia escolas que tinham mais alunos ou menos alunos. Uma escola central tem sempre muitos alunos.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Tita
Eu não notei nada de diferença porque a minha escola nunca foi agrupamento. Eu nunca estive… nunca estivemos ligadas a escolas do primeiro ciclo, a jardins de infância e ao segundo ciclo. Eu senti essa falta, porque, por exemplo, eu fiz alguns projetos extracurriculares. Coordenava um eco clube. Depois, um clube de Ciências. Depois, era membro da Eco Escolas, ia muitas vezes buscar os meninos do primeiro ciclo para a minha escola. Por exemplo, fizemos um eco desfile, em que aquilo houve de tudo, professores a desfilar, não foi assim qualquer coisa, tínhamos júri, tínhamos tudo, e vieram meninos, também do primeiro ciclo - até a noiva tivemos no final, feito com materiais recicláveis. A grande, digamos, a grande mão-de-obra, entre aspas, a gente vai buscar aos pequeninos, porque os grandes já não alinham muito. Nessa altura, ainda alinhavam, mas não tenho essa experiência, realmente não tenho.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Violeta
A constituição dos agrupamentos, na nossa escola, acabou por não ter impacto nenhum, porque, eu não sei como, o Presidente do Conselho Diretivo que lá estava conseguiu sempre que a nossa escola nunca se agrupasse com ninguém. A nossa escola foi sempre uma escola individual. Éramos uma escola secundária, que, à partida, deveria agrupar com a Escola Básica SR, porque nós recebíamos a maior parte dos alunos que vinham de lá. E a Escola Básica SR está agrupada com as Básicas todas lá da área. Mas eu não sei como é que ele conseguiu aquilo. Mas sei que a nossa escola nunca se agrupou com ninguém.
Arquivos\Pré_Escolar\Adelaide
Sim. É evidente que a escolha não está em mim. Agora os diretores de agrupamentos podem achar que uma pessoa pode sair daquele lugar e ir para outro jardim do agrupamento...
Entrevistadora: Pois, sim. Entretanto, apanhou esta alteração para os agrupamentos... sentiu algum impacto?
Adelaide: Por um lado sim, acho que sim. A visibilidade de uma escolaridade, como é que haverei de dizer... ao longo de uma vida contínua é muito mais evidente, há muita mais cooperação entre as pessoas. Sim. Por outro lado, quando eram só os jardins de infância, uma pessoa tinha mais autonomia. Agora nota-se, mesmo em termos de documentos, que estamos a dar muito mais valor àquilo que é a educação pré-escolar. Na altura, estávamos a seguir o exemplo dos outros ciclos. Havia documentos que, para nós, nem fazia sentido, mas que tinha que se adaptar, também tínhamos que os fazer. E foi esta coisa dos papéis, papéis, papéis, papéis para tudo e para nada, que alguns têm toda a lógica, mas outros acho que não - acho excessivo.
Arquivos\Pré_Escolar\Alexandra
Sim, passado um ano, dois anos, chegaram os agrupamentos, mas eu ainda cheguei a trabalhar com as delegações escolares, trabalhei ainda muitos anos com a delegação escolar.
Arquivos\Pré_Escolar\Arminda
Ficamos no agrupamento vertical de escolas, éramos um dos sete da zona centro. Nós andávamos sempre em reuniões para aqui e ali. Lembro-me... se as coisas tinham a ver comigo, ia eu e o presidente, ou seja, foi assim de repente... levo uma lufada de formação, de informação, de conhecimento que durou até... praticamente ao ano... quase até ao ano 2010, foi quando criaram os mega agrupamentos…
Arquivos\Pré_Escolar\Gina
Centros de área educativa. Havia também no Norte, no Centro e no Algarve, salvo erro, portanto chamado de CAEs. E então trabalhei aí, convidada pela diretora regional, uma vez que eu tinha muita experiência de terreno e eles queriam pessoas a trabalhar nestes sítios que tivessem [essa] experiência, que não estivessem longe do terreno, para poderem trabalhar com as pessoas e dinamizar coisas e estarem cientes das problemáticas do terreno. E tive aí uns bons anos, estive ainda bastante tempo aqui em Évora. Depois, os CAEs terminaram e nós passámos todos para as direcções regionais. E eu aí na direção regional, mesmo no núcleo Direcção Regional, já tínhamos muito pouca autonomia. Era mais um trabalho muito administrativo e tínhamos que escolher: ou continuávamos na profissão docente ou íamos para a carreira técnica. E eu escolhi a docência e saí.
Arquivos\Pré_Escolar\Gracinda
Porque eu estava numa aldeia e não senti muito a diferença. O que eu senti a diferença foi mais nas questões pedagógicas, de prática. Por exemplo, lembro-me que tínhamos que ir à sede do agrupamento buscar materiais. Quando antes a verba vinha diretamente para nós. Por isso, foi mais nessas questões logísticas, propriamente, do que pedagógicas. Não senti grande diferença. No ano em que vim para o G., já era um agrupamento. E quando vim, como o jardim de infância é dentro da escola - onde está o primeiro, o segundo e o terceiro ciclo - o que eu senti quando passou para agrupamento vertical - estava eu na direção até - o que eu senti foi uma maior integração da educação pré-escolar, nomeadamente dos profissionais de educação de infância, quando os educadores passaram a estar presentes também nas reuniões gerais. Nós não tínhamos esse tipo de coisas. Claro que tinha reunião, já nem me lembro como é que aquilo se chamava, em que nós uma vez por mês, obrigatoriamente no final do nosso horário letivo, nos juntávamos por concelho e fazíamos uma reunião, onde a gente falava tudo, desde as coisas do sindicato, porque eu era delegada sindical e transmitia as informações, onde a gente falava, fazíamos algumas planificações já em conjunto. Em alguns sítios as coisas funcionavam de uma maneira um bocadinho diferente. O passar para agrupamento vertical deu-nos, a nós educadores, a possibilidade de também estar presente nessas reuniões e de darmos e sensibilizarmos os colegas para a Educação pré-escolar. Eu acho que havia por parte dos professores, especialmente dos professores do segundo e terceiro ciclo, um desconhecimento muito grande do que era o pré-escolar. E permitiu uma maior proximidade entre o jardim de infância e a escola do primeiro ciclo. E, no nosso caso aqui, o facto de trabalharmos dentro do mesmo edifício mudou muito. Quebrou esse isolamento que os professores estavam. Aquele sentir-se isolado, parece que nós estávamos aqui sozinhos, era um trabalho muito fechado, mas abriu as portas. Isso foi uma vantagem! Em relação ao pré-escolar houve um fator muito negativo que foi uma tentativa de escolarizá-lo.
Arquivos\Pré_Escolar\Guiomar
Se não houvesse mudanças na reforma, eu tinha me reformado aos 54 anos, não sei quantos anos de serviço eram precisos na altura, mas seria aos 54 anos. Depois fizeram a primeira reforma e nessa houve um degradê de anos, saiu mesmo umas colunas com os anos e a idade que lhes correspondia, eu ficava a sair aos 59 anos. Mas isso, quando eu me aproximo, durou um ano ou dois ou três, tornou a cair tudo. Eu disse "bolas quando eu já estou quase, torna a desaparecer tudo", era quase sempre por meio ano, quando eu estava chegando lá... E já foi, depois saiu uma alínea em 2015, e eu ainda tentei porque tinha uma alínea que as pessoas que tivessem 58 anos e meio de idade e trinta e três e meio de serviço podiam pedir a reforma. Portanto, quem tivesse até o fim do ano, em dezembro, 58 anos e meio de idade e 33 e meio de serviço podiam ter a reforma. Ora eu tratei de meter os papéis, porque eu não tinha ainda os 33 e meio, faltava-me... porque ninguém tem meio quando se começa a trabalhar em setembro ninguém tem meio em dezembro, faltam dois meses. A gente começa a trabalhar em setembro, tira o curso em julho, acaba, recebe o diploma, fica-se de férias depois começa a trabalhar.
Arquivos\Pré_Escolar\Maria Tiago
Depois surgiram os agrupamentos. Hoje, a maioria da rede pública, estão integradas nos agrupamentos de educação pré-escolar, primeiro ciclo, etc. Essa institucionalização burocratizou a profissão. E, portanto, retirou-lhe toda... deu-lhe uma suposta... não é suposta, deu a ideia de que os educadores são docentes. Nesse aspeto valorizou imenso. São docentes, estão integrados. Mas depois também o trabalho que é preciso fazer nos agrupamentos para que entendam alguma especificidade da educação pré-escolar, diferenciando dos outros [níveis de ensino], tem sido muito difícil. Primeiro, porque não atribuem a verdadeira importância à educação pré-escolar. "Ah, elas não têm instrumentos de avaliação". Então a nossa luta tem sido muito no sentido de nós termos processos de avaliação. Nós temos uma avaliação diferente. Esta institucionalização contribuiu para retirar o caráter instituinte. Portanto, está tudo feito. Eu agora cheguei, e eu até me dá vontade de rir. Eu digo: "Deixem-me rir porque eu tenho 65 anos.". "Então tens que fazer o papel assim. O papel passado." Eu não tenho nada contra os papéis. Alguém tem que orientar a vida. Uma organização é uma organização, mas nós estamos muito preocupados com os níveis de burocratização da profissão. E as reuniões já não existem. Quer dizer, existe uma reunião por mês, porque é assim que está no regimento. "Mas eu posso me reunir com vocês para discutir aqui situações das minhas crianças? Porque tenho duas ucranianas, quatro brasileiras chegaram agora, uma francesa e estou aqui um bocado aflita.". Então já não se discute tanto pedagogia. Estamos mais fortes na organização. Eu acho que as educadoras até têm uma ilusão de maior reconhecimento. Mas estamos mais pobres, quanto a mim, em processos de autonomia profissional. Eu agora faço uma reunião porque eu quero pensar sobre isto então tenho que ir ao chefe para fazer reunião. Porque eu sei quando é que devo fazer recreio. No outro dia zanguei-me muito. O recreio e as rotinas são pedagógicas, não são organizacionais. Ninguém me diz que eu não posso estar com os meninos do primeiro ciclo lá fora. [Eu ouço] "mas os meninos do primeiro ciclo depois fazem coisas...". Quando se criou o pré-escolar com o primeiro ciclo foi exactamente para as crianças começarem a ter esses encontros. Em termos de acolhimento - porque me perguntou sobre isso - neste momento há um êxodo dos privados. Há muita gente a sair.
Arquivos\Pré_Escolar\Mariana
Em 79, saíram os estatutos do jardim de infância, onde os estatutos tinham os objetivos da educação pré-escolar, tinham também o cargo. Eu fui sempre diretora, nós pertencíamos às delegações escolares, mas cada estabelecimento de ensino tinha uma diretora, fui sempre diretora de mim própria. Eu era a diretora, mas tínhamos o órgão consultivo, que era a diretora, a educadora, eu era tudo, diretora e educadora, auxiliar da ação educativa, quando existia, e dois representantes dos pais. Porque, entretanto, eles contribuíam mensalmente com uma pequena verba e essa verba junto com o que o ministério também dava, conseguimos equipar os jardins de infância com o necessário. Mas tudo isto era decidido em Conselho Consultivo.
Arquivos\Pré_Escolar\Nena
O David Justino, quando ele nos mudou o calendário escolar. Fiquei-lhe com muito pó (risos) e ainda hoje não me esqueço. É sério. Porque foi buscar uma lei de 79. Acho que foi uma coisa tão, enfim, nem tenho qualificação. Como é que uma pessoa consegue ir..
Arquivos\Pré_Escolar\Noel
A dada altura fiz um trabalho sobre criar e educar em Santo Amaro, que entrevistei quatro grupos de pessoas com relação ascendência/descendência, portanto com vários níveis genealógicos, para saber o que é que passava de uma geração para outra. Das práticas educativas e tal. E o que é que acontece? Isto parece um paradoxo: quando há maior ruptura é com o alargamento da escolaridade obrigatória, porque o ensino primário era dado na aldeia. Mas depois, o ciclo preparatório era dado na sede da vila. Na sede do concelho, que era a vila. E então, o que é que acontece? As crianças iam logo de manhã muito cedo para a vila, no transporte da câmara, e chegavam muito tarde e depois ainda com trabalhos de casa e coisas para estudar. Portanto, o “serão” - que era um espaço de sociabilidade e de transmissão de conhecimento, porque era de facto - deixou de passar de uma geração para outra. E aí é que é a maior ruptura nas práticas. Porque, muitas vezes, não há bom senso e muitas vezes os professores também estão preocupados com a sua disciplina e nem têm em conta a vida das crianças.
Arquivos\Pré_Escolar\Olga
Eram já uma versão a seguir a uns Amstrad que funcionavam com uma disquete de duas polegadas, de cartão. Eram os a seguir. Eu ainda trabalhei com esses. Era no fundo trabalhar e fazer formação com as educadoras e perceber o que era o MSDos. Havia uma tartaruga que seguia comandos para a direita, para a esquerda e nós tínhamos essa tartaruga e fazíamos mirambulâncias com a tartaruga. No fundo, era a lateralidade. E era a criança a aprender a dar ordens, a planificar as ordens que dava. Estava lá muita coisa do desenvolvimento. E ainda fizemos ateliers com todas as coisas que haviam. Lembro-me que num desses fizemos uma semana em que os meninos vinham a uma sala da ESE e tínhamos desde o retroprojetor a fazer as sombras e os jogos... portanto o que havia de maquinaria naquela altura, de trabalho com slides, construir slides feitos por eles, o que havia de som, de música... trabalhávamos estas coisas e depois era a questão da introdução do computador no contexto educativo. Todas essas questões filosóficas e pedagógicas que agora que a gente olha para trás e acha uma coisa completamente pré-histórica. Mas participei muito ativamente nesse início e ontem até estava a dar uma vista de olhos pelo currículo - que parou algures nos anos 90, que nunca mais o atualizei - em que fiquei espantada com tantas coisas que fiz para trás, que foi desde 80,por exemplo, 87/88, o trabalho com o computador permaneceu sempre no jardim de infância até agora, portanto, vai muitos anos.
Arquivos\Pré_Escolar\Rita
Acho que foi o maior fracasso, foi uma pouca vergonha. Eu sempre disse que os [agrupamentos] horizontais eram mais do mesmo. As escolas eram pobres, não tinham nada para dar. As que tinham, era pouco e era para eles. O que é que os pobres podem partilhar com os pobres? Nada. Partilhavam chatices. Eram chatas. Eu estou a falar com uma professora agora - talvez em todas as profissões - e o que importa é o estatuto, aquela mentalidade estatutária de que educadora vale menos que professora, de que o primeiro ciclo vale menos do que o segundo, de que o segundo ciclo vale menos do que o terceiro ciclo e por aí fora. Nessa altura isso foi notório. Eu estive num agrupamento horizontal em 1998-99. A nossa escola tinha 12 salas [do primeiro ciclo] e duas salas do jardim de infância e uma outra tinha nove salas de primeiro ciclo e tinha três salas do jardim de infância - um agrupamento horizontal, aquela coisa. Depois, vinha a diretora tentar, enfim, tirar recursos do jardim [de infância] para a escola [do primeiro ciclo]. Eu dizia: "Era o que mais faltava". Depois dizia: "Agora temos de fazer intervalo todas ao mesmo tempo. Porque as educadoras vão lá para fora com os meninos durante as aulas". Queria que depois nós fossemos vigiar as crianças [do primeiro ciclo]. Eu disse: "Porque que não vão elas lá também vigiar o recreio?". "Tem que ser as educadoras". "Olhe, mas não. Eu não sou obrigada a ter intervalo para recriar as minhas crianças, elas recreiam-se aqui dentro. Nós não precisamos de recreio. Nós vamos lá fora para explorar a natureza, andar de baloiço, se os houver, ou escavar aqui ou plantar ali, não vamos lá fora para recriar. O nosso trabalho intelectual não cansa ninguém. Eu vou lá fora quando as crianças precisarem de correr e saltar. Não conte comigo, nem com ninguém". Eu era a coordenadora do jardim [de infância]. "Se quer fazer omeletes, vá procurar ovos noutro lugar. Aqui não tem". Demo-nos francamente mal, nesse ano lá na escola, porque eu não deixava nada por dizer. Representava as educadoras no pedagógico e saltavam-me em cima a toda a hora. Era uma educadora e eram cinco ou seis professoras - com uma idade para ter juízo, elas não eram novas.
Arquivos\Pré_Escolar\Rute
Foi de 1984, talvez a 1995, 1996, por aí. Depois começaram os agrupamentos, inicialmente os agrupamentos horizontais e verticais. É assim, eu penso que, também por exigência do momento atual, eu penso que vou ter que reformular estas dinâmicas, não é, porque agora as exigências estão muito mais viradas para o digital e, portanto, terei que fazer uma reformulação também ao nível do primeiro ciclo por essa via, até o momento essa exigência aplicava-se muito mais no segundo e terceiro ciclo. Agora, no primeiro ciclo, penso que isso também vai dar alguma tranquilidade, porque apostando mais no digital terei menos rotatividade das turmas na biblioteca e isso será feito de uma outra forma.