Histórias de Ensino e Formação

Histórias de Ensino e Formação






FINANCIAMENTO

FCT - Fundação para a Ciência e a Tecnologia
(Grant no. PTDC/CED-EDG/1039/2021)
https://doi.org/10.54499/PTDC/CED-EDG/1039/2021




COORDENAÇÃO

Amélia Lopes
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade do Porto
amelia@fpce.up.pt
http://orcid.org/0000-0002-5589-5265

Leanete Thomas Dotta
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade do Porto, Portugal
leanete@fpce.up.pt
https://orcid.org/0000-0002-7676-2680




EQUIPA

Amândio Braga Santos Graça
Faculdade de Desporto da Universidade do Porto
agraça@fade.up.pt
https://orcid.org/0000-0003-1539-4201

Ana Mouraz
Universidade Aberta
ana.lopes@uab.pt
http://orcid.org/0000-0001-7960-5923

Angélica Monteiro
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto
armonteiro@fpce.up.pt
https://orcid.org/0000-0002-1369-3462

Fátima Pereira
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto
fpereira@fpce.up.pt
https://orcid.org/0000-0003-1107-7583

Isabel Viana
Universidade do Minho
icviana@ie.uminho.pt
https://orcid.org/0000-0001-6088-8396

José João Almeida
Universidade do Minho
jj@di.uminho.pt
https://orcid.org/0000-0002-0722-2031

Luciana Joana
Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE), Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto
lucianajoana@fpce.up.pt
https://orcid.org/0000-0002-0869-3396

Luís Grosso
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
lgrosso@letras.up.pt
https://orcid.org/0000-0002-2370-4436

Maria Assunção Folque
Universidade de Évora
mafm@uevora.pt
https://orcid.org/0000-0001-7883-2438

Margarida Marta
Instituto Politécnico do Porto
mcmarta59@gmail.com
https://orcid.org/0000-0002-0439-6917

Maria João Cardoso De Carvalho
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
mjcc@utad.pt
https://orcid.org/0000-0002-6870-849X

Paula Batista
Faculdade de Desporto da Universidade do Porto
paulabatista@fade.up.pt
https://orcid.org/0000-0002-2820-895X

Ricardo Vieira
ESECS | Instituto Politécnico de Leiria
ricardovieira@ipleiria.pt
https://orcid.org/0000-0003-1529-1296

Rita Tavares de Sousa
Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto
rtsousa@fpce.up.pt
https://orcid.org/0000-0002-0919-4724

Sónia Rodrigues
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
srodrigues@reit.up.pt
https://orcid.org/0000-0003-0571-024X
FYT-ID Financiamento
DESIGN
José Lima e Pedro Meireis

PROGRAMAÇÃO
Pedro Meireis

Profissão Docente, Correções

I



Arquivos\1º Ciclo\Abel

Se nós temos um menino com autismo, podemos estudar as teorias todas do autismo... só que ele reage de uma maneira que não está em lado nenhum. Ele reage daquela maneira e nós temos de ter a capacidade de nos moldar e saber como reagir perante essa adversidade. Perceber, por exemplo... ainda há tempos estava a discutir isso com uma colega. Ela disse: "Um miúdo deu-me um pontapé". Se calhar, aqui há uns anos atrás, era capaz de dizer-lhe: "Dá-lhe uma palmada.". Depois, eu disse: "Olha, se ele te deu um pontapé, se calhar é porque gosta muito de ti.". Quando o menino nos faz isto na escola nós temos que perceber porque é que ele faz. Está a chamar a atenção? Ele teve um problema com os pais? As teorias estão lá, mas temos que ir à experiência buscar isso. E, às vezes, os colegas não querem.


Arquivos\1º Ciclo\Anita

Há uma colega que não quis ter turma e, por isso, está no apoio – é uma colega com mais de 60 anos. O que é que acontece? Eu penso que ainda é mais desgastante do que na situação que eu estou, porque ela apoia uma turma, depois vai apoiar outra, é capaz de mudar de escola para prestar serviços noutras escolas… e acabo por achar que ela, sendo mais velha do que eu, está-me a dar apoio a mim, nas minhas horas em que eu tenho redução. Eu penso que nem é muito lucrativo desta forma... penso que é muito melhor estar na turma e ter a redução de cinco horas do que pedir um apoio educativo para não ter turma e, depois, ter de abarcar esta, aquela, outra turma, até, inclusivamente, fazer uma substituição… acho que acaba por ser muito mais complicado. Penso eu.


Arquivos\1º Ciclo\Bruna

Naquela altura, nós trabalhávamos mais do que hoje, trabalhávamos com amor. Nós, se perdêssemos dez minutos do intervalo, logo de repente, recuperávamos, mais depressa, trabalhávamos com alegria. Nós gostávamos daquilo que fazíamos. Depois, quase ninguém nos questionava, nem perguntava o que é que se estava a fazer, como, quando, avaliação... Nós fazíamos uma avaliação diária, nós sabíamos o que é que os meninos sabiam, o que é que os meninos não sabiam, embora não tivéssemos registo, quase nenhum, da nossa realidade. Eu acho que nós trabalhávamos... Hoje em dia isto era impossível. Era impossível, hoje eu sair do meu centro escolar para ir tomar café com um colega meu a dois quilómetros. Primeiro, porque o portão está fechado à chave. Depois, toda a gente me questionaria o que é que eu iria fazer. Naquela altura não. Nós éramos muito mais felizes a dar aulas.


Arquivos\1º Ciclo\Carla

Na escola primária não tive só uma professora. Eu tive três professoras. Tive a tal da história da mão na mesa, que foi minha professora no primeiro ano e no segundo ano de escolaridade. Depois tive a tal [professora], no terceiro ano, que me deixou a cara arranhada - não acredito que ela tenha feito por mal, só não mediu bem as consequências. No quarto ano de escolaridade tive uma professora normal, nada de especial, nem muito boa, nem muito má. Quando andamos a estudar, temos professores de quem gostamos e de quem não gostamos. E a gente tenta agir com um bocadinho do filtro com o que se fez na altura, bom e mau. Portanto, todos eles tiveram influência. Os bons para fazer alguma coisa melhor e os maus como exemplo do que não fazer.


Arquivos\1º Ciclo\Carmina

Eu penso que nós somos professores, não somos pais. Apesar de que às vezes somos pais, professores, psicólogos, assistentes sociais - o professor do primeiro ciclo é muito isso.


Arquivos\1º Ciclo\Celeste

A nossa formação só acontece quando a teoria e a prática se fazem sentir.


Arquivos\1º Ciclo\Clara

Mas teve de ser, optei por me aposentar porque a lei ia mudar, como todos nós sabemos que mudou. E era muito diferente eu estar a trabalhar por prazer ou, de repente, faltarem 10 anos para a aposentação. E, para além disso, eu já estava a pagar para trabalhar. Porque na altura, quando nos apresentávamos, nós ficávamos a ganhar mais na aposentação do que ao serviço. Isto parece um contrassenso, mas é verdade. Porque deixávamos de pagar para a Caixa Geral de aposentações, baixávamos de escalão de IRS e foram cerca de 200€ líquidos que eu paguei por mês para trabalhar durante mais um ano. Mas foi com grande pena que me aposentei...


Arquivos\1º Ciclo\Clotilde

Não é uma profissão que a gente saía do trabalho e acabou. Estamos sempre a pensar "olha, fiz isto e não devia ter feito, podia ter feito aquilo". Pronto, e o facto de termos um grupo sempre como suporte, de professores com quem nós podemos falar, a quem nós podemos pedir ajuda e perguntarmos como é que fizeste? Por que é que a mim não resultou isto? Ajudar-nos a pensar porque é que as coisas não resultam, porque é que resultam a outros? O que é que faltou ali para não resultar, não é? E ao mesmo tempo também irmos percebendo o nosso caminho, o nosso processo. Porque se aquilo que nós fazemos é um processo com os miúdos também tem que ser acompanhado pelo nosso andar, o nosso processo.


Arquivos\1º Ciclo\Gabriela

Acho que houve dois marcos muito importantes até, mais ou menos, ao ano 2000, em que era uma escola sozinha praticamente, com quatro anos, em que se vivia muito em comunidade local, na comunidade onde dávamos aulas, portanto, tínhamos de fazer amizades e vivíamos quase o tempo inteiro com essas pessoas. Tanto que íamos, portanto, agora não se podia pensar numa coisa dessas, mas antigamente íamos à igreja com as crianças, com os avós, portanto, havia uma festa na igreja. Agora nem sequer podíamos. Agora, se um miúdo é de outra religião e não quiser participar na festa de Natal, não participa. Portanto, naquela altura nós não perguntávamos se era ou não era. Se havia uma festa na aldeia em que os pais achavam que devíamos ir com eles à igreja, nós pegávamos nos miúdos da escola e íamos. Portanto, a responsabilidade era nossa e era dos encarregados de educação. Podíamos sair da escola quando queríamos. Tendo justificado que estávamos na aldeia e os pais sabiam, não é? Eu lembro-me muito bem dessas saídas assim. Na altura da festa das castanhas, íamos com os miúdos ao pinhal, apanhávamos a caruma para fazer o magusto na escola, íamos com os encarregados de educação, portanto tínhamos quase liberdade para fazer com aquelas crianças ocupar o dia, na escola a tempo inteiro ou, de vez em quando, saíamos. Portanto, isso era muito bom e convivíamos muito com a população local. Portanto era engraçado. Agora, depois dos agrupamentos, esta mudança, depois desta legislação, era tudo controlado. Eu acho que foi aquilo que mais me chocou. Foi uma diferença tão grande entre antes de 2000 e depois de 2000. Mas sempre tive boa relação com as pessoas e nunca tive problemas.


Arquivos\1º Ciclo\Gaspar

Entrevistadora: Foi a política da escola a tempo inteiro, que não foi tão benéfica na visão do professor G.

Gaspar: Para mim não foi. Não foi porque os alunos são diferentes. Ultimamente e cada vez mais, às vezes comentamos entre todos, a situação se degrada ano após ano. Os miúdos não.... Como dizer, os professores titulares eles respeitam e sentem-nos como professores. Com os outros professores, [os alunos] pensam que podem fazer tudo. Tem sido uma autêntica.... Concretamente na minha escola, ultimamente os alunos, em relação aos professores das AEC, sei lá o que é que eles fazem. Depois, o professor titular é que tem que resolver os problemas de comportamento no dia seguinte, daquilo que ocorreu no dia anterior.


Arquivos\1º Ciclo\Gisela

Digo muitas vezes, para mim não há profissão mais bonita do que a nossa. Não há.


Arquivos\1º Ciclo\Graziela

Eu sei que é difícil, a Escola, hoje em dia. Mas no meu tempo, pelas histórias que eu já lhe contei, e outras que até me passaram, também viu que também não foi uma vida fácil.


Arquivos\1º Ciclo\Ilda

Eu acho que a profissão ou é esta descoberta, permanente, até ao fim, de como as crianças aprendem, ou então é uma coisa horrível, é um sofrimento.


Arquivos\1º Ciclo\Inês

Acho que os professores de hoje – eu falo com colegas – estão fartos da escola. Acho que está tudo muito farto da escola, porque passam muito tempo na escola a fazer papéis e têm muito menos tempo para os alunos. Toda a gente está a dizer: “Ai, nunca mais me reformo”. “Eu estou farto da escola”. “Eu estou farto dos pais”. É uma pena!


Arquivos\1º Ciclo\Irene

Portanto, os trabalhos são tantos e tão cumulativos que é muito difícil não afastar as pessoas daquilo que são as turmas. Quando nós temos muitas coisas para cumprir e para fazer, é impossível conseguirmos fazer tudo, não é? E muitas vezes é o trabalho com os alunos que é prejudicado, faltando-nos disponibilidade para pensarmos melhor e para nos formarmos melhor, para fazer evoluir os alunos, fazer aprender os alunos e isso às vezes também torna muito desgastante a vida de professora. E é pouco atrativa. É preciso termos um grande suporte.


Arquivos\1º Ciclo\Mara

A questão dos sindicatos nunca foi um lado que me encantasse muito, nem nunca andei muito envolvida nisso. No entanto, pouco tempo depois de começar a trabalhar fui sindicalizada – não perguntem em que sindicado: os dois maiores eu confundia-os sempre, porque, realmente, eu nunca liguei muito a essas questões. Mas fui sindicalizada até ao momento da Licenciatura. Quando me deparei com esta questão da Licenciatura e questionei o sindicato a que pertencia - o porquê de nunca falarem em opções, proporem opções ao Ministério da Educação, como eu até dizia, há bocado eu referi - e me disseram que não, que achavam bem a situação que estava, eu dessindicalizei-me, na altura. E até hoje nunca mais me sindicalizei em sindicato nenhum. Estou de acordo, muitas vezes, com muitas situações que propõem para greves, mas não faço greves. Nem sou apologista, porque vejo que – eu fiz uma ou outra, mesmo não sendo sindicalizada, fiz algumas, e uma delas já há muitos anos, não interessa – quando fiz e vi que havia uma adesão fantástica, até hoje nunca tinha havido uma adesão tão grande, e mesmo com essa adesão de professores nada foi conseguido…e, de certa maneira, eu culpo os sindicatos, porque também têm a sua quota-parte de interesses políticos, e compreensivelmente. Mas eu não entro nesses jogos, e vejo que há muitas coisas que têm mais interesses do que propriamente o bem-estar das pessoas. Não estou a dizer que muita coisa não tenha sido conseguida, através da luta que os sindicatos fazem, mas acho que às vezes não é tão proveitoso quanto aquilo que poderia ser. Não é. Sinceramente, não estou muito à vontade para falar disso dos sindicatos.


Arquivos\1º Ciclo\Mónica

Eu acho que a profissão está desgastada. Eu estou desgastada. As pessoas com a minha idade, a maior parte, estão fartas, posso dizer assim. Mesmo as malucas estão a ficar fartas de tudo porque batem com a cabeça e depois [é]: “Ah, sim, sim, sim”; depois todo o trabalho que fizeram é desvalorizado e não é tido em conta. E depois há aquela parte… não somos considerados... O trabalho que nós fazemos não é considerado, nem pelos pais, nem pelos colegas dos outros níveis de ensino, então nem se fala pelas direções.


Arquivos\1º Ciclo\Morgana

Eu acho que há aqui uma produção cultural neste ato de ser professor e de trabalhar com as crianças e com toda a gente.


Arquivos\1º Ciclo\Nélia

E então eu defendo um bocadinho a monodocência nesta fase de desenvolvimento dos miúdos, não quer dizer que a partir já de um terceiro ou quarto ano as coisas não pudessem já ser um bocadinho mais abertas. Começarem, por exemplo, já a ter o professor de inglês. Podia vir um outro professor de outra a disciplina, também, para não haver aquele corte radical de estar sempre com o mesmo professor. E chegam ao ciclo e, apesar de neste momento, com a cidadania e desenvolvimento, o apoio ao estudo, o diretor de turma já passar muito mais tempo com eles, eles têm esse elo de ligação com o diretor de turma porque passam mais horas com o diretor de turma, mas de qualquer maneira, eu penso que a nível do primeiro ciclo também se poderia fazer isso, num terceiro ou quarto ano. O facto de termos começado a generalizar a documentação acabou retirar algumas características específicas à monodocência e de se pensar tanto nesta parte afetiva como se devia.


Arquivos\1º Ciclo\Roberta

Eu não tenho nenhum partido. Nem nunca pertenci a nenhuma organização nem nada de nenhum movimento. Sou de esquerda e sempre que entendi que devia fazer greve, fiz. Eu sou sócia do SPGL e sempre fiz greve. Aliás, na nossa escola, nesta escola onde eu estou agora, houve uma altura em que praticamente todos os professores faziam, e a escola fechava porque tínhamos todos os mesmos princípios e, portanto, se havia razão para fazer greve, se achávamos que havia, fazíamos todos. Às vezes havia uma ou outra pessoa que não fazia ou que fazia porque não queria trabalhar sozinha. Neste momento eu estou um bocado farta dessa luta, embora tenha feito greve agora no dia 16, quando a FENPROF fez. E eu fiz greve com vontade. Eu acho que toda a luta é justa, mas eu estou muito cansada e estou farta de descontar dinheiro - porque eu fiz greves a vida toda - e o que eu vejo à minha volta é que toda a gente está a refilar. Mas do que eu vejo, pelo menos à minha volta, só as pessoas de idade é que fizeram greve e isso fez-me um bocado impressão. Só eu e outras pessoas tão velhas como eu, ou mais velhas, fizeram greve. Fomos quatro e desses quatro, só dois têm turma, portanto, só duas turmas foram afetadas. As outras seis turmas trabalharam e as outras seis turmas têm professores novos, entre os 30 e os 40, que estão cheios de problemas mas que não fizeram greve, embora tenham ido à manifestação e tenham refilado, mas não fizeram greve. Claro que se justificam com a falta de dinheiro, eu também quando faço greve também perco dinheiro. Claro que perco mais, porque ganho mais. Mas eu sei o que é perder dinheiro e sei o que é estar aflita por dinheiro, porque muitas vezes estive com falta de dinheiro ao longo da minha profissão. Nem sempre o meu marido trabalhou, e houve alturas em que tinha mesmo muito pouco dinheiro, portanto eu sei o que isso é. Mas fico triste de sermos só nós, os mais velhos, a fazer greve nesta altura do campeonato. Eu pensava que dava agora a vez aos mais novos. E, não sei, vamos ver, isto agora se calhar vai mudar um bocado. Eu acho que as pessoas estão a acordar e se calhar agora vai haver mais gente a fazer greve. Mas eu acho que as razões são todas justas. Não sou a favor desta greve de todos os dias nem nada disso, mas por exemplo, aquela greve que era de todos os sindicatos entristeceu-me termos sido só nós a fazer.


Arquivos\2º Ciclo\Adelina

Tem que haver aqui algumas preocupações em valorizar melhor esta profissão. Pronto, de resto, assim aquelas questões mais negativas já apontei um pouco, eram estas questões de nós estarmos sempre a mudar de escola para escola, estarmos a andar de um lado para o outro e, como sabe, há situações ainda bem mais complicadas do que está, que são pessoas que têm que ficar a viver num determinado lugar e em que os vencimentos não dão para as pessoas conseguirem fazer vida nesses lugares. Depois, saber que no ano seguinte as coisas vão se modificar e, portanto, as pessoas não podem ter vida com esta forma de colocação de professores. Depois, toda a dinâmica de trabalho, de escola e da forma como se ensina. Tem que haver alterações significativas, senão as coisas também não chegam lá.


Arquivos\2º Ciclo\Alda

Há uma grande diferença em relação ao princípio. Ou seja, a gente dava aulas e gostava de dar aulas. O nosso projeto - na altura não se falava em projetos - era cada aluno. Cada aluno era um projeto. Era mesmo tudo centrado no aluno, em termos de trabalho. Nós, enquanto docentes, podíamos organizar muito bem a nossa vida, porque obrigatoriamente só tínhamos que estar na escola quando estávamos a dar aulas. O trabalho administrativo, tirando [o de] receber os pais, mas, por exemplo, preparar aulas, preparar coisas para a direcção de turma, podíamos fazer tudo em casa.


Arquivos\2º Ciclo\Aldina

Nós hoje, dentro da profissão, em cada meio, sabemos "Olha, não concorras para aquela escola. Olha, não concorras para aquela escola". Continua a ser assim. Eu não tinha muita informação, concorri para a Ajuda, era uma escola normal, com meninos de bairro pobre e com meninos do Restelo, que nivela mais por cima as turmas. A verdade é que eu tinha um horário de 12h, o que era bastante leve e, portanto, para quem inicia profissão é leve, era um meio horário - na altura os horários estavam a 22h em presença, portanto, eu tinha um horário de metade - e no final da primeira semana eu dei comigo a pensar "eu não vou fazer mais nada". Porque foi uma paixão que nasceu naquela altura, naquela semana. Eu lembro-me de ter duas turmas, uma de meninos de nível mais baixo e com mais dificuldades de aprendizagem e outra com meninos mais puxados pelos pais. E pronto, quer dizer, isso continua a ser a imagem do que é hoje. Toda a minha vida eu continuei a ter turmas - o acaso faz isso, não é? - turmas de meninos de bairro e turmas de meninos com um nível social mais elevado, o que faz com que os pais puxem e faz também com que eles tenham a quem responder.


Arquivos\2º Ciclo\Cecília

Mas vai ser um percurso difícil, porque, mesmo se olharmos para uma sala de aula – nós falamos em articulação e flexibilidade curricular, falamos que as coisas devem mudar, mas continuamos a ver uma sala de aula em “comboinho”. Falamos em mudanças de prática - nós olhamos para legislação e vemos, efetivamente, que a legislação nos pede coisas diferentes. Depois, vemos que as coisas afunilam. É tudo muito bonito, olhamos e temos vontade de mudar tudo. Depois, chega-se a um décimo primeiro ano e a um décimo segundo ano e há, efetivamente, exames nacionais. Vemos que os alunos, em 150 minutos, decidem ali muitas coisas. Depois, vemos a preocupação dos pais. Depois, tentamos que os pais percebam…


Arquivos\2º Ciclo\Constança

Mas fazendo um balanço, não me arrependo de todo, portanto foi uma escolha mesmo por gosto.


Arquivos\2º Ciclo\Esmeralda

Nós temos uma profissão algo ingrata porque o nosso feedback é tardio. Às vezes recebemos no recreio, com a população escolar que eu tenho, eles entram na adolescência e depois têm vergonha de mostrar os afetos. Às vezes recebemos no recreio, nos anos seguintes, os abraços de “ai que saudade professora” porque eles transitaram, sobretudo porque há uma prática pedagógica, já lhe tinha dito, de continuidade, de quinto para sexto. Este ano estou num ano anormal, já lhe explico porquê. Fiquei outra vez com os sextos [anos]. Mas quando eles se tornam adultos é que eles têm depois coragem de nos dizer até que ponto nós os marcámos.


Arquivos\2º Ciclo\Fátima

E eu reconheço que tive alunos que eu consegui incentivar a fazer este tipo de experiências e de percursos, entre os quais os meus filhos - porque eles estiveram sempre comigo no Clube Europeu, comigo e com os outros colegas que estiveram comigo. Mas os últimos anos comecei a ficar muito desiludida: um desinteresse muito grande da parte dos alunos, um faz-de-conta, os pais não era a querer que os filhos tivessem boas notas, mas que passassem de ano…e isso desiludiu-me, e foi uma das razões que me fez sair logo que fiz 38 anos de serviço. Pedi a reforma no dia a seguir a que fiz 38 anos de serviço. Foi no dia 7 de outubro, no dia 8 de outubro meti os papéis. E pronto, fiquei penalizada, mas eu…não sei, eu penso que hoje – eu também não estou na escola, mas ouço testemunhos de colegas – os colegas estão muito desiludidos, muito cansados, com muito trabalho burocrático…ainda há dias um colega me dizia: “temos tantos papéis para preencher que deixamos de ter tempo para os alunos.”.


Arquivos\2º Ciclo\Fernanda

Ah, meu Deus é muito, eu acho que talvez… O diretor de turma é para mim o cargo mais difícil da escola, mais difícil, mais trabalhoso, mais exigente, mais doloroso.


Arquivos\2º Ciclo\Glória

Claro que efectivei imediatamente [risos] porque as vagas estavam todas por preencher, naquela altura só os tontos é que iam fazer estágio, porque era uma coisa dolorosa [risos]


Arquivos\2º Ciclo\Iva

Porque o ensino não é só o conhecer, não é só o conhecimento. O ensino é um conjunto de coisas que vão para além do conhecimento científico. Eles precisam de saber relacionar-se dentro da escola. Eles precisam respeitar os outros. Isso vai-se ensinando e isso vai-se praticando. Hoje isso não se pratica. Ninguém liga a nada. É um bocado assim.


Arquivos\2º Ciclo\Joca

Acho que foi uma carreira simpática, muito agradável, difícil algumas vezes, como não podia deixar de ser. Mas, e porque também, e principalmente, estou a dizer isso, principalmente porque ingressei de facto numa escola fantástica.


Arquivos\2º Ciclo\Maria Luís

Aí a escola para mim deixou de ser o encanto. Ensinar era aquilo que eu queria e era aquilo que eu não podia fazer praticamente. Começou a surgir um número de papelada, de relatórios, de papéis, de diretora de turma. Davam-me, às vezes, duas direções de turma. Ah, porque tu tens perfil para isto. Eu tenho perfil, mas estou cansada disto. Eu estou cansada e a direção de turma era uma burocracia.


Arquivos\2º Ciclo\Orlanda

Uma necessidade, a formação contínua, sim, sim. Muito, muito, muito importante, porque uma pessoa, nem que tire uma Licenciatura via Ensino, se não fizer formação contínua, quer dizer… isto é tão dinâmico, evolui de uma maneira que, às vezes, nós até temos dificuldade em acompanhar, se não fizermos formação constante… e até a reflexão individual dos documentos é formação. Era o que eu dizia muitas vezes aos colegas: a reflexão individual dos documentos é formação. Portanto, apostei muito nisso e acho que é uma diretiva, digamos assim, que eu sempre apostei nos colegas.


Arquivos\2º Ciclo\Quitéria

Por isso lá está, são os alunos que nos calham, são as pessoas que nos calham e é uma questão muitas vezes de sorte.


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Agustina

Não podemos ser uns meros prestadores de serviços, pressionados por rankings e famílias.


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Amadeu

Eu acho que o exercício profissional sempre foi uma coisa boa. Eu não vejo os professores com má vontade ou com falta de profissionalismo. Vejo-os com uma ação à medida do que sabem, mas sempre bem intencionada e sempre laboriosa. Não vejo tanto os professores a descuidar-se, a baldar-se. Nunca tive essa perceção. Claro, os professores trabalham à medida daquilo que sabem.


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Amélio

Naquela altura, ia ser modificado o período de serviço, o tempo de serviço necessário para ir para a aposentação, ia passar para 65 anos e eu achava que 65 anos era muito tempo para se lecionar. E porque acho que a profissão de professor é extremamente exigente. Embora as pessoas exteriores à escola não entendam isso, acham que é uma vida fácil, mas não é. É uma vida muito, muito difícil. É muito duro. Fiquei por lá.


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Caetana

Eu penso que na verdade os professores nunca foram muito reconhecidos, portanto... depois a grande maioria são mulheres e muitos são da província, portanto, ao fim de semana vão para a terra, vão aos pais, vão aos avós, vão... E eu era de Lisboa, não tinha família nenhuma. A minha cidade era Lisboa, os meus pais eram de Lisboa, e nunca tinha terras nenhumas para ir. A minha vida era feita por aqui e, portanto, nunca tive essa necessidade de sair, do ir, do não sei quê...e isso tornava-me mais presente


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Camila

Mas a pessoa depois aprende é com a prática, eu acho que para se conseguir ser bom professor, como qualquer bom profissional, é preciso gostar muito do que se faz, gostar dos destinatários, enfim, da nossa profissão, e depois ter a preocupação de se manter atualizado. E de ter um bocado a noção de que se aprende. Também eu fartei-me de aprender com os alunos.


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Catarina

Mas, num certo sentido, olhe, foi por duas razões. Uma porque era a via mais fácil do que estar a entrar para o colégio, para ir para a via diplomática e não sei quê, e eu achava que não tinha lá muito jeito para isso. E outra, foi porque realmente gostava de crianças ou achava, na altura, que gostava muito crianças e fui entrar exatamente para as crianças, porque pouco antes de eu começar a dar aulas, o ministro - já não me lembro qual - foi o melhor ministro até antes do 25 de Abril: Veiga Simão. Ele tinha criado o ciclo preparatório como obrigatório, isto é, as crianças deixavam de ter só obrigatória até à quarta classe sua escolaridade e passavam a ter mais dois anos que eu penso que foi, julgo eu - isto já é a parte filosófica a raciocinar - julgo que este aumento da idade e dos anos de ensino se deve muito ao facto de que as coisas estavam a evoluir e eles precisavam cada vez mais de mão-de-obra qualificada e a quarta classe só por si não dava isso. Portanto, o Veiga Simão, na altura - ele aliás, veio a ser mais tarde, outra vez, ministro da Educação, penso eu, já no tempo de Mário Soares - teve essa visão e o ciclo apareceu, o tal ciclo preparatório. E eu, comecei por aí porque achava que as crianças é que eram, mas são muito cansativas [risos]. E depois fiz estágio no secundário e depois passei a dar Filosofia, Psicologia, Sociologia na área toda do secundário, isto é, 10º, 11.º, 12.º [anos de escolaridade]. Mas o que eu gostava mais, sinceramente, até era de dar Filosofia no 12.º ano [de escolaridade], no primeiro programa, que era um programa que eu achei absolutamente fabuloso. O último programa que eu lecionei já era, bem, não é isso que com certeza quer ouvir, mas eu já não gostava. Não sei se é isso que quer ouvir…


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Célia

Eu, às vezes, imagino estes professores já de uma certa idade, que estão agora nas escolas com 60 e muitos anos de idade. Penso no que eles sentem. Eu falo com alguns que pertencem à associação. Os professores estão esgotados, esgotados. O comportamento dos pais também mudou.


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\César

Desde logo, a entrada na profissão. O Ministério acaba por escolher os piores, isto é, pela forma como escolhe, por questões meramente de nota académica. Eu não sei se há algum estudo, mas penso que há. No início de 1990, os piores alunos à saída do secundário foram os melhores alunos do ensino superior em cursos de ensino, principalmente, em estabelecimentos não públicos. Com o boom do ensino superior, com o crescimento do ensino superior, os cursos fáceis, que começaram a aparecer disseminados, por quase todo o lado, foram os do ensino. Bastava um local, uma sala, mesas, cadeiras, um quadro e algum corpo docente. Isso começou a acontecer. Selecionar professores apenas por uma nota académica acho que foi a pior coisa. Outra coisa é [relativa à] carreira. Somos das poucas carreiras sem qualquer categoria, sem qualquer categorização. Acho que faz falta. Não somos todos iguais. Devia haver uma carreira dos educadores, outra de professores do ensino básico, outra dos professores do ensino secundário, à semelhança do que é o Estatuto do Ensino Superior Politécnico e do Ensino Superior Universitário, são realidades diferentes. Depois, dentro da carreira, eu acho que deveria haver categorias. Por exemplo, hoje, quem é avaliador pode ser avaliado por um avaliador que foi seu avaliado. Esta mistura não é boa. Eu acho que o currículo... Continuamos a procurar, ainda, por definir o que é o currículo, qual é o melhor currículo. Andamos atrás de corporativismos, interesses corporativistas. Eu acho que há horas a mais, também porque, se calhar, aquela área puxou para si horas, aquela puxou horas e depois para as tirar já é um caso sério. Isto começou a ficar cada vez maior. Os alunos passam tempo a mais na escola. Ainda hoje, por exemplo, no caso da Matemática, andamos à procura do melhor programa, do melhor currículo. Os programas quase nem são avaliados ou monitorizados e já estamos a preparar um novo programa. De facto, poderia hesitar em ser professor, mas fico pelos alunos. Não conseguiria noutra profissão ter esta componente humana. Agora, de resto, de aliciante não terá assim muito mais.


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Clorinda

Estou a ver os marcos... Sabe o que é que eu lhe digo? Fazendo esta travessia toda e chegando até hoje, é pena ver que muita coisa mudou, ao nível externo, mas na essência, o professorado, o ser professora, o respeito pela figura - figura que é uma profissão. Acho que ser-se professor é uma profissão especial. É uma profissão que tem líderes que trabalham - não com adultos - com as crianças que vão ser o Portugal de amanhã.


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Eva

Porque é assim, hoje a pessoa vai para um curso e depois vai fazer uma coisa completamente diferente. Na altura não havia muito essa ideia, tirava-se aquele curso e depois eram os cursos para a vida. Por isso eu sabia que entrar naquele curso dificilmente seria outra coisa que não professora. Mas eu, até ser professora, não pensei muito nisso, "depois logo se vê".


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Hélder

Foi duro, mas fascinante também. Criaram-se relações como vocês agora também criam. Criaram-se relações que persistem e são duradouras. Colegas que são professores na Universidade do Porto, professores de literatura e linguística, tudo isso são do meu tempo e a gente continua - alguns já estão aposentados também- e a gente continua com essas ligações. Agora, não foi fácil, não foi.


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Ivone

Aquilo que eu guardo sempre como eu acho que é a realidade em qualquer função, em qualquer profissão, é que há dias bons e há dias maus.


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Joana

O trabalho interdisciplinar transversal, todos nós o sentíamos como um trabalho que era um bluff, não tinha efetividade, só na teoria. Uma Matemática trabalhada transversalmente é muito mais eficaz e permite uma visão muito mais abrangente aos alunos, mas era quase impossível.


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Lara

O melhor [da profissão] é a relação humana, o contacto e a gratificação de nós sentirmos que fomos responsáveis e somos responsáveis por ajudar a construir uma sociedade. E isso é a coisa mais importante.


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Luciana

Eu não estive em muitas, não tive muitas e sou daquelas que andei pouco tempo [de escola em escola]. Portanto, estive na escola do Monte da Caparica, três ou quatro anos seguidos, que íamos renovando com os mini-concursos. Depois fui fazer estágio para Alcobaça, para a Escola de Q.. Estive dois anos, o nosso estágio eram dois anos.


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Maia

Eu acho o trabalho dos professores uma coisa tão… Primeiro, bonita. Depois, tão extraordinária, que eu não percebo como é que esta profissão não é mais valorizada.


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Maria

O professor, se não tivesse ali valências na escola, esqueça. E depois, o que é que eu acho enriquecedor na escola? É haver outras valências de estágio porque as pessoas ganham muito umas com as outras


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Matilde

É uma ideia que eu tenho, que tem a ver com uma situação que, infelizmente, mais tarde começou a acontecer... nessa altura os alunos, não havia assim este problema disciplinar que passou a haver, que era um problema disciplinar que se tornou grave, mas, portanto, nessa altura esse caso era uma exceção. Quando eu comecei a trabalhar não havia nada disso, esse rapaz foi uma exceção.


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Otávia

Como coordenadora, o que custava mais era no final de tudo - eu percebo porque é que existiam - eram os relatórios. Relatório disto, daquilo, mais um relatório [...] Coisa que não acontecia no tempo... Compreendo que se façam, pois é uma maneira de obrigar o professor a trabalhar, mas eu não preciso que me obriguem a trabalhar. Eu não precisava de fazer esses relatórios. É uma maneira de dar conta do trabalho feito. Os professores são muito massacrados nesses aspetos. Mas foi compensador porque não havia problemas.


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Rómulo

A experiência que tenho de S.I.A é de facto uma diretora que faz aquilo que eu acho que todos os diretores deveriam fazer, que é pôr as pessoas a trabalhar em grupo. Portanto, nós trabalhávamos em grupo, fossemos novos, fossemos velhos, ela formava os grupos.


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Teresa

Depois temos que estudar, pois temos muita coisa por trás do aluno, nós temos o aluno que tem muita coisa, traz muita coisa para a escola. Realmente o nosso país nunca valorizou muito a educação e eu acho que é uma questão cultural a não valorização da escola. Portanto, isto já vem de muito atrás, porque nós ainda não temos condições para se valorizar a escola. E foi aí, quando andei lá pelos domicílios, que eu realmente contactei com essa realidade.


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Tita

Eu tinha quinto e sexto ano, cheguei a essa escola… a senhora diretora... fui-lhe perguntar quantos alunos tinha, e ela disse-me que eram os que aparecessem…e eu esperei que viessem. Vieram cinco ou seis. Entretanto, aparece lá o senhor inspetor. Eu era um bocado irreverente com isto tudo. O senhor inspetor era daqueles, eu não vou dizer o nome, mas era conhecido, chapelinho de coco, aquelas descrições que certamente já não é do seu tempo, mas no meu era assim…


Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Virgílio

O trabalho do professor em casa é fundamental e eu tenho muita pena que o Ministério [da Educação] não perceba isso. O Ministério [da Educação] acha que os professores são preguiçosos. Acha que os professores são preguiçosos e não são. Eu, com quase 40 anos de serviço, foram poucos os colegas que eu vi que realmente não [se esforçarem] ... Havia aqueles que cumpriam o seu trabalho, mas a maior parte era muito dedicada. Se não fosse assim, estes miúdos não iam a lado nenhum e, por isso, eu acho que os professores são bastante dedicados e gostam imenso dos alunos.


Arquivos\Pré_Escolar\Adelaide

A nível da progressão da carreira, houve ali muitos entraves e eu ficava sempre no lado de trás... e eu balizava-me muito - era eu e uma colega de trabalho, de curso, que ficou sempre muito minha amiga e o meu marido, em termos de progressão na carreira, andava sempre um bocado à frente porque tinha começado uns meses mais cedo, eu era meio ano atrás e a minha colega meio ano atrás. Em determinada altura, desde que começou esta história toda da divisão da carreira e da alteração do estatuto da carreira, vi o meu marido avançar enormemente... passou logo para escalões que eu ainda não estou lá. Vi a minha colega atrás e eu ali, muito perto dela sempre, e achei uma injustiça muito grande.... em nada fazia prever que era isto que ia acontecer.


Arquivos\Pré_Escolar\Ana Rosa

Houve momentos politicamente graves. Nunca estive, nunca estive lá. Sou sindicalizada, sempre fui sindicalizada, mas nunca fui… fui a uma manifestação em Lisboa. Foi há muito, já nem me lembro. Penso que ali estaria em causa a carreira única, qualquer coisa assim. Mas nunca estive assim muito ligada a essas… como lhe digo, sou sindicalizada, mas nunca tive, nem nunca fui muito de andar nessas reuniões. Eu acho que o nosso terreiro foi sendo valorizado ao longo do tempo. Valorizado em termos monetários - que, às vezes, não são os mais importantes. Também houve uma altura em que o descrédito nos caiu um bocadinho por terra. […] Não sou assim uma pessoa de garra e porque devíamos ganhar X ou Y não […] vejo que há pessoas que estarão bem pior que eu, por isso... mas, claro, reconheço que houve momentos importantes na carreira. A carreira de professor foi muito valorizada e houve uma altura em que nós, até posso considerar, tínhamos um bom ordenado. Não sei precisar datas. Como digo, não sou assim muito ligada a essas coisas. [Neste momento estou no fim da carreira]. Não fui das pessoas mais afetadas pelo congelamento, mas reconheço que há colegas que foram muito, muito prejudicadas, muito afetadas […].[…] acho que as colegas têm imensas dificuldades pela questão do início de carreira e têm que se deslocar para muito longe, como foi o caso deste ano. Acho que perdeu-se um bocadinho, mesmo o valor monetário. As pessoas têm que se deslocar para longe. No fundo, estão a trabalhar para pagar a casa para trabalhar…


Arquivos\Pré_Escolar\Gracinda

Ao longo dos anos, isso vai-se diluindo e nós vamos ganhando também a nossa própria forma de ser e de estar na educação.


Arquivos\Pré_Escolar\Guiomar

Às vezes as capacidades não são capacidades, eu acho que são mais a vontade da pessoa propriamente do que a capacidade... capacidade todos temos. Enfim, nós temos, todos temos... agora podemos ter mais ou menos vontade e podemos ter ferramentas... umas vezes mostra outras vezes não mostra para não ter muito trabalho.


Arquivos\Pré_Escolar\Mariana

Por isso eu penso que a nossa geração, que a minha geração valorizou, por isso, um espírito colaborativo entre todos, porque nós também não sabíamos o que era.


Arquivos\Pré_Escolar\Nena

A educação é o bode expiatório de toda a gente, já reparou? Todos os comentadores políticos, todos os jornalistas, os pais, os ministros, toda a gente tem uma coisa a dizer sobre a educação. Mas ninguém diz sobre os médicos, não é verdade? Eu acho demais.


Arquivos\Pré_Escolar\Noel

E foi assim criar sempre esta perspetiva de que a educação é global. Não é só dos senhores educadores ou das senhoras educadoras. Quer dizer, não, é uma coisa que envolve a comunidade toda, a comunidade deve ser envolvida nisso.


Arquivos\Pré_Escolar\Olga

É verdade que nós envelhecemos, e o que eu sinto é que não tem havido renovação de gerações. Os colegas novos entram já neste sistema que já está construído... e não realçam.. Não quer dizer que o trabalho não seja bom. Atenção, não têm é o mesmo realce que tinham.


Arquivos\Pré_Escolar\Tânia

Por exemplo, podem ser professores de primeiro ciclo ou educadores de infância. Eu disse: "quando vocês estiverem numa situação em que os pais digam 'o meu filho está completamente de rastos porque eu acabei de me divorciar e ele não está a entender isto. Por favor. Ele não está em condições de ir. Ele tem que ir para a avó. Quais são as páginas do livro? Vocês têm que fazer isto!". Tento passar aquilo que é essencial da relação, não só profissional, mas a relação pessoal que nós temos que cuidar. Cuidar é uma palavra muito importante.

| B9.3 |