I
Visões sobre os alunos expressas ao longo da entrevista
Arquivos\1º Ciclo\Abel
Eles têm respostas... por que é que têm que decorar coisas? Por que é que tem que estudar pelos manuais? Quando eu quero saber o que é um réptil, eu não preciso de ler o livro, nem preciso decorar aquilo. Vou ao tio google e o tio google diz-me a resposta.
Arquivos\1º Ciclo\Anita
Digo-lhe que, se for falar com colegas, que provavelmente vai falar, há sempre meninos com muitas problemáticas associadas, que não me lembro de, outros tempos, nada disto ter acontecido... agora, em todas as turmas, as próprias funcionárias da escola: “Professora, prepare-se, vêm meninos mais difíceis do que aqueles” – normalmente são os que vêm do pré-escolar – “Prepare-se que a próxima turma ainda vai ser pior que a que tem agora”. Portanto, a nível comportamental, a nível das aprendizagens, as coisas não têm melhorado, pelo contrário... os meninos têm tudo... têm quadros interativos, têm aulas digitais atrativas… mas pronto, não está a chegar.
Arquivos\1º Ciclo\Carla
Houve um menino que eu tinha mandado sentar e ele não sentou. Então, eu cheguei por trás, baixei-o e sentou-se. O ano em que tive que usar mais a força foi quando trabalhei com os ciganitos. Gostei de trabalhar com os ciganos. Para mim, os ciganos não são problema. É como digo: "Não faz diferença, sejam pretos ou sejam brancos, sejam ciganos ou não seja ciganos!". Eles respeitavam. Mesmo em termos de pais não houve problemas com os ciganos. Eu já aturei outros não ciganos muito mais complicados do que os ciganos. Há alguns garotos que não sendo ciganos, são muito piores que ciganos. No entanto, às vezes, as brigas entre eles acabavam por nos obrigar a ter de tomar uma atitude mais dura. Eu lembro-me, por exemplo, de uma das ciganitas que entrava e era capaz que lhe desse uma coisa na telha - ela também tinha uma telhazinha esquisita - e deitava-se no chão a espernear e a berrar. E nós vamos tendo de ir arranjar estratégias para trabalhar. Se calhar, a coisa menos bonita que guardo de recordação foi um pai que chegou a dizer: "Esta escola é uma merda! Os professores são todos uma merda!" Como é um aluno, filho de um pai assim, pode portar-se bem?
Arquivos\1º Ciclo\Carmina
Os meus alunos estão a ter aulas de natação na piscina ao pé da escola. No outro dia um disse: "A minha mãe não pôs a touca!" - sem touca não podem ir para a piscina. Eu disse: "A sua mãe?" - um menino do 4.º ano! Entretanto, a mãe do menino apareceu e pediu desculpa. Eu disse à mãe: "Não é você que tem de o fazer! Pode ir lá vigiar depois, mas é ele que tem que cuidar das coisas. Está no 4.º ano, vai para o 5.º ano. É uma grande mudança. Ele vai ter de enfrentar!" E ela disse-me: "Tem razão professora". Elas dizem sempre que eu tenho razão. Por exemplo, nesta turma, eles não sabem atar os atacadores, vestir os casacos. Isso é uma coisa que já tinha de vir adquirido aos seis anos. Há coisas que têm que têm de vir adquirido. Oh, não pode ser! Eu passo-me. Não pode ser. Acho que cada vez mais eles estão [a vir para a escola] mais bebés, menos autónomos.
Arquivos\1º Ciclo\Celeste
Sabemos que os alunos para aprenderem a pesquisar têm que pesquisar, têm de saber, têm que passar eles próprios pelo processo de desenvolver um projeto, de o comunicar aos colegas. Se vamos fazer só porque está no papel e vamos aqui dar cumprimento a isto porque temos que fazer, acaba por não ter depois o impacto pedagógico que devia ter, nem os resultados que eram expectáveis. Isso só se aprende fazendo e partilhando o que se faz e aprendendo com os outros.
Arquivos\1º Ciclo\Gabriela
Eles gostam tanto de ver a mãe, ficavam tão felizes de ver a mãe na escola. Eu acho que é mais de se saber levar as pessoas na comunidade local e na comunidade escolar.
Arquivos\1º Ciclo\Gaspar
O nível de comportamento degradou-se, eles eram mais humildes. Havia também aqueles problemazinhos que ocorriam, às vezes, no recreio, mas eram solucionados no próprio dia. Entre eles e o professor, era ali que se geria a situação e onde ficava o problema resolvido. Hoje não.
Arquivos\1º Ciclo\Gisela
Há 40 anos atrás? Eles chegavam à escola e não sabiam pegar no lápis. Eles não conheciam as cores. Agora tem a pré e já é diferente. Essa fase já está ultrapassada. Mas no início da minha carreira nós tínhamos ali, sei lá, um mês para eles aprenderem a fazer grafismos, a aprenderem a pintar, essas coisinhas assim.
Arquivos\1º Ciclo\Isadora
As crianças também são diferentes. Antigamente elas ficavam deslumbradas. Hoje já não é assim. Hoje já não é assim. Eles já conhecem tudo. Qualquer coisa que se apresente, primeiro mostram interesse, mas depois desmotivam-se.
Arquivos\1º Ciclo\João
Depois os surdos, também, foi uma coisa interessantíssima. Eu sei dominar a Língua Gestual, e porque,termos necessidade de recorrer a um gesto que seja um gesto inventado por nós, o que é absolutamente fundamental, porque as crianças surdas, para eles, o que é importante é o substantivo, e o verbo e a ação, e o nome, o adjetivo e os conectores, as palavras de ligação, os elementos de ligação. E esse é o nosso trabalho. Mas a escrita deles mostra isso. Isso fascinava-me.
Arquivos\1º Ciclo\Lisboa
Se bem que eu vou contar um pormenor: um menino, no último ano em que eu trabalhei, um menino do primeiro ano, logo na primeira semana (são tão engraçados! O primeiro ano acho que era o ano que me cativava mais ainda porque eles são assim muito abertos, dizem o que pensam e mais nada). E diz-me logo assim: “Ó professora, veja lá, não me passe lá muitos trabalhos se não estou feito ao bife!” (Risos). Foi uma das coisas que logo me avisou “Veja lá, não passe muitos trabalhos…” (Risos). Eu tinha outro, na mesma turma também que me dizia muitas vezes quando era a hora da leitura (Ele só tinha cinco anitos, era o mais novinho da turma, só fez os seis a 31 dezembro) “Li bem, professora? Li bem?” “Leste, meu amor, leste muito bem. Tu trabalhas muito!” E ele, muito contente!
Arquivos\1º Ciclo\Marlene
Muito mais! Havia uma autoridade. O professor podia ter autoridade sem ser autoritário. E agora, nem autoridade, nem autoritarismo. Eles não ligam nenhuma. Isto está-se a repetir cada vez mais, cada vez mais. Como a colega sabe, no primeiro ciclo não podemos pô-los na rua.
Arquivos\1º Ciclo\Mónica
Mas de resto tenho tido sempre boas relações com os pais e com os miúdos. E depois há uma coisa que eu acho que, às vezes, os pais não entendem, e talvez seja mais os pais mais escolarizados, posso dizer assim, que se forma uma relação de cumplicidade muito grande entre os miúdos, turma e o professor. E há coisas que os professores dizem aos miúdos e os miúdos dizem aos professores que mais ninguém entende a não ser naquele contexto, porque é o modo deles, é a cultura deles, é aquilo que eles fazem.
Arquivos\1º Ciclo\Morgana
Para mim, as crianças, e falando um bocadinho sobre a relação com as crianças, são seres inteligentes com quem se pode falar e não precisamos de falar como se fossem adultos. Mas eles têm questões e questões muito pertinentes e, portanto, é muito importante para mim. Senti que a sociedade desvaloriza, que há um pensamento comum que desvaloriza o trabalho com esta faixa etária, mas que não tem qualquer sentido. Porque, ao mesmo tempo que se trabalha com as crianças, trabalha-se com os colegas e trabalha-se com os pais. Faz-se um trabalho comunitário, de ligação e de articulação, que é muito relevante em termos de impacto na própria comunidade.
Arquivos\1º Ciclo\Nélia
Porque é assim, eu digo-lhe uma coisa, eu sinto neste momento os miúdos com muita falta de vivências. Porque os pais levam-nos a passear, mas eu acho que tem a ver com o desenvolvimento das crianças. Agora para as crianças está tudo muito rápido. Não se fixam em coisa nenhuma. Vão a qualquer sítio e não veem nada. Vou-lhe contar uma coisa que se passou há uns tempos, engraçada, olhe ri que me fartei. Fomos a Castro Marim, à Biblioteca, ao todo são nove quilómetros. E fomos à Biblioteca Municipal para nos lerem uma história - faz parte das atividades da biblioteca. Então qual não foi o meu espanto quando duas das minhas alunas vieram com aquelas coisas que se usa quando se vai para os SPAs, para descansar os olhos.
Arquivos\1º Ciclo\Olívia
Depois, quando regressei ao ensino, eu fazia questão de todos os anos levar os meus alunos à associação. Acho que ficamos com uma visão das coisas diferente e com uma perspetiva para transmitimos aos nossos alunos, diferente. Nós recebemos alguns meninos com algumas características especiais e para algumas pessoas é difícil saber lidar ou aceitar. Temos sempre aquela tendência, as pessoas têm a tendência de "Não é o lugar dele vir para aqui ou devia ir para ali".
Arquivos\1º Ciclo\Roberta
Mas pronto, houve ali uma guerra e depois eu ganhei e não tive que fazer a formação e passei ao último escalão. E desde aí tenho estado bem por uma razão: eu tenho tido muita sorte com as turmas que tenho. As pessoas dizem "ah tens muita sorte com as turmas que tens", depois há outras pessoas que dizem "mas tu também é que as fazes". Tudo é verdade, mas eu sei o que é que vai parar às mãos de outros professores e também sei o que é que recebi, portanto acho que foi tudo junto. Tive alguma sorte, mas também trabalhei muito, isso eu sei que trabalhei. Porque senão também teria outros casos complicados que fui sempre controlando desde o início e, portanto, nunca deixei que fossem um grande problema. Mas pronto, eu vejo na minha escola miúdos com problemas emocionais, agora não, mas houve nos últimos cinco anos casos complicadíssimos de lidar. Muito difíceis de lidar! E eu não tive nada disso. Nem no último grupo, nem no penúltimo, nem neste que recebi agora. E felizmente não tenho um caso que me dê cabo da cabeça. Tenho uma turma que não se cala! Falam, falam, falam, falam, falam, nunca tive uma turma tão faladora. E eu sempre a tentar que eles se interessem e que não falem. Têm esse 'senão' mas também falam de assuntos importantes, não falam parvoíces, estão a falar de coisas da sala "estou a pintar esta bola", "e eu estou a pintar de verde", mas estão sempre a falar! Mas é uma turma engraçadíssima, portanto eu estou motivada. É uma turma que dá vontade de trabalhar com eles, porque são interessados e são muito vivos. Por isso eu estou muito contente.
Arquivos\1º Ciclo\Zacarias
Porque infelizmente é algo que parece que é geral, os colegas a queixarem-se que o primeiro ciclo está a ser um bocadinho posto de lado. Ainda não entenderam que aquilo é específico, tem condições específicas, modos de funcionamento diferentes. E mesmo o relacionamento com os miúdos, não é a mesma coisa falar com um miúdo de seis anos como com um miúdo de 11 anos ou 12 anos. Mesmo o tipo de atividades.
Arquivos\2º Ciclo\Adelina
Gostei dos alunos. Sim, aqueles primeiros anos foram uns anos - os primeiros e os outros também - mas os primeiros porque a escola ainda era uma coisa muito nova para os meninos e, portanto, tudo o que era conhecimento, saber e situações de transformação nas próprias vidas deles eram muito bem aceites e os alunos eram todos ainda muito ávidos das coisas que iam aprendendo na escola. A partir de uma certa altura as coisas foram um bocadinho diferentes, noutros contextos e noutras situações foram diferentes.
Arquivos\2º Ciclo\Alda
Depois também as crianças cada vez menos receptivas ao ensino, mais revoltadas, com mais problemas de integração. Não estando bem, não há quem aprenda bem, nem quem ensine bem.
Arquivos\2º Ciclo\Aldina
Um tempo para brincar! Fazer o quê? Nada. Vamos brincar lá fora, sem telemóveis. Vamos brincar, saltar, correr. Eles, normalmente, jogam à apanhada. Portanto, se houver nomes com 'mais um' no quadro, não há botões e também há um possível recado para casa. E o que é que acontece? Acontece que isto é uma grelha que se vai preenchendo. Quando as turmas são muito complicadas, e isto resulta para todos os alunos, todos mesmo, quando há um ou dois em que não resulta, que é normal, não resulta mas abranda. Às vezes são crianças muito agitadas, em que é preciso um tête-à-tête especial, ou ponho dois rebuçados em cima da mesa e digo "comes no final da aula se". Os outros todos percebem que há sempre uma tolerância maior para aqueles alunos. Mas isso faz parte da vida, não é? Os alunos percebem que os professores são justos, mas injustamente justos.
Arquivos\2º Ciclo\Carlos
Tenho que salientar que tinha uma turma com outros colegas, durante esses últimos dez anos, e trabalhava-se muito bem, existia planificação, analisávamos os pontos de vista, tinha-se uma imagem de aluno que expressava as artes e acima de tudo existia respeito entre nós.
Arquivos\2º Ciclo\Carmo
As pessoas entravam, deixavam os 10€ divididos logo em duas malas e depois comprei ténis, sapatilhas e calças de treino. Depois, sobrou um dinheirito e eu pensei: "O que é que eu vou fazer?" Eu tinha uns [alunos] pobrezinhos, pretinhos, e vou perguntar quais são aqueles que não vão ao cinema há mais tempo. Então, arranjei doze putos que nunca tinham ido ao cinema, agarrei neles com mais uma professora e amigos - na altura ainda fazíamos assim - fomos comer pipocas. Imaginas, ali os pretinhos, foi assim.
Arquivos\2º Ciclo\Cecília
Os alunos mudaram muito. Eu acho que entre professores, famílias e alunos, se fizermos aqui uma pirâmide, se fizermos aqui uma hierarquia, no topo da pirâmide são os alunos e as famílias. Os alunos mudaram, fruto da sociedade. Aquilo que mais notamos, desde 1988 até hoje, 2022, aquilo que mais mudou, foram alunos e famílias. Para nós, os professores, a mudança foi muito mais lenta. Eu gostaria que tivesse sido o inverso, gostaria que nós, professores, não estivéssemos na base da pirâmide, que nós tivéssemos conseguido evoluir da mesma forma, que tivéssemos conseguido acompanhar, de facto, a evolução dos alunos, mas não conseguimos. Eu, quando comecei, o público-alvo – os alunos – eram alunos muito diferentes. Também depende das regiões onde se dá aulas, mas os alunos são completamente diferentes, os jovens são jovens tecnológicos,
Arquivos\2º Ciclo\Constança
Mas notava-se mais. As crianças eram mais mordazes nesse aspeto, elas às vezes, se a coisa corresse mal ou se o aluno se pusesse a jeito imediatamente se dizia "porque és do bairro". E os do bairro também gostavam de afirmar "somos do bairro e vamos fazer-vos a vida negra". Neste momento não se sente tanto isso.
Arquivos\2º Ciclo\Esmeralda
E essas crianças, engraçado, acabamos por ter aprendido mais por essas crianças que precisam de nós inteiramente, não só para ensinar, como para dar mimo, educar.
Arquivos\2º Ciclo\Fátima
Depois lembro-me que tive uma turma muito difícil, com miúdos muito rebeldes, que faziam de propósito para me estragar as aulas assistidas, respondiam ao contrário, uma coisa incrível, isto no tempo do estágio.
Arquivos\2º Ciclo\Fernanda
São uns alunos que saem de uma mãe e que vão precisar de uma segunda mãe no segundo ciclo e essa transição que é sempre tão difícil, a transição de ciclos é muito complicada.
Arquivos\2º Ciclo\Glória
E a professora de História tinha ficado fora do seu juízo, não me admira, aqueles alunos eram alunos muito complicados.
Arquivos\2º Ciclo\Iva
Hoje há outra coisa que tem de se dominar, que é o interesse da turma e o comportamento. Os alunos são menos passivos do que antigamente. Ora bem, mas ainda não perceberam. Eu em 43 anos [de trabalho] só fiz uma participação disciplinar. O que é que eu acho que acontece hoje em dia? Os miúdos desinteressam-se absolutamente, porque aquilo que o professor tem ali no ecrã é o mesmo que está no livro, tal e qual. Portanto, eles não lêem o livro porque se aborrecem com o livro. Não lhes ensinam a fazer uma pesquisa, não fazem uma pesquisa, não constroem um texto.
Arquivos\2º Ciclo\Joca
Portanto, são esses alunos. É o percurso desses alunos que apanharam problemas por causa da pandemia, que agora vão apanhar também eventuais problemas por causa da falta de professores, ou da desmotivação do professor, do que queiramos chamar. Há aqui uma geração que vai ficar brutalmente afetada, não tenho dúvidas, por causa destas questões.
Arquivos\2º Ciclo\Maria Luís
Tudo era pacífico, havia ordem, nessa altura havia... era uma maravilha. Nos miúdos, havia regras, respeitavam-nos e tudo o que era dito era feito. Havia realmente coisas fantásticas.
Arquivos\2º Ciclo\Orlanda
Aliás, muita gente me dizia assim: "ai, porque tu só ligas aos maus alunos, e tal" – os bons alunos têm tudo. Os bons alunos têm tudo, e até estimulava os bons alunos a concorrerem a projetos, concursos e tudo. Tivemos uma aluna que ganhou um prémio da Gulbenkian cujo prémio foi ir com a professora de Ciências às Ilhas Galápagos, que era na área da Biologia – nós também estimulávamos, portanto, os bons alunos, a parte que tinha mais competências, que já vinham adquiridas de casa, e que tinham mais responsabilidade para, também, acederem a projetos completamente diferentes e [perceberem] que, muitas vezes, a escola tinha de estar muito virada para esses alunos mais deprimidos, com menos possibilidades, com menos competências dos pais, etc. A escola acho que tem um papel importante, aí, na relação dos pares, também.
Arquivos\2º Ciclo\Quitéria
A turma da noite eram pessoas que queriam realmente aprender. Eram poucos, tinha uma aluna que era professora de primeiro ciclo e queria aprender, queria tirar o 12.º ano. Na altura para o primeiro ciclo não era preciso o 12.º ano e ela queria o Inglês e queria tirar. Então ela tinha um jardim na escola dela e todas as semanas ela levava flores à sexta-feira. Era um amor. Tinha também um senhor que trabalhava na secretaria lá da escola, eram pessoas já com alguma idade que queriam a sua formação profissional, melhorá-la para progredirem na carreira. Só tinha um garoto mais novo, mas também não era complicado. Não me lembro assim de ter tido grandes complicações.
Arquivos\2º Ciclo\Rosário
Entretanto, eu fui para Marrazes. A escola dos N. era uma escola diferente daqui, porque aqui era mais uma escola de elite… porque foi a massificação, em 1975 houve a massificação do ensino, em que vinha tudo e mais alguma coisa. Era uma escola em que havia muitos miúdos de diferentes níveis. E tornou-se muito difícil conseguir acompanhá-los. Mas tudo se passou e depois, de lá, vim para aqui.
Arquivos\2º Ciclo\Sofia
Tive turmas ótimas e outras turmas mais... até se notava nos recreios. Tive turmas de meninos de colégio e turmas de meninos de várias zonas... Não eram filhos de pescadores, mas era gente que trabalhava no porto de Leixões. Eu lembro-me que aquilo foi um embate para mim, porque apesar de ter turmas complicadas em Paços de Ferreira e na Régua - nada comparado com o que é hoje - em Matosinhos eles destruíam as secretárias todas! Até foi preciso virem secretárias de outras escolas, já tinham lá posto não sei quantas mesas até que a DREN disse: "Nem pensar!" e foram buscar aos arrumos de outras escolas, secretárias, daquelas dos anos 40, ainda com buraquinho para o tinteiro - o que era pior porque como eram mesas individuais eles andavam com elas pela sala.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Agustina
Constato que a estrutura familiar dos alunos, o tipo de famílias que vão sendo alteradas, e esta… eu não sei se posso dizer isto, mas vou dizer. É assim. Antigamente dizia-se: “O aluno precisa de ser socializado e a escola é um bom nível de socialização”. Claro, claro. Mas parece um paradoxo, mas não é. Porque o aluno, hoje em dia, está aparentemente mais socializado, mas também está muito só e muito isolado. Vive muito em grupos, enquanto que nós estamos ainda numa estrutura social – Paredes e Penafiel – ainda muito estabilizada. Mas antes… eu sentia os alunos… esses sim, socializados no sentido de… podiam até ser de faixas socioeconómicas diferentes, mas viviam em conjunto, partilhavam as casas, partilhavam os estudos. Hoje eles são canalizados para centros de explicação em que debitam, em que os obrigam a debitar. E [n]isso é que eu senti alteração: Alunos mais sós, inseridos à força, por vezes, em grupos, para que seja dito que estão socializados – que é a tal aparência social – e depois muito pressionados pelas famílias, nos alunos de topo, para entrarem com aquelas médias. Muito pressionados e, portanto, que se esgotam. Eu tenho alunos que chegam ao final do ano, na parte de Medicina, que é à décima [a contagem da nota] e, portanto, com uma pressão muito, muito grande.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Amadeu
Agora, se é sorte, possivelmente também é, mas, efetivamente, a qualidade destes alunos tem ajudado muito à minha manutenção e acréscimo de motivação relativamente a este tipo de trabalho, ao gosto que eu tenho por trabalhar com eles.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Amália
Mas os meninos – era outro tempo, também – valorizavam muito a escola, os meninos e os pais dos meninos. Empenhavam-se – eu tive muito bons alunos, na Régua, muito bons alunos, mesmo.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Amélio
Olhe, eu digo-lhe uma coisa, ao longo da vida passei por três níveis de ensino, pelo ensino preparatório - foi lá que iniciei a minha vida profissional - Ensino Secundário e Ensino Superior. E eu tenho a ideia de que onde é mais fácil dar aulas é no ensino superior. É verdade. É mais fácil. Muito mais fácil.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Aurora
Foi extremamente gratificante aquele período porque verifiquei que, de facto, - eu já sabia mas tive a verificação – que as pessoas têm muito mais do que aquilo que pensam, valem muito mais do que aquilo que pensam. Passaram por lá pessoas espectaculares! Quer como seres humanos, como em conhecimentos.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Caetana
Por exemplo, havia muitos alunos que me tratavam pelo nome e eu cheguei a ser chamado ao Conselho Diretivo "Porque é que os alunos me andavam a chamar Caetana" "Olha, porque eles sentem-se bem assim, gostam e são educados".
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Camila
Os mais novos eram, enfim, um terreno mais virgem e dos mais velhos podia-se fazer aulas muito mais interessantes, principalmente se eles fossem bons. E nós no H. tínhamos alunos normalmente bons e durante muitos anos. Depois, claro que a ênfase no ensino foi-se degradando um bocado e já tínhamos alunos menos bons, mas eu tive turmas muitíssimo boas. Muitos dos meus alunos voaram alto. Ainda hoje são pessoas, enfim, consideradas, quer na comunicação social, quer nas artes. Eu, por exemplo, fui professora do RC [locutor de televisão], do TC [ator], do ML [professor universitário] que está agora na Faculdade de X, eu tive assim alunos... Tive turmas fantásticas.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Catarina
Eu, no ciclo, cheguei a ter que separar meninos que iam entrar ao pontapé uns aos outros. E eu também percebo que isto se deve ao facto de que, cá em Portugal, muita criançada que deixava de estudar passou a estudar. Com ambientes em casa absolutamente catastróficos, filhos de pais alcoólicos, violência doméstica, eu tive de tudo. Eu tive de tudo! No ciclo ainda tive um miúdo que, depois vim a saber pela mãe, que apanhava de cassetete porque o pai era guarda fiscal e o miúdo apanhava de cassetete. Depois chegava à escola e o que é que ele fazia? Enfiava os outros no quarto de banho e fazia exactamente o que o pai lhe fazia em casa, tirava-lhes a blusa e era com paus que apanhava cá fora. E esse miúdo foi para o Hospital Militar aqui no Porto e passou a ser um miúdo calminho, no fim, era calminho, mas estava sempre ausente. Devia andar lá com calmantes ou outra coisa qualquer, porque foi um miúdo que, em plena sala de aula de Inglês, onde ele tinha uma professora problemática - que andava em tratamento no [Hospital] Magalhães Lemos - e esse miúdo abriu a carcela e pôs tudo de fora na sala de aula. E pronto, imagine, a professora já tinha problemas, olhou para aquilo, fez um escarcéu. Os outros todos que nem tinham reparado… Quer dizer, eu pensei, se fosse eu mandava sair o resto das pessoas e ficava com ele. Porque ele era miúdo, tinha 12 anos, era do primeiro ano e até era um miúdo que fora essas coisas, era um miúdo calmo. Mas eu ia-lhe perguntar: "Porque é que tu fizeste isso Z.M.? Por que é que fizeste? Tu achas que os teus colegas nunca viram e querias chocar?". Ela não! Fez um escarcéu e eu tive que chamar o pai que era guarda fiscal. E depois verifiquei que o miúdo, realmente, às vezes aparecia com nódoas, com manchas. E a mãe depois veio me dizer que ele apanhava em casa com um cassetete e foi horrível. Isso foi horrível, porque depois tive que chamar o pai e contar-lhe as cenas todas. Depois, o tratamento do miúdo foi: o pai levou-o para o Hospital Militar. Um dia o rapaz disse-me: "Oh, professora, há pessoas que adivinham tudo", e eu: "Ai, adivinham? Ora diz lá, adivinham o quê?". "A minha mãe leva-me todas as semanas ao Santinho de São Mamede". Olhe, imagine bem o tratamento do rapaz. Por um lado, andava no psiquiatra do hospital, e depois todas as semanas ia com a mãe para o bruxo. E ele era assim: "Ele sabe o que é que eu fiz na escola. Ele diz-me sempre todos os dias que fizeste não sei quê". Mas o rapaz estava nesta ambivalência, por um lado, o bruxo, por outro lado, o psiquiatra que o tentava tratar e lhe dava uns calmantes, porque ele chegou-me a adormecer na aula, a ficar muito sonolento. Mas a gente passava por coisas que anteriormente não se passavam, que só um determinado estado social, no fundo, é que permite.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Célia
A dar aulas à noite! Turmas muito interessantes de alunos que vinham dos PALOP, isto na Escola Secundária da D.. Eram turmas enormes, muito grandes. Eram alunos que vinham com uma bolsa, estudar cá e queriam fazer o 12.º ano de [escolaridade], em Física. Eu, no meio disto, também dei aulas na escola alemã. Já não sei quando, não me pergunte. Eram alunos complicados. Complicados não como pessoas. Eram extraordinários, mas complicados, sabiam muito pouco.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\César
Depois também fiquei com a noite. Vinham os [alunos], os funcionários das finanças, os funcionários da escola que não tinham o 9.º ano [de escolaridade], vinham para completar. Era assim um ambiente... Era uma ilha, pronto. Não é o que é hoje. Mesmo os próprios madeirenses que eram do Funchal, quando vinham para Santana, parece que vinham para o fim do mundo porque tinham que atravessar a ilha. O clima era diferente, eles já achavam que era muito frio, [quando vindos] do Funchal. Não gostei.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Chico
[Nas outras] eram miúdos, do ponto de vista social, bem sucedidos, bem apoiados pelas famílias. Já se estava à espera que fossem doutores e engenheiros. Esta miudagem do Guta e do amigo estavam à espera que fossem ladrões. Portanto, é essa distância, que é quase como dizer que se produziu muito efeito.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Clorinda
Como é que eram os alunos? Foi essa relação que me prendeu. Eu comecei a gostar de... Eu sempre gostei de me relacionar com pessoas. Eu gosto muito de pessoas. Gosto mesmo de pessoas. Acho que o diálogo é um dos bens que quando conseguimos, acho que é um dos bens que nós temos. Comecei a perceber que conseguia chegar também aos alunos, também por outras vertentes, não esgotar a vertente só na matéria propriamente dita, de uma maneira muito incipiente.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Eva
Depois, sei lá, há turmas que nos ficam e que nós, por razões várias, mas normalmente as que ficam são as boas. As turmas/alunos que, não quer dizer necessariamente que sejam alunos brilhantes, com 20 a tudo, mas alunos com quem se pode trabalhar, com quem se pode inventar, fazer coisas fora da caixa e que são alunos que quando nos vêem ou quando nós os vemos há ali uma empatia que continua, e recordam-se bons momentos.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Hélder
Os alunos hoje são muito mais conhecedores na generalidade. São muito mais participativos do que eram há 20 ou 30 anos. E foi isso que eu notei durante a minha vida toda, que à medida que íamos avançando, os alunos vinham com outra vontade. Quer dizer, também há alguns que no crivo lá iam ficando até ao nono ano. Eu cheguei a receber turmas no 12.º ano que eram consideradas intratáveis. Os professores de 10º ano abandonaram-nos, os de 11º abandonaram-nos e comigo foram fascinantes. Uma que fui buscar ultimamente, no exame houve quatro 20 em português. Não é brincadeira nenhuma! Portanto, são alunos que a gente vai buscar, cativa e depois é fascinante ouvi-los falar. Depois diziam "ah mas eu nunca tinha visto isto", e eu "pois, nunca tinha estado no 12.º ano". "Não!!", pois, mas esta matéria é de 12º".
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Ivone
Há grupos de alunos com que nos relacionamos com toda a facilidade, de uma forma muito simpática, muito agradável, muito colaborativa, muito positiva, e há outros em que é difícil, mesmo no mesmo ano, de uma sala para outra, de um grupo para o outro. Há fatores que nos escapam, mas que de facto criam empatia ou não empatia. Sendo a mesma pessoa, mas com grupos diferentes, as coisas não funcionam bem ou podem funcionar muito bem ou podem não funcionar tão bem.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Joana
É mais difícil lidar com alunos, filhos de pessoas com muito mais poder económico e social. Tem de se pensar, dar a volta, ver o que é que eles queriam, dar-lhes de novo as perguntas que eles muitas vezes faziam com ar provocatório. "O que é que tu achas? O que é que tu dirias?". Eles aí iam desmontando. Aí implicava um bocadinho mais de raciocínio, de ver como é que se vai dar a volta ao texto, também.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Lara
As aulas eram muito tranquilas, porque os miúdos chegavam e, efetivamente, aquelas tarefas que tinham que ser feitas e que tinham sido pedidas apareciam feitas. Era raro o aluno que não fazia as atividades que eram pedidas. É verdade. Era uma zona muito pobre aquela, muito fria. Eram miúdos muito humildes, muito queridos. E então o que eu lembro desses alunos era como se fossem quase uns pintainhos, sabe? Muito agarrados à professora. Ainda hoje eu recordo o nome de alguns, e guardei as fotografias deles e essas coisas todas. Portanto era muito agradável.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Luciana
Depois tinha aqueles meninos. Muito habituados a empregadas… houve uma vez… a primeira discussão que tive lá com uma miúda. Foi… ela vai sem equipamento [e deitou as culpas para a empregada doméstica da sua casa] que não lhe arranjou o equipamento. Tudo era motivo para eu não gostar, não gostar. Entrei lá naquele ano letivo, tinha contrato e depois fui-me embora.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Maia>
É uma coisa que nos distingue muito da juventude de agora. Eu não sou daquelas que diz que a juventude agora não sei o quê, pelo contrário. Acho que esta malta vai dar cartas, mesmo. Mas nós crescemos mais depressa, é um facto. Nós naquela altura, eu quando via, com 17 anos, tinha à minha frente uma plateia com 300 pessoas. Eu não estou a ver hoje uma miúda com 17 a gerir uma plateia com 300 pessoas. Não estou, não estou. Quer dizer, não estou. Se calhar, também as há, não é? Mas estão escondidas, não estou a ver.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Maria
E eu tive estagiários e vi o défice de muitos na área do saber fazer e do fazer. E, alguns alunos que já praticam desporto, quando vem um professor que não tem, que tem um défice, não calha bem. E hoje em dia, os nossos alunos, de uma maneira geral, até têm acesso à prática desportiva e estão bem.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Matilde
É uma ideia que eu tenho, que tem a ver com uma situação que, infelizmente, mais tarde começou a acontecer... nessa altura os alunos, não havia assim este problema disciplinar que passou a haver, que era um problema disciplinar que se tornou grave, mas, portanto, nessa altura esse caso era uma exceção. Quando eu comecei a trabalhar não havia nada disso, esse rapaz foi uma exceção.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Otávia
Sim, prefiro os [alunos] mais velhos, sem dúvida. Porque razão? Porque já abandonaram aquela fase das queixinhas. Permite-se um projeto mais substancial, de maior responsabilização dos alunos, de maior empenho. Eles empenhavam-se mais e eles próprios já sabiam mais. Já sabiam o que era investigar, como investigar, o que pesquisar, como pesquisar.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Rómulo
Também são miúdos diferentes, do meio rural. Não há problemas disciplinares. São miúdos com interesse na escola.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Teresa
Mas se alguém, agora, me perguntasse, o que eu noto agora e o que são os comportamentos dos alunos, dos pais... portanto, os professores agora em sala de aula têm que ter muito punho de ferro. Porque os miúdos quando não querem, não querem e portanto, têm que ser umas aulas muito dirigidas para eles - e agora estou-me a lembrar de outra coisa e que posso já daqui a bocadinho dizer - e a escola não lhes diz mesmo nada e não dizendo nada é o fim do mundo. E em termos comportamentais e de notas, mesmo em termos de comportamentos para o ambiente, deitam tudo para o chão, é preciso estar sempre a chamar a atenção. São assim, não são muito cuidados, são desleixados e pronto. Em termos comportamentais, é aquilo que eu noto mais diferença. Acho que está mais degradado.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Tita
Depois, eu explicava-lhes, claro que havia também de tudo. Eu tive lá um aluno, que ainda hoje o recordo, ele tinha vindo imigrante de França, mas isso foi depois já no segundo ano, em que estava ainda também… que nos obrigavam, obrigavam não, nós se não tivéssemos formação em Francês tínhamos que pedir a alguém para dar Francês. Porque eles, depois, ficavam habilitados para seguir o terceiro ano do liceu. Então, eu pedi, mas nunca mais veio o professor. Então, resolvi dar o Francês. Aquelas coisinhas, muito… tinha esse aluno que dominava o Francês, era ele que dava as aulas comigo…
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Violeta
Eu não tenho muita pena de me reformar, porque eu lembro-me da minha juventude, dos primeiros anos em que eu dei aulas, em que tudo aquilo, para nós era divertido, encarávamos aquilo como…não era natural, mas pronto, resolvíamos os problemas com facilidade. Agora temos dificuldade em…eles não se sentam, eles não se calam, e nós já temos dificuldade em lidar com esta atitude, porque eles faziam aqueles disparates todos, mas nós comandávamos a aula. Pelo menos, eu.
Arquivos\3º Ciclo e Secundário\Virgílio
Dos alunos, eu guardo quase todos. E eles escreviam sempre, no final, textos muito bonitos sobre aquilo de que tinham gostado mais, que tinham gostado menos. E eu guardei alguns. De facto, os miúdos gostaram.
Arquivos\Pré_Escolar\Adelaide
Em relação a coisas boas... eu sei lá... o dia a dia é bom. Estar com os meninos é tão bom, sei lá... ajudar as famílias também é. Não sei, acho que tem sido tudo bom...
Arquivos\Pré_Escolar\Ana Rosa
As crianças nesse momento passavam o dia praticamente excetuando o tempo de recreio, passavam o dia sentadas numa cadeira. Era assim aos cinco anos.
Arquivos\Pré_Escolar\Guiomar
Eu tenho recebido ao longo da minha carreira crianças que não sabem brincar. Já recebi várias crianças que ficam, andamos todos a brincar e elas estão separadas no cantinho a olhar, como quem diz o que é que é isto aqui? não sei o que é que vai na cabeça deles.
Arquivos\Pré_Escolar\Helia
Mas interessa que seja uma bagunça ordenada, porque eles com a idade, vão-se organizando e a bagunça vai tirando. Eles vão sendo capazes de determinar, sabem tudo, sabem pegar nos objetos.
Arquivos\Pré_Escolar\Maria Tiago
Sim. Fundamental. Eu costumo dizer que tive sorte porque iam-me surgindo convites. Mas sei que também determinei muito o meu caminho. Porque eu queria muito ser a melhor educadora que eu conseguia ser. Eu tenho muita consciência de que nós marcamos profundamente as crianças. Tenho muita consciência de que a educação de infância de qualidade é um direito. Eu trabalhei sempre em comunidades muito frágeis. Ultimamente a U, de que nunca me desvinculei, é um contexto muito difícil.
Arquivos\Pré_Escolar\Nena
Inicialmente trabalhei em meios muito mais rurais. Por exemplo, na minha tese de mestrado eu abordo isso, eu fiz um estudo comparativo entre meninos do meio rural e meio urbano. Não tem nada a ver. Porque cada qual tem a sua necessidade. O que para aqui é uma necessidade, para eles não é uma necessidade. Um conhecimento lá, aqui é completamente posto de lado, completamente. E o contrário a nível de outros recursos tem lá até mais dificuldade. Em termos de relacionamento, talvez os miúdos da aldeia sejam os que mais apreciem a escola, o ir para a escola, estar na escola. Eu acho que apreciam mais. Aqui na cidade o que eu verifico: os meus meninos gostam de vir à escola, agora eu acho que o que faz com que eles se cansem da escola é eles estarem demasiado tempo na escola.
Arquivos\Pré_Escolar\Noel
Aliás, do primeiro grupo de crianças que tive do jardim de infância, só um é que não era trabalhador agrícola, de 24 pais, porque era guarda republicano, os outros eram todos trabalhadores agrícolas. Depois não, isso modificou-se, essa composição sociológica foi-se modificando ao longo do tempo. Mas os primeiros anos eram quase todos.
Arquivos\Pré_Escolar\Rute
Fiz um estágio, fiz um primeiro estágio numa IPSS em que os miúdos eram de um meio muito desfavorecido. E eu gostei muito dessa vertente... do dar às crianças aquilo que de facto elas precisavam, que era o carinho, a atenção, o cuidado; foi um primeiro contacto com uma realidade que me despertou muito interesse a ponto de, mais tarde, depois de acabar o curso e de querer continuar os estudos académicos, ter pensado mesmo em ir também para a vertente social.
Arquivos\Pré_Escolar\Tânia
Eu venho de um meio onde recebia meninos africanos, meninos ciganos, meninos com muitas necessidades, meninos com famílias muito frágeis. Eu cheguei ali ao colégio e eram só empresários, meninos a morarem em moradias com piscina, com carros espetaculares. Eu pensei: "O que é que eu estou aqui a fazer? Eu acho que para o ano vou embora outra vez". Pensei isto durante um ano. Gostava muito, estava a gostar, mas eu achava que aqueles meninos não precisavam de mim, que os outros é que precisavam de mim. Até que talvez em março, ou abril, eu começo a perceber que, de facto, estes meninos têm empregados em casa, mas não têm as famílias a dar-lhes atenção. [Meninos que] têm um conjunto de momentos favoráveis na sua vida, mas que nem sempre são os momentos que nós, enquanto educadores, consideramos que são fundamentais. A atenção, o apoio, o carinho. Muitas vezes, eu estava a falar com avós e com empregadas. Eu não falava com as famílias, porque as famílias estão muito ocupadas, no estrangeiro, a viajar, muito isto e aquilo.