I
Arquivos\1º Ciclo\Abel
Os pais não sabem dizer não, mas eu agora não posso dizer nada... eu agora tenho três netos e digo-lhes sim a tudo.
Arquivos\1º Ciclo\Anita
Eu acho que por trás desta alteração poderão estar alterações a nível da política também, mas também a nível da ocupação dos pais... os pais estarem mais fora de casa, o pai e a mãe trabalharem, estarem menos com o menino, eu penso que isso também tem contribuído para estas coisas acontecerem.
Arquivos\1º Ciclo\Bruna
Muitos pais não têm capacidade de ensinar os alunos a estudar, nem a motivar.
Arquivos\1º Ciclo\Carla
Gostei da turma e dos alunos, embora não tenha apreciado a atitude de alguns pais, que foram bastante exigentes. A professora anterior tinha uma forma de trabalhar diferente da minha: permitia que os alunos se levantassem e circulassem pela sala. Comigo, isso não funciona. Não exijo silêncio absoluto, mas preciso de um ambiente adequado ao trabalho. Fui um pouco mais rigorosa e acredito que os alunos estavam habituados a obter notas mais elevadas. Alguns pais — dois ou três — queixaram-se, o que, embora não sejam muitos, já é suficiente para gerar desconforto. Outros pais gostaram, mas, de qualquer forma, lidar com essas situações nem sempre é agradável.
Arquivos\1º Ciclo\Carmina
Acredito que os pais devem estar envolvidos e informados sobre o que acontece na escola, mas dentro de certos limites. Muitas vezes observo — não comigo, talvez porque o meu cabelo branco imponha algum respeito — que nas reuniões de pais é necessário ajustar o discurso conforme o perfil de cada família. A linguagem não pode ser demasiado técnica, para que todos compreendam. Precisamos explicar claramente os critérios de avaliação, o programa e os objetivos, mostrando que estamos ali para apoiar as crianças. Quando os pais percebem que há uma verdadeira intenção de colaboração, tudo corre melhor. Sempre que algo não vai bem, a primeira providência é comunicar ao encarregado de educação.
Arquivos\1º Ciclo\Celeste
Trabalhei em contextos diversos e percebo que, atualmente, as famílias desejam participar mais. No início da minha carreira, parecia haver uma separação mais clara: a responsabilidade da escola cabia à escola. Com o tempo, as famílias passaram a querer acompanhar de perto e participar mais ativamente. É uma exigência acrescida, mas positiva. Tenho pais atentos, que valorizam o trabalho escolar. Ao contrário do que se diz com frequência, não sinto que estejam apenas para criticar. São pais preocupados, que querem compreender.
Arquivos\1º Ciclo\Clara
Eu lembro que uma vez saímos da escola (isto da escola da cidade) saímos da cidade e houve uma mãe que nos deu um saco de rebuçados – só para ver como a relação era próxima – ela deu-me um saco de rebuçados mas eu não os distribui naquele momento.
Arquivos\1º Ciclo\Clotilde
Quando comecei a carreira, os professores eram vistos como figuras de autoridade. Não sei se isso era melhor ou pior, mas hoje percebo que muitos professores acabam por se desautorizar. É um tema delicado para mim, porque nunca vivi situações graves, e por isso não sei se as relações com os pais estão melhores ou piores. O que noto é que, por vezes, simplesmente não há relação.
Relacionar-se com os pais não é chamá-los apenas para apontar problemas, mas também para partilhar os progressos das crianças. Devemos antecipar dificuldades sempre que possível, em vez de esperar que os problemas se agravem. A primeira coisa é estabelecer contacto imediato com os pais, dizer: “O seu filho já faz isto bem, mas há aqui um ponto a melhorar. Vamos ver como resolver.” Muitos professores ainda não fazem isso; encaram os pais como estando “do outro lado”. Na verdade, devemos estar todos do mesmo lado — professores, alunos e famílias.
É essencial integrar todos os alunos, mesmo os que não apresentam dificuldades de aprendizagem ou comportamento. Quando os pais percebem que tratamos todos com atenção e respeito, sentem confiança no nosso trabalho. Às vezes é preciso lembrar que todos os alunos têm direito a ser respeitados. Já aconteceu ter de dizer: “Aquele menino também tem pai e mãe, e eu sou professora dele.” Há situações em que os pais se queixam das relações entre os filhos, e é importante fazer com que compreendam que o seu filho tem direitos, mas o outro também. Não é justo pedir que o professor trate um aluno de forma diferente apenas para satisfazer preferências pessoais.
Arquivos\1º Ciclo\Filipa
As famílias recebiam os professores de forma muito acolhedora. Eram pessoas que valorizavam o trabalho docente e demonstravam preocupação quando os filhos ficavam sem professor. Essa preocupação era compreensível, pois havia casos em que alguns docentes, devido ao isolamento e às dificuldades do contexto, recorriam a atestados médicos para se afastar. Nessas situações, os pais mostravam-se inquietos, pois desejavam que os filhos tivessem acesso à educação formal, independentemente das adversidades.
De modo geral, eram famílias humildes, sempre dispostas a colaborar com a escola e a ajudar quando necessário. Essa relação de proximidade e respeito fazia com que o ambiente fosse muito positivo. Apesar de a experiência ter sido breve — cerca de dois meses, já que a colocação ocorreu apenas a 23 de outubro —, foi um período marcante e gratificante.
Arquivos\1º Ciclo\Gabriela
Havia professores que adotavam uma postura autoritária, acreditando que, por serem docentes, podiam agir de forma independente, como se fossem “donos” da escola. No entanto, considero que essa não é a melhor forma de atuar. É fundamental ouvir os encarregados de educação e permitir que participem da vida escolar. A presença dos pais na escola, inclusive dentro das salas de aula, é enriquecedora, pois torna o espaço mais aberto e transparente. Os pais trazem consigo experiências e saberes valiosos do seu contexto social e cultural, que complementam o conhecimento formal transmitido pelos livros. Muitas vezes, partilhavam histórias sobre as suas vidas e sobre como era a comunidade antigamente, contribuindo para uma aprendizagem mais significativa e para o fortalecimento dos laços entre escola e família.
Arquivos\1º Ciclo\Gaspar
Hoje não. Hoje são os pais que se metem em tudo e querem ser eles também a ter uma opinião. Acho que a participação dos pais, ou pelo menos de alguns pais, não é benéfica. Quando eles querem fazer tudo, querem saber tudo. Metem-se, mesmo a nível pedagógico, muitas vezes com os professores.
Arquivos\1º Ciclo\Gisela>
Eu acho que agora, se calhar os pais estão um bocadinho assim, mais dentro do que é a escola.
Arquivos\1º Ciclo\Graziela
Não temos quem nos proteja, e isto é uma coisa boa para ficar aí registada. Uma semana…aparece-me lá…ai, como é que se chama? A Proteção de menores, com a psicóloga. Alguém da Proteção…alguma assistente social, porque a C.…veio falar comigo porque a C. estava retida no Hospital de Gaia porque acho que a mãe lhe tinha atirado com a faca. E então…que a miúda tinha só um arranhãozinho. Eu realmente vi o arranhãozinho, mas uma coisa tão insignificante que não lhe liguei nenhuma. E de vez em quando até lhe levantava a roupa, assim na brincadeira, para ver se ela não estava pisada, e nunca a vi pisada. O que é que eu disse à assistente social e à psicóloga? Fui buscar o caderninho dela, mostrei-lhe o caderninho e disse: “Olhe, não tenho nada a apontar à mãe, a miúda traz os trabalhos feitos, a mãe não faz mais porque não sabe, porque não pode, porque não lhe ensinaram, a miúda vem para a escola, a mãe vem buscá-la, eu falo muito bem com a mãe, lido muito bem com a mãe, não tenho problemas nenhuns. Está a ver aqui o caderninho da miúda? Vem sempre muito limpinha, com as possibilidades da mãe, mas vem sempre muito limpinha para a escola. Não tenho problemas nenhuns com aquela mãe”. E depois…a mãe…pronto, soltaram a miúda, que é mesmo o termo. Mas acho que a mãe ainda deu porrada nos polícias nos hospitais, lá no Hospital. Depois, um dia mais tarde, as miúdas tinham que atravessar a rua, para ir para a cantina, que era embaixo. E houve uma mãe que me disse que a M. deu uma bofetada na filha. E vai fazer um escândalo à escola, mas não era contra mim, era contra a M.. E disse-me que ia à polícia, e eu disse-lhe: “A senhora vá. Pronto. A senhora vá”. E foi. E foi. E eu depois passei para ir com a minha filha para a explicação e vi-a, lá dentro, na polícia. E foi. Entretanto, a M., um dia, falou comigo, e disse-me: “Oh professora, veja lá o que é que vai dizer!”. E eu…está a ver? A proteção que nós temos. E eu disse-lhe assim: “Eu vou dizer a verdade. Eu vou dizer a verdade, eu não estava lá, eu não vi”. Falei com a empregada, que levava os miúdos, e disse: “Oh D. R., viu alguma coisa?”, “Eu não, eu não vi nada, não vi ninguém”. “Pronto, é isso que vai dizer à polícia”. Depois o caso até foi arquivado. Sabe porque é que estas mães vão fazer queixa à polícia? Porque têm tudo grátis nos Tribunais. Porque se tivessem que pagar, não iriam lá. Percebe o que eu lhe estou a dizer? E é assim, vou-lhe dizer uma coisa que, se quiser contar conta, se não quiser, não conta, mas vou-lhe dizer…isto foi a verdade. Mas imagine que eu até via. Que até acontecia e eu via, sabe o que é que eu iria dizer? Que não vi nada. Porque eu não tinha proteção nenhuma.
Arquivos\1º Ciclo\Ilda
Relativamente à presença dos pais na escola, a relação da Escola com a família, eu acho que foi evoluindo positivamente, não é? Desde aquela primeira associação de pais, em que os pais muito atrapalhados diziam: “por favor, digam-nos o que é que a gente há-de fazer”. E que era mal vista pelos outros professores, até à associação de pais que agora, por exemplo, existe, em todas as escolas,
Arquivos\1º Ciclo\Inês
Eles gostavam, eles sentiam-se importantes quando eu os chamava à escola e pedia para eles falarem das experiências deles e contarem histórias e ajudarem-nos a fazer algumas coisas. Eles gostavam imenso. Depois, os miúdos até tinham bons resultados, porque depois vinham aqui para o ciclo e, às vezes, eles diziam: “As professoras dizem que os meninos da escola são sempre os mais bem-preparados”. Portanto, tinham esse feedback e gostavam. Eu acho que sim. Nunca tive qualquer tipo de problema com as pessoas nem nada.
Arquivos\1º Ciclo\Irene
Mas por outro lado, também havia esta relação afetiva dos professores com os pais. Parece que, por um lado houve alguma abertura a seguir ao 25 de Abril e depois, naqueles anos áureos da revolução, por alguma abertura da escola, a participação dos pais que se prolongou durante alguns anos, aquilo que sinto é que a escola foi-se fechando, cada vez mais, e agora então, com a pandemia, houve escolas que ficaram com hábitos de os pais não poderem entrar na escola.
Arquivos\1º Ciclo\Isadora
Tive sempre muita sorte. Não sei. Eu tive sempre muita sorte. Nunca tive nenhuma situação assim propriamente desagradável, mesmo com os pais. Antigamente, nos primeiros anos, as passagens de ano eram muito rigorosas. Hoje em dia já não são tanto. Hoje, só em casos muito extremos, digamos assim, é que o aluno fica retido. Alguns pais não aceitavam, mas nada de mais.
Arquivos\1º Ciclo\João
Mas estávamos a falar das famílias. Hoje são, penso, muito próximas da escola, porque há necessidade disso. Pelas piores e pelas melhores razões. Estão mais atentos.
Tínhamos um período de articulação semanal com os pais; estamos à disposição dos pais, naquele período das famílias.
Penso que neste momento há uma maior articulação, sem dúvida.
Arquivos\1º Ciclo\Lisboa
É assim, não foi assim aquele choque, não. As pessoas eram muito simpáticas, as crianças também, muito afáveis… É como lhe digo, eu estava na casa de dois meninos que tinha na escola. Foram pessoas extraordinárias comigo. Portanto, eu senti-me tão bem recebida… No fundo era só a distância que me estava a custar porque, de facto, a integração foi ótima, acho eu. Pelo menos considero… Foi bom, não foi assim muito traumatizante (risos)
Arquivos\1º Ciclo\Mara
Até porque as exigências das crianças de hoje são muitas, tanto a nível social como psicológico…de tudo. As famílias não são as mesmas, portanto, nós temos de estar muito mais predispostas a ouvir pais, ouvir crianças.
Arquivos\1º Ciclo\Marlene
Hoje, eu acho que o primeiro ciclo está muito difícil, assim como a educação pré-escolar. Está muito, muito difícil. Os pais preocupam-se em ir a cursos de partos para aprender a respirar, mas depois não se preocupam que os meninos fazem birras, deitam-se no chão, no supermercado, na pré. Isto começa a ser muito complicado, mas muito, muito.
Arquivos\1º Ciclo\Morgana
Agora no ano em que eu ia sair uma mãe duma aluna fez queixa de mim porque fui estúpida. Uma história absolutamente inacreditável. Fez queixa de mim à direção do agrupamento, claro, por escrito. Porque? Porque eu não dava suficiente atenção à filha e porque eu tinha posto a filha de joelhos na sala de aula. Isto foi uma história completamente maluca, porque era uma senhora, a filha, por acaso era do Brasil que estava cá há pouco tempo, e a menina chegava sempre à escola às dez e meia em vez de chegar às nove. E ela queria sempre que eu fosse falar com ela à porta, depois queria sempre justificar-se comigo. Que eu, a partir de certa altura disse "Não posso, eu tenho que ter também o meu momento de intervalo". E esta senhora, se quer falar comigo, faz como fazem todos os pais, escreve na caderneta e nós combinamos um horário e eu marco. Terei toda a flexibilidade para marcar as horas, como tive sempre com todos.
Arquivos\1º Ciclo\Nélia
Eles vinham com o taxista, o taxista era contratado no início do ano pela antiga delegação escolar, para fazer aquele trabalho. Portanto, ia de manhã, buscar os miúdos e depois, ao fim do dia ou ao fim da manhã, porque normalmente tinham aulas de manhã, e ia levá-los de volta ou à escola ou à mãe, portanto, alguns eu nunca cheguei a conhecer.
Arquivos\1º Ciclo\Olívia
Para a instituição isso era uma mais valia. Existe muita preocupação perante as idades, de quem fica com os filhos, pois os pais já têm 80 anos! Quem cuidará deles depois? Agora eu estou a perder-me um bocadinho. Havia lá um pai muito empenhado. Fazia lançamento de livros. Convida-me sempre para ir. Ele e a esposa conseguiram fundar uma instituição onde acolhe meninos internos. E ele diz-me - aquilo que eu lhe dizia de nós professores destacados na instituição como mais valia - que o que falta na instituição são professores! Claro que estão técnicos e auxiliares, mas nós damos uma visão diferentes das coisas. Lucramos todos.
Arquivos\1º Ciclo\Zacarias
Sempre houve bom relacionamento com as famílias, principalmente nas aldeias. Sempre tive uma boa relação. O professor ainda era bem visto. Acho que era o pouco ponto de referência que havia nas aldeias, até porque nós na altura saímos em todas as épocas como o Carnaval, a Páscoa, íamos dar a volta pela aldeia, fazíamos a festinha de natal, sempre aparecia gente e dava alguma vida às aldeias.
Arquivos\2º Ciclo\Adelina
Relativamente às famílias mais desfavorecidas, eu acho que não houve assim grandes alterações, ou seja, as famílias continuam ainda a desvalorizar ou a não valorizar a escola como sendo uma coisa que vai ser boa para os filhos e para as famílias. Eu creio que não houve assim grandes, grandes alterações. Não me parece. Pelas outras famílias, as famílias um bocadinho mais estruturadas, sim. Acho que as pessoas valorizam a escola e estão interessadas nos seus filhos e na educação - são mais participativas. Acho que houve alguma evolução. Acho que as pessoas começam a valorizar mais a escola e a perceber que a formação é importante e que isso vai trazer, futuramente, algumas coisas boas, no sentido de os filhos poderem estar mais aptos a enfrentar a sociedade. Os outros, acho que essa franja ainda não está muito bem resolvida - a franja dos mais desfavorecidos - é a minha opinião. Também é aquilo que me vai chegando da sociedade em si e daquilo que nós vamos percebendo, mas também por relatos de outras colegas. Aí parece-me que o trabalho ainda não é muito eficaz, porque ainda há muitos meninos que vão à escola quase porque são obrigados a ir, não é? Pela própria sociedade que assim os obriga. Esta escolaridade até o 12.º ano, neste momento eu não faço muito bem ideia se há realmente alguns desvios, se se vai fugindo ou não, não sei, mas aí acho que ainda não estamos no ponto ideal, acho eu.
Arquivos\2º Ciclo\Alda
Não podemos querer uma escola ideal se nós, cá por fora, não tivermos famílias ideais. Depois também começou muito a desagregação familiar. Começamos a receber as crianças já muito mais perturbadas por causa dos ambientes familiares que não eram o ideal.
Arquivos\2º Ciclo\Aldina
Às vezes é preciso mudar fraldas aos pais. Isto no sentido de, nos últimos dez anos - mas também coincidiu com o meu envelhecimento - , foi preciso aprender a distanciar os pais enquanto diretora de turma.
Arquivos\2º Ciclo\Carmo
Eu vou-te dizer. Nesse trabalho que eu fiz sobre histórias de vida, o mais dificil para os professores era relacionar-se com os pais. Isso ainda se mantém. A escola continua muito ligeira. A evolução, para mim, é muito ligeira. A mudança em relação ao papel importante que os pais têm na escola é muito ligeira. Eu sempre quis os pais na escola, de que forma cada um pode ajudar.
Arquivos\2º Ciclo\Cecília
As famílias estão, também, muito mais exigentes, são muito mais atentas, e muito bem. Há um sentido crítico muito maior dos pais, há uma exigência muito maior em relação às escolas, são pais muito mais expectantes, com um sentido muito mais crítico em relação à escola.
Arquivos\2º Ciclo\Constança
É curioso que alguns perderam-se no percurso e agora têm exatamente o mesmo discurso, quando vão à escola, que os pais deles tinham, de uma forma mais consciente também porque os tempos mudaram, porque antigamente as pessoas acabavam por não viver de rendimento mínimo social como vivem hoje, mas tinham que trabalhar muito duro para conseguir dar algum bem estar aos filhos e queriam que eles melhorassem. Esta geração, estes filhos que não conseguiram fazer a escolaridade completa e que se foram perdendo e que casaram entretanto e que tiveram crianças precocemente - porque quase todas elas foram mães e pais precoces, quando eu digo precoce, algumas aos 16 e outras aos 18 - mas eles agora têm mais consciência de que faz falta, porque havia mais emprego, apesar de tudo do que há agora, a seleção é mais apertada e, portanto, acho que eles têm uma consciência maior da importância.
Arquivos\2º Ciclo\Esmeralda
É que agora os pais estão muito atentos e são muito críticos.
Arquivos\2º Ciclo\Fátima
Lembro-me que uma vez participei num acampamento nacional com um grupo de pequeninos e eu dizia aos pais: “Fiquem descansados, se houver algum problema eu telefono.”. Os meninos não tinham de telefonar todos os dias para os pais, às vezes tinha os garotos nas filas para o telefone, perdiam atividades giríssimas porque tinham de telefonar para a mãe! O super-protecionismo dos pais, também, vão pô-los à escola de carro…eu vivia a cinco minutos, não chegava a dez minutos da escola, a pé. Eu tinha vizinhos que iam pôr os filhos à escola de carro. Uma vez um miúdo disse-me: “Eu ontem não vim à escola, a minha mãe não me pode trazer…” “Então, mas tu moras ao meu lado!” Depois falei com a mãe e a mãe disse-me: “Pois, é que eu fiquei doente…” - “Então, mas a senhora vai pôr o seu filho à escola? Vai tudo a pé! Eu vou a pé, os meus filhos vão a pé…” - “Mas eu tenho medo que lhe aconteça alguma coisa…” Então ia a pé acompanhar o filho a 5 minutos da escola. Claro que hoje os riscos também são diferentes, nós sabemos, mas eu acho as crianças super-protegidas. As crianças habituaram-se a ter tudo. A escola já lhes diz pouco, porque eles em casa têm acesso a tudo e mais alguma coisa. Mas depois também acho um contrassenso, porque os paizinhos vão pôr os meninos à escola de carro, mas depois os meninos com 14 anos, à noite, saem e vão para os copos. Há aqui qualquer coisa que não…e eu lembro-me de uma vez uma pessoa me dizer: “Então, mas tu consegues ter os teus filhos em casa com 14 anos e eles não irem sair à noite?” Se eu consigo? Então, mas não consigo porquê? Então, mas eles têm lá idade para sair à noite? Sozinhos? Não, não têm, não saem. É uma questão de educação. Eu acho que também há um pouco défice de educação familiar, porque os pais hoje – no meu tempo também era o contrário, se a gente se queixasse do professor que tinha ralhado, o pai ainda ralhava mais – mas lá está, é o 8 e o 80, porque hoje os meninos têm sempre
Arquivos\2º Ciclo\Fernanda
Nessas primeiras escolas eu estive apenas um ano. Foi mesmo de passagem. Portanto, não deixei grandes raízes, mas tive experiências, sobretudo ao nível do comportamento disruptivos e de famílias muito desestruturadas, muito, muito difíceis.
Arquivos\2º Ciclo\Glória
Mas agora são terríveis os garotos e os pais.
Arquivos\2º Ciclo\Iva
Cada vez mais, os pais facilitam. Não é bem facilitar. Não exigem responsabilidade. Veja os brinquedos em casa. Não estou a falar na escola, propriamente. Em casa os pais não exigem responsabilidade aos filhos. A mãe faz a cama ou faz o pai. "Arruma os brinquedos", ele não arruma, vai o pai ou vai a mãe arrumar. Eles não estão habituados a responsabilizar-se por nada. Então como é que na escola, depois, se hão de responsabilizar por algo? Os pais fazem-lhes a mochila. "Olha lá, tu não trouxeste hoje a caneta?". "A minha mãe não pôs a caneta na mochila.". Esta desresponsabilização vem dos adultos, pais.
Arquivos\2º Ciclo\Joca
Já lhe dei a entender, claramente, que temos famílias aqui pouco motivadas para a escola, pronto, e que não dão apoio aos filhos, e enfim, temos infelizmente muitas famílias com essas características. Agora, nós sempre tentámos relacionar o melhor possível, sempre tentámos dar o maior apoio possível. Mas também é certo que os diretores de turma diziam muitas vezes "olha, eu chamei cá o pai do aluno X, o pai ou mãe, o encarregado de educação e eles não há maneira de cá virem, não querem ou não ligam".
Arquivos\2º Ciclo\Maria Luís
Depois os pais também começaram a ter algum poder dentro da escola e a resmungar connosco. E nós éramos ameaçados pelos pais, pelos os filhos. Como eu tive um aluno, apetecia-lhe, dava-lhe na cabeça e dava um pontapé no vidro e partia o vidro. E eu ligava para os pais e ainda era insultada.
Arquivos\2º Ciclo\Orlanda
Não, mas não, são pessoas pacíficas, eram dos melhores encarregados de educação que nós tínhamos, eram os que mais nos respeitavam, impecáveis, os pais dos alunos de etnia cigana.
Arquivos\2º Ciclo\Quitéria
Muitas vezes também os pais não aceitam que as coisas não corram tão bem... eu tive há uns anos um garoto, um garoto pequenito, baixinho e que tive de chamar a mãe. Era da minha direção porque o miúdo andava a fazer gestos feios nas costas da professora de História e a professora de História apercebeu-se e eu chamei a mãe "o seu filho anda a fazer isto", a mãe não acreditou em mim "não porque o meu filho não sabe fazer esse gesto, é impossível, eu nunca lhe ensinei esse gesto; Por isso meu filho não pode fazer esse gesto", e não acreditou em mim e mudou de escola, desapareceu. Pelo menos não tivemos mais o problema de ele andar a fazer gestos feios para a professora, deve ter ido fazê-los para outro lado. Porque eu só disse à mãe, "eu não tenho interesse nenhum em estar a inventar coisas sobre o seu filho, isto efetivamente aconteceu, só quero que fale com ele, explique que é um gesto feio que não pode fazer isso, porque se calhar ele nem sabe o significado do gesto". Os pais muitas vezes não aceitam, há uma superproteção em relação aos garotos. Felizmente nunca tive nenhuma situação de querer agredir-me ou assim. Mas às vezes há situações muito desagradáveis.
Arquivos\2º Ciclo\Rosário
Ai, é muito importante. É muito importante o contexto familiar e estabelecer relações com os pais, porque muitas vezes os alunos também são assim porque os pais também os deixam ser assim. Eu tive uma mãe que me disse: "os meus filhos nunca vão andar a pé! Têm eu ou o meu marido que os vamos buscar à escola". Para quê? Portanto, os filhos não podem andar a pé. Isso, realmente, acho que é muito mau para as outras crianças. Até andou aqui comigo em explicações. Pensava que era o melhor do mundo, achava e respondia torto aos professores, e não sei quê, e a culpa era da mãe, porque a mãe dava sempre razão ao menino e não dava ao professor.
Arquivos\2º Ciclo\Sofia
Depois tive experiências muito engraçadas. Aquela escola já tinha salas de disciplinas e tinha uma sala de História - que eu nunca tinha visto. Era uma sala muito bem equipada e muito bem decorada pelos professores que tinham estado lá antes - já era o quarto ano. [Na sala,] ao longo das paredes, havia [desenhos da] hominização. Na altura, houve problemas com o padre - já tinha havido nos anos anteriores. Não queriam que os professores de História falassem sobre o desenvolvimento do Homem na aula. Foi um bocado complicado. As coisas, depois, foram evoluindo. Nunca mais tive esses problemas.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Agustina
Portanto, os alunos de Paredes estão bastante bem preparados, boas notas, boas médias. Mas depois os pais, neste momento, também se condem com as dores dos filhos: “Coitadinho do meu filho! Talvez não seja necessário estudar tanto para ter uma nota tão alta!” A escola é muito boa, a escola é… mas ali é mais fácil tirar.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Amália
Falando da relação com os pais, achei que, a partir de certa altura, o nosso papel não era tão valorizado assim, pelos pais. Mas eu não acho que seja pelo negativo, quer dizer, quando se dá uma maior intervenção, uma entrada mais interventiva dos pais na escola, isso também é positivo. Só é negativo quando, às vezes, descamba, porque os pais também não sabem bem o lugar que devem ocupar. Portanto, há uma evolução nesse sentido, na forma como os pais veem os professores, acho que sim.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Amélio
Os encarregados de educação tinham, eles é que decidiam, não eram os alunos do segundo ciclo ou terceiro, não é? E também participavam mais os alunos do segundo ciclo do que os alunos do terceiro ciclo. Esses já se distanciavam muito desse tipo de projectos. Desse e de outros. Não eram muito dados a...
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Aurora
Não há, ou não havia – penso que agora é o mesmo estilo – uma comunhão de interesses entre a família e a escola. Para a família, para muitos deles, a escola serve para depósito dos filhos e os professores é que têm a obrigação de os educar e de fazer tudo - os pais de os deseducar. Outros não, outros colaboram, mas muito poucos, muito poucos. Eu acho que havia de haver mais entrosamento entre a família e a escola.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Caetana
Depois, ao fim de 20 anos, um pai de um menino do sétimo ano leva com uma visita de estudo e diz "Eu não me responsabilizo por ele". Não. Então bem. [impercetível]. Ao fim de 20 anos, um pai de um menino do sétimo ano não assina um termo de responsabilidade. "Então, se ele partir uma coisa qualquer, eu pago?. A senhora é que é responsável? Não está bem". "Então olhe, fique com o seu filho e guarde-o dentro de uma caixa de vidro". Então as coisas foram mudando. Houve uma perca de confiança. Eu penso que grande parte dos ministros, os ministros de educação e todos os governos que tivemos foram culpados pela descrença em que os encarregados de educação muitas vezes caíram [...]. E, portanto, aquilo que vai correndo nas televisões é aquilo em que as pessoas vão acreditando. Sim.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Camila
Os pais dos alunos, quando não ficavam satisfeitos com qualquer coisa, era a contestação. Eu fui durante muitos anos diretora de turma e gostei sempre imenso do meu trabalho de diretora de turma e gostava imenso do trabalho de diretora de turma com os pais de alunos que vinham de níveis sociais inferiores. Sim, porque eram pessoas muito, primeiro, mais interessadas, não tanto, enfim, em que os miúdos tivessem profissões fantásticas, mas que os miúdos, enfim, fossem educados e estudassem o suficiente para poder ter uma profissão digna que lhes permitisse viver melhor do que normalmente os próprios pais viviam. E, depois, eram pessoas de uma simpatia, de uma disponibilidade para nos ouvir e para muitas vezes pedir conselho, outras vezes darem-nos conselhos de como lidar com os filhos e ajudavam-nos às vezes a dar a volta quando eles eram alunos mais difíceis. Enquanto com os pais, enfim, de uma classe social superior, às vezes as coisas eram complicadas porque eles achavam que eram advogados ou médicos, ou depois, ou fosse o que fosse, que os filhos tinham sempre razão, podiam fazer os maiores disparates, que tinham sempre razão. E era desagradável, não é?
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Catarina
Nos pais notou-se uma evolução - os pais que muitos deles foram meus alunos - quer dizer, a arrogância que eles têm, a ideia de que só há direitos e não há deveres. "Eu tenho direito a tudo e o meu filho tem direito a tudo". E os deveres? E os deveres? O seu filho tem que se comportar. O seu filho tem que saber estar na escola. O seu filho tem que cumprimentar. Eu cheguei a ter - e isto ao princípio não acontecia - eu cheguei a ter que dizer, quando chegava a aula, bom dia, boa tarde, qualquer coisa deste tipo. Cumprimentar. Eles nem isso sabiam. É que passámos do 8 ao 80. Eu recordo-me do meu liceu - não enquanto professora - e eu recordo que ai de nós se uma professora entrasse na sala de aula e a turma - aquilo já era um reflexo condicionado de Pavlov - abria-se a porta e nós todas, como uma mola, em pé. Tudo em pé e a professora é que dizia "sentem-se". Isto era um disparate! Como eram um disparate termos que entrar em fila dentro da sala de aula. A falta de noção do que é a liberdade! Isso não é liberdade nenhuma, não é?
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Célia
Atenção, eu depois de voltar do GAVE, tive três anos na escola. Estive três, não estive mais. É uma experiência muito curta. Nos anos anteriores, os pais iam conversar com o diretor de turma e eram conversas interessantes sobre os filhos, sobre a vida deles. Depois não. As conversas com os pais passaram a ser muito agressivas. Eu só num ano é que tive uma direção de turma que não era dos Profissionais, era de uma turma de 8.º ano [de escolaridade]. Não eram agressivos, não tratavam mal.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\César
A pista do aeroporto também não estava tão aumentada como hoje, portanto, cada vez que se aterrava lá era com o coração na mão. A parte norte da ilha, sempre foi aquela parte mais pobre. Culturalmente, as famílias eram de pouca instrução. Foi uma experiência que eu não gostei muito. Os alunos também são um bocadinho distantes. O ser do continente já parecia que os afastava um bocadinho nós.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Chico
Nesse mesmo ano, fui para outra escola. Um processo muito engraçado, porque os professores, juntamente com os pais, construíram um pavilhão na escola. Ao fim de semana. Durante os fins de semana. Os pais eram pedreiros e construtores. Uma coisa horrível, um caixote, mas era um espaço interior em que se podia fazer atividade física.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Clorinda
A relação maior com o encarregado de educação só acontecia quando éramos simultaneamente director de turma. Mas, como diretora de turma, fui muitos anos em muitas escolas, em todas as escolas - se não fui todos os anos, fui muitos anos. Foi fácil, mas foi diferenciada. Eu cheguei, por exemplo, já estava nesta última escola, na G., em meios de gente que trabalha muito - em meios de dormitórios. As pessoas viviam ali, mas mais por trabalhar fora. Portanto, vidas muito apressadas e muito ocupadas. Houve um ano ou dois e apesar de já não haver aulas ao sábado, prestei-me a ir fazer a reunião ao sábado e a adesão era fraquíssima. Aliás, uma coisa que eu sempre combati - achei que os pais apareciam muito pouco. Tive, excecionalmente, uma turma ou duas em que os pais apareciam, às vezes, pai e mãe. Mas lá está, são aquelas turmas especiais que a gente encontra. Nem eram alunos selecionados, acontece às vezes. Eram relações muito prazerosas. Conversava-se tu cá, tu lá, de uma maneira cordial, sem haver degraus e muito afável. Mas queixo-me sim, de que os pais participavam - agora não sei - muito pouco nas reuniões. Eu não percebia porquê. Nunca percebi porque. Não era pela hora. Depois, deixei de ir ao sábado porque eu também me ia martirizar, mas a relação era boa, os alunos até comunicavam: "Professora vem cá o meu pai ou vem cá a minha mãe.". Acho que as coisas mais específicas ou de ordem de saúde ou assim, mas nunca tive problema nenhum com pais. Eu acho é que se ausentavam das reuniões. Eu acho que era muito importante os pais estarem presentes na escola, porque estão a gerar 'o ser adulto'. A escola pode dar-lhes muito e dá, mas a casa é imprescindível, mesmo a nível de comportamentos, maneira de estar, na linguagem. Eu acho que se houvesse mais entrosamento dos pais com a escola, na figura de director de turma ou outros, as coisas eram muito mais fáceis, mas as pessoas puramente não aparecem.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Eva
Os pais, quando eu regressei, depois do estágio, ao liceu, a Associação de Pais estava a nascer ou a ganhar forma, digamos assim, e eu costumava dizer que aquilo era um poder dentro de um poder. Porque os pais ainda estavam acho que imbuídos muito do espírito revolucionário, ainda que fosse já princípios dos anos 80, num princípio muito revolucionário de que os pais é que mandavam. E houve ali alguns problemas de reivindicações de notas e por aí. Foi assim um bocadinho desagradável. Houve ali um certo contencioso entre a direção e professores e a associação de pais. Depois a coisa diluiu-se [...]
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Ivone
Dessa forma mesmo, legalmente. A força atribuída ao aluno e ao encarregado de educação foi, progressivamente, sendo maior. Eu não estou, assim, liminarmente contra isso. Eu acho é que deveria haver - foi sempre nesse sentido que eu fui dialogando com os alunos - uma colaboração entre encarregados de educação e professores no sentido de trabalharem em conjunto para o bem do aluno. Mas, efetivamente, muitas vezes o que acontece é se o professor não quer saber um bocado, não quer ter amargos de boca e, portanto, é mais 'passa culpas', os alunos têm essa consciência, são capazes de fazer essa crítica, mas ninguém nem quer levantar problemas - se a nota aparecia no período ou no final do ano - nem o aluno, nem o encarregado de educação. Só há problemas quando o professor é exigente, aí tem problemas.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Joana
A relação foi boa, nunca tive momentos extraordinários. Lembro-me de um miúdo que tinha muitas capacidades, tinha um potencial fantástico. Os pais tinham dificuldades em conseguir que ele estudasse. A verdade é que o rapaz estudou, lá consegui ajudar. Ele passou. Eu não conhecia a mãe. Eu sei que no final do ano, já estávamos em férias, a mãe dele, pelos vistos conhecia a minha mãe, foi a casa da minha mãe e teceu os maiores elogios a meu respeito. Acho que não fiz nada de especial. Ela era também professora primária. Eu não fiz nada de especial.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Luciana
Depois tive outra que envolveu encarregados de educação. Já nesta escola (há uns 5, 10 anos nesta escola. (incompreensível) a ideia de que a classificação de Educação Física não deve existir, que os alunos são vítimas da Educação Física e que [o aluno] não entrou na faculdade por causa da Educação Física. (incompreensível) a professora diz que não eram exigentes como o pai dizia, eram tolerantes, avaliavam sempre por baixo, em relação às exigências de facto. Só para contextualizar… era uma escola, não era por acaso que lhe chamavam o Colégio C.. Era uma escola pública, mas começou por ser uma escola secundária.
Havia muita luta por conseguir um lugar nesta escola. Portanto, como havia muita procura, também deveria haver seleção e ficariam sempre os melhores. Portanto, não havia meninos do Bairro. Agora a escola é um agrupamento, há muitos meninos carenciados, refugiados. Não havia nada disso, portanto, era uma escola muito homogénea, de classe média. E, portanto, grandes expectativas em relação ao ensino superior e muito críticos em relação à questão da Educação Física.
E usavam muitas vezes um expediente que era arranjar atestados médicos para os alunos não fazerem Educação Física, e poderem ser avaliados só na área dos conhecimentos e portanto através de trabalhos teóricos. Eu tive uma aluna nessas circunstâncias, embora eu nunca confrontasse os pais com isso, eu sabia que ela fazia equitação e fazia vela e fazia outras atividades físicas, mas tinha um atestado para não fazer Educação Física. E eu tentei convencer a aluna com os pais para que fizesse alguma coisa para não estar desintegrada da aula. Ficava ali de braços cruzados. Mas nós temos uma turma de 30 ou 25 alunos a fazer atividade física e não podíamos estar a dar atenção sistematicamente ao aluno que está de fora. Mesmo que se coloquem tarefas para fazer, é difícil. Então tentei que a aluna fizesse fichas. Fiz-lhe um plano.
Plano individual, com objetivos, com adaptação do currículo, com aquelas coisas para diferenciar, aproveitando aquilo que ela pudesse fazer. E assim foi. Só que depois, a aluna não teve a nota que quis e eu passei de bestial a besta em dois tempos e fui agredida psicologicamente, durante muito tempo.
Não foram para os mecanismos legais, não é? Não, não colocaram recurso à classificação. Tinha sido tudo partilhado e tudo discutido. E ela assinava o plano. Não sei o que é que se passou. A diretora de turma tinha elogiado imenso a minha preocupação de ter feito aquilo para a miúda se integrar na aula. De repente mudou, mudou o chip e eu passei a ser o maior carrasco da vida da filha, e fez uma reunião com o diretor, comigo presente. Chamou-me o que havia para chamar e eu fiquei com aquilo na cabeça semanas a fio.
Não percebi o que é que tinha acontecido. Ainda hoje, não percebo e ainda me incomoda quando me lembro. Mas foi assim que, de facto, uma coisa que não percebi e que me marcou negativamente, porque foi mesmo violento aquilo que ouvi dizer, porque era tudo coisas que eu não percebia, que não eram verdade, que eu tinha feito tudo para prejudicar e que tinha arranjado esta maneira de dizer.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Maria
Os pais, às vezes, também são muito difíceis, também complicam um bocadinho ali... porque ali há uma triangulação, são colegas... é uma equipa, é assim. A escola é uma equipa. Temos de trabalhar com os funcionários que são muito importantes que são os nossos apoios diretos. Os nossos colegas também são muito importantes. A gestão é muito importante porque tem de acreditar em nós e tem de nos apoiar em tudo e depois os pais. E os pais, hoje em dia, também há quem diga que também são difíceis. Estão muito presentes na escola, outros não.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Otávia
O único rival é o próprio aluno. Esta mensagem é fundamental. Hoje em dia eu apercebo-me de que em casa eles ouvem: "Tu tens de ser a melhor da turma, tens de ser a melhor nesta disciplina ou naquela, a melhor de todos.". É uma competitividade negativa. Essa competitividade tem de ser com ele mesmo.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Rómulo
Eu penso que isso nota-se bem, que há mais literacia das famílias, pelo menos em P.E. Lembro-me que quando comecei a dar aulas os pais não sabiam ler. Noto assim, alguns já foram meus alunos, alguns pais, no 12.º tenho alunos que são filhos de alunos meus passados. Que já andaram na escola, já dentro da cultura, já discutem melhor as coisas. Também dão mais cabo da cabeça aos diretores de turma, no bom sentido. Quer dizer, perguntam, não deixam passar ao lado.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Teresa
E os contextos familiares, na minha ótica, ainda são o nosso maior desafio. E temos agora pais que, provavelmente, nunca souberam ser pais, têm dificuldade em ser pais.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Tita
Olhe, isto para ver como é que foi o meu início, mas eram os meus 18 anos. Depois, vieram miúdos, que eu nem… quer dizer, passei para 18. Só que, o que é que fizeram algumas mães? Como eu os chamei, puseram-nas - as meninas - a servir, como elas diziam na aldeia ao lado. Pensando que se escapavam. Eu, pronto, sabia que elas estavam na aldeia ao lado, mandei carta para as professoras da aldeia ao lado. As miúdas vieram, e fizeram o quinto e sexto ano comigo. Por isso, eu batalhei para conseguir que quem tinha direito à escola…
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Virgílio
Os pais de agora, eles são muito reivindicativos, mas às vezes complicam muito. Eu fui, [durante] alguns anos, diretor de turma. E eu não tive grandes problemas com a direção de turma. Nestes anos mais recentes já não era diretor de turma, mas via os problemas que as pessoas passavam, que os diretores de turma passavam com os encarregados de educação. Eu acho que os pais têm obrigação e devem seguir os alunos, o trabalho dos filhos e isso tudo, mas às vezes metem-se demais e isso é mau. Isso é muito mau. É como [a ex-ministra] Maria de Lurdes Rodrigues bem disse, que [ela] ganhou os pais, que perdeu os professores e ganhou os pais. De facto, ganhou. Os pais entraram na escola para não sair mais, para não sair. Eu acho que devem lá estar, mas não devem ter o peso que têm hoje, não é? Eu não posso discutir com um encarregado de educação aspectos técnicos. Acho que eu não vou discutir com um médico... alguns pais, não estou a dizer todos, mas alguns entraram nesses exageros de discutir tudo e mais alguma coisa. Nada estava perfeito.
Arquivos\Pré_Escolar\Gina
Quanto aos outros colegas, há muita gente que é assim, mas tem-se vindo a perder. Porque há um descrédito na profissão e uma não valorização da profissão muito grande. Isso leva muita gente a desinteressar-se pelo facto de ser professor. Nós temos uma comunidade de pais muito difícil aqui, porque eu trabalho num TEIP - um território educativo de intervenção prioritária - e têm comunidades difíceis. E é muito difícil o trabalho de pais, não é fácil. Cada vez tem sido, gradualmente, mais difícil. Portanto, isto não vamos generalizar, há pais... até porque ali temos, é engraçado que temos uma escola, eu tenho uma sala em que tenho desde desempregados - este ano por acaso não tenho meninos que têm pais presos, por acaso este ano não tenho, mas às vezes tenho meninos com pais presos.
Arquivos\Pré_Escolar\Gracinda
Vão-se desresponsabilizando do seu papel como pais. Mas depois há essa parte que eu acho que é fundamental. Os pais acham que eles também já são autónomos. Por um lado, acham que os filhos já são muito crescidos e já não têm que andar atrás deles. "Eles é que têm que se desenrascar!", é a expressão que eles usam. Depois, por outro lado, tratam-nos como bebés, às vezes, e eles não têm autonomia nenhuma. Os pais não têm noção disso. Hoje, acho que o papel do professor é esse de auxiliar e apoiar as famílias. Mas às vezes também não resulta. Não resulta porque os pais que mais precisam são os que não vêm a escola, são os que não participam das formações que a gente vai tentando encontrar nas iniciativas que vamos realizando. Quando nós temos os pais todos? Nas festas. Quando fazemos uma festa de final de ano, com os filhos em cima do palco a atuar, eles vêm. Vem o pai, vem a avô, vem a madrinha... Agora, quando é para vir para uma reunião de pais, às vezes temos meia dúzia. No jardim de infância existe vantagem, a criança está ainda muito dentro da mãe - aquela ligação... Então, os pais estão mais presentes. Isso para mim é o encanto do pré-escolar.
Arquivos\Pré_Escolar\Guiomar
Mas os pais são os nossos primeiros parceiros de trabalho
Arquivos\Pré_Escolar\Luísa
A aproximação dos pais do Jardim de Infância, é uma aproximação quase familiar. Era quase como se nós fossemos uma extensão da família. Eu sinto isso, de eu trabalhar muito com as famílias, e trabalhar com as famílias, muitas vezes, até, com o apoio, quase, dentro da própria família, isto é, de tirar angústias, ansiedades, que às vezes os pais sentiam em relação aos próprios filhos, de saberem que podiam contar comigo.
Arquivos\Pré_Escolar\Maria Tiago
Ultimamente a U, de que nunca me desvinculei, é um contexto muito difícil. São famílias muito marginalizadas. Eu até fiz alguns trabalhos e depois até fui ao Conselho Nacional de Educação, porque acho que trabalhei muitas questões de uma educação antirracista.
Arquivos\Pré_Escolar\Nena
É assim, vivemos uma política um pouco esquisita, esquizofrénica, que vale tudo. Mães que não trabalham e que metem os meninos aqui às 07h00 da manhã e vêm buscá-los às 19h00. E eu aqui na cidade vivi muito isso. Tenho vivido sempre muito isso e acho isso de uma violência, de uma violência terrível. E as pessoas nem imaginam o quanto mal estão a fazer aquelas crianças. Portanto, depois o contacto que têm com os pais em casa é "olha cala-te, deixa-me ouvir a televisão ou deixa-me ver telenovela". Portanto, eu noto isso
Arquivos\Pré_Escolar\Noel
a dada altura fiz um trabalho sobre criar e educar em Santo Amaro, que entrevistei quatro grupos de pessoas com relação ascendência/descendência, portanto com vários níveis genealógicos, para saber o que é que passava de uma geração para outra. Está a ver? Das práticas educativas e tal. E o que é que acontece? Isto parece um paradoxo: quando há maior ruptura é com o alargamento da escolaridade obrigatória. Porquê? Porque o ensino primário era dado na aldeia. Mas depois o ciclo preparatório era dado na sede de vila. Na sede do concelho, que era a vila. E então, o que é que acontece? As crianças iam logo de manhã muito cedo para a vila, no transporte da câmara, e chegavam muito tarde e depois ainda com trabalhos de casa e coisas para estudar. Portanto, o serão - que era um espaço de sociabilidade e de transmissão de conhecimento, porque era de facto - deixou de passar de uma geração para outra. E aí é que é a maior ruptura nas práticas. Porque, muitas vezes, não há o bom senso e muitas vezes os professores também estão preocupados com a sua disciplina e nem têm em conta a vida das crianças.
Referência 2 - 0,50% Cobertura
na primeira reunião de pais do ano letivo de 2007/2008, houve um pai que disse "professor este ano temos aqui já uma proposta para fazer". Portanto, os pais a fazerem-me propostas, está a ver? Porquê? Quer dizer, o jardim de infância não era o domínio do educador, era de todos! E esta apropriação é muito importante. Então o que é que eles propuseram fazer? Era fazer uma coisa sobre a maneira como eram vividos os recreios no tempo deles.
Arquivos\Pré_Escolar\Olga
A receção dos pais foi muito boa. Na altura lembro-me que já comecei a tentar que os pais percebessem exatamente qual era a função do jardim de infância e o que é que se passava no jardim de infância. E fiz logo para aí no segundo ano, um dia aberto em que os pais iam e faziam a experiência de brincar com barro, com massa, com fogo, com pintura, fazer pintura com as crianças dentro do espaço do jardim de infância e explicar muito aos pais qual era a função, porque naquele contexto era muito assistencial. E o educativo tinha menos peso. E eu queria realçar mais a função educativa, de autonomia das crianças, do desenvolvimento delas e das experiências educativas nesse aspeto. Lembra-me que eles nunca tinham ido e os pais nunca tinham percebido, por exemplo, estávamos quase dentro da cidade e eles nunca tinham ido a um museu. E pronto, carreguei-os até ao museu (risos).
Arquivos\Pré_Escolar\Rita
O que mais marcou negativamente é quando os pais se esquecem dos filhos, deixam-nos ficar depois da hora e temos de recorrer à polícia.
Arquivos\Pré_Escolar\Rute
E eu ainda estive, eu estive muitos anos nessa localidade e tive experiências muito boas. Havia muito a necessidade, a vontade e dava-se muita relevância à participação das famílias no trabalho de um jardim de infância. E de facto, trabalhava-se de uma forma articulada com as famílias, mas não havia esta... era por necessidade, era porque se sentia que isso era uma mais valia para as crianças, para as aprendizagens das crianças e para o trabalho reforçado, digamos, não era tanto por estas imposições que eu sinto que agora há. Nessa altura abria-se as portas da escola à família mas não havia interferência da família na escola, não sei se me faço entender. Havia uma vontade de ambas as partes partilharem, cooperarem nesse trabalho conjunto. Agora, depois disso, acho que houve uma alteração na perspetiva e acho que as famílias começaram a querer também mandar, interferir no trabalho das escolas, não tanto numa perspetiva de participação, mas também numa perspetiva de ingestão e isto alterou um bocadinho a postura da escola face à participação das famílias.
Arquivos\Pré_Escolar\Tânia
Gostava muito das reuniões, como eu já lhe disse. A reunião do conselho da manhã e a reunião do conselho da tarde onde fazíamos o levantamento do que nós fizemos, o que ficou por fazer, as comunicações das coisas que fizeram. Entretanto, saiu aquela recomendação em 2021, do Conselho Nacional de Educação, sobre a voz das crianças e dos alunos. As minhas provas, que eu hei-de apresentar quando me chamarem - que entreguei dia 31 de Março. Eu ainda não me apresentei publicamente. Eu esqueci-me de dizer isto. Eu estou à espera. Eu espero que ainda este ano me chamem para apresentar. Tenho tudo feito. Tenho os power points, tenho tudo feito para apresentar. É sobre a voz das crianças e das famílias, no enriquecimento do currículo da educação de infância.